Ao Abate

25/02/2012

Alexandre Abate, colunista nervosinho do LANCE! que me lembra os pipoqueiros mais irritantes com os quais topei ao longo da vida, resolveu dar seu soquinho na verdadeira pushing ball midiática que se tornou Arnaldo Tirone. Aqui. Aproveitou a demora nas negociações pela contratação de Wesley e entregou-se à seguinte liberdade:

  1. Tirou sarro do palavreado supostamente eufemístico – ou vazio – do cartola, que disse enfrentar dificuldades não apenas financeiras, mas “globais” em efetuar o negócio. Trata-se de uma bobagem, já que as dificuldades poderiam – concomitantemente às financeiras – ser de ordem contratual, tributária, fiscal, trabalhista, jurídica – e nenhuma delas é financeira, a não ser que Abate entenda por financeiro qualquer coisa que os financistas ainda não captaram o que seja. Em todo o caso, segue o desconto: admito, em hipótese, que Abate tem mesmo alguma informação verdadeira e que não está a entregar-se ao invencionismo ou à presunção, atitude muitíssimo mais comum no veículo, e que portanto o problema de Tirone foi mesmo ter contado, de antemão, com dinheiro que depois não veio. Pois bem. Essa passa, se bem que me dou o direito de deixar anotada para confrontá-la, no futuro, com a utilização que o jornalista fizer das palavras que escolher. Até porque não foi só isso. Vejam:
  2. Adiante, o papa-amendoins me sai com esta aqui: “Quando você, leitor, estiver lendo esse comentário, o clube pode até ter fechado o negócio. Mas que a transação foi estabanada, não tem como negar!“. Não, Abate, não.

Ou você está certo em tirar sarro de Tirone, ou está errado em tirar sarro de Tirone. Se ele conseguir contratar Wesley – e parece que conseguiu – você fez gracinhas e se deu mal. Transação estabanada é mais do que transação ruim: é uma transação ruim e que ainda carrega consigo circunstâncias agravantes. Não pode dar certo, ou não pode ser tão ruim e estabanada. E não, você não está se referindo à qualidade do negócio, ao custo-benefício, nada disso. Nenhum aspecto que não o sucesso da empreitada de contratar Wesley. Você está cagando regra, única e exclusivamente, sobre o sucesso das tratativas acerca da vinda do jogador. Nesse sentido, uma transação mal conduzida e, ainda por cima, estabanada, simplesmente não pode chegar a bom termo. Assim, se Wesley não vier para o Palmeiras, é bem possível que você tenha razão – é possível, ainda, que simplesmente tenha dado sorte. Mas, por outro lado, se ele chegar – e parece que chegou – de nada adiantará esconder-se atrás desse ridículo “olha-tenho-razão-de-qualquer-jeito”. Quer ver como posso ser altamente núcleo-corinthiano numa hora dessas? É só dizer que, em dando certo a contratação, Tirone obteve sucesso em sua ousada estratégia de forçar o Werder a aceitar melhores prazos, outras condições de compra – por exemplo, ofertas por apenas parte dos direitos relativos a Wesley ou, ainda, caro, caríssimo Abate, o diabo que o carregue – e patati, e patatá. Aliás, ao que tudo indica foi mesmo o que aconteceu. Quer me ver mais núcleo-corinthianoso ainda, sapecão? Se der errado, montillize a coisa e diga que a super estratégia estratégica estratagêmica deu errado; que pena, mas não tem problema, não há de ser nada, o Palmeiras já está atrás de Seedorf – ou do diabo que o carregue, Abatezinho ansiosa. Cada babaca que aparece…

Sim, trata-se de uma modalidade nova de jornalismo. Não sei se é boa, não sei se é má. O que sei é que, se o Corinthians pode ter um, então eu também quero. Quero um Núcleo Corinthians pra chamar de meu.

Isso não é culpa dos jornalistas, é claro. É culpa – se é que se trata de culpa, penso nisso mais adiante – de quem edita aquela joça. Afinal, os caras estão fazendo algo quase que inédito na história do jornalismo esportivo brasileiro e, portanto, seria muita crueldade nossa sugerir que ninguém – mesmo sendo esse ninguém alguém que apite qualquer coisa naquele pasquim de merda, o que já depõe fortemente contra o sujeito – tenha notado movimento de tal magnitude. E não, não estou dizendo isso porque conheço Rodrigo Vessoni – não o vejo há coisa de dez anos, mas trocamos ideias às vezes e, de qualquer modo, gosto mesmo muito dele. E é por isso, para que não me confundam com o que não sou, que, antes de descer o cacete, passo a esta pequena – ou nem tanto, mas de todo modo absolutamente necessária – digressão:

No final da década retrasada – valha-me Deus – fui parar na central telefônica, comercial, de uma multinacional argentina – em nome da Virgem Santíssima, acreditem-me, existe mais de uma – que oferecia serviços de terceirização do almoxarifado das outras empresas. Chamava-se Officenet. “Papelaria, Informática, Copa e Limpeza, senhor”. Foi na Officenet, inclusive, que conheci a Jovem Esposa – o que deposita todas as minhas lembranças daquele tempo numa espécie de solo sagrado de minha memória. Lá pelo terceiro mês – a empresa era nova aqui e havia, como se gosta tanto de dizer por aí, muitas oportunidades – me passaram ao departamento de Crédito e Cobrança. Outro endereço. Saí da Barra Funda, daquele edifício azul espelhado da Atento, na Júlio Gonzalez, e fui parar na Vila Olímpia, num outro edifício, metidão, em frente ao que hoje é o ótimo “The Fifties” mas que, na época, era um “Feijão de Corda” – aliás, muito bom.

Nos dias seguintes à mudança uma nova leva de “Hunters” – socorro – foi contratada para ampliar o departamento de “Primeira Venda”, que é o que os “Hunters” – porca miséria – faziam.  Dentre os novatos, o gorducho Rodrigo Luís Vessoni. O primeiro contato que tive com ele foi este: havia listas de e-mail, obviamente clandestinas, entre funcionários; listas com as mais diversas finalidades, clandestinas todas. Uma delas, claro, era discutir futebol clandestinamente. A despeito de ter mudado de cargo, de prédio e, graças a Deus, de salário, ainda tinha muito contato com a turma antiga, e enfiaram-me – clandestinamente também, vejam ao que nos obriga o tal mundo corporativo – na tal lista do futebol. Quem quer que tenha conhecido Vessoni, em qualquer fase da vida dele, sabe que a possibilidade de seu nome não constar ali, calouro o quanto fosse, era mais ou menos a mesma de Lady Gaga assumir o papado – só que na Idade Média. Enfim. Logo de cara, o sujeito solta que o Corinthians seria campeão paulista com facilidade já que, ora bolas, só havia sobrado, para as semifinais, o – ai, meu Jesus Cristinho – “Timão” e “mais três times do interior”, quais fossem: Ponte Preta, de Campinas, Botafogo de Ribeirão Preto e… o Santos, de Santos mesmo. Isso. Vessoni estreou comigo fazendo a décima oitava economia da União saltar a Serra do Mar assim, sem mais e muito menos sem menos. Não é para qualquer bobo.

Mais tarde, chegamos a trabalhar juntos – ele, primeiro, foi fazer extras no Financeiro. Depois, transferiram-lhe de vez – e o cara era tão azarado que, a essa altura, a empresa inteira fora ajambrada dentro daquele galpão na James Holland, Barra Funda de novo, que creio ainda servir ao Submarino. Deram-nos um refeitório horroroso e cortaram-nos os tíquetes. Para completar, trocaram o seguro de saúde pelo primeiro que, relativamente ao anterior, lhes pareceu o pior possível. Não demorou muito e ambos fomos para o olho da rua. Eu, porque era – aliás, ainda sou – boca suja. Ele, basicamente, porque dizia – num misto de honestidade e inocência meio que mal dosadas – para quem quisesse ouvir que seria jornalista esportivo, que aquilo ali era pra pagar a faculdade de jornalismo – ela própria mera baldeação entre a vida preparatória e a verdadeira, de jornalista esportivo – e que não, ele não tinha a menor pretensão de “progredir”; afinal, estava tratando era de ser jornalista esportivo e, talvez, quem sabe, alternativamente, jornalista esportivo.

Ou, ainda, jornalista esportivo. Nada nem além, nem aquém disso, nem mais e nem menos do que jornalista esportivo. Uma obsessão que superava até – e tenho a impressão de que ele mesmo jamais tenha notado isso – a própria paixão clubística que a proporcionara. E foi o que se deu. Entre uma coisa e outra, nos tornamos amigos. Vessoni – aliás, toda a família dele, ainda que eu não saiba até que ponto os pais soubessem disso – me ajudou muito no começo da minha vida de homenzinho. Éramos todos uns quebrados, todo o mundo pagando faculdade e eu, adicionalmente, morando sozinho, em pensão. Vivia enfiado em meias furadas. O pai dele não era menos quebrado, mas tinha lá sua quebrada confecção e, com ela, quebrou-me inúmeros galhos. Vendiam-me, a preço de custo ou quase e a perder – mesmo – de vista, inúmeras peças de roupas cuja autenticidade era – como direi? – um tanto quanto chinesinha. Houve períodos de minha vida em que eu era praticamente um modelo da confecção que apelidáramos de Pançoni’s WearPolo by Pançoni e daí em diante. Por outro lado, tratava-se na maioria das vezes de camisetas, e das honestas – algumas das quais ainda uso, em casa, motivo pelo qual a Jovem Esposa ainda quer “dar uns sopapos naquele gordinho”. As que não me serviam mais foram doadas em bom estado e, se os novos proprietários precisarem delas tanto quanto eu, há mais de dez anos, precisei, creio que as estejam tratando com a dignidade devida para que, ainda hoje, estejam por aí os protegendo do calor e do frio. Durante minha vida adulta chorei duas vezes, escondido, em banheiros de empresa. A primeira foi quando sequestraram Eric Stempliuc – Vessoni deve se lembrar disso – e achávamos que ele estava morto. A segunda foi quando demitiram o velho e bom Pançoni. Isso não se faz.

Além do mais, Vessoni não é um palhaço pretensioso que tenta fazer o que não sabe; gosta de futebol e assiste mesmo aos jogos a respeito dos quais depois fala, e tudo isso somado poupa os corinthianos de lerem muitas das barbaridades, materiais e formais, que se podem encontrar no restante do tabloide. Ele faz a coisa mais difícil para essa raça: não complica. Como vocês puderam notar, acabou a digressão. Feito isso, expliquem-me o seguinte:

  1. Quando foi que qualquer jornal ou encarte esportivo, no Brasil, se preocupou com a responsabilidade acerca daquilo que publica em relação aos clubes? Dá pra contar nos dedos os veículos que, ao longo da História, adotaram qualquer procedimento mais ou menos racional. O padrão sempre foi outro: vamos vender e, de preferência, vamos vender ajudando nosso time – seja ele um clube, seja ele uma ideia. Ah, seu exagerado. Sei. Assim, de cabeça, algumas das manchetes de “A Gazeta Esportiva”, anos 90: Edmundo briga com Antônio Carlos, no vestiário. A briga vaza. Antônio Carlos, vale lembrar, surgiu num São Paulo idealizado – ainda que formidável. A capa? “Afastado o Mau-Caráter”, ou seja: Edmundo. Hoje todos conhecemos bem o caráter de ambos os envolvidos e podemos dizer, sem pejo, que tipo de emoção levava a “A Gazeta” a escolher seus vilões. “Isso Também é Pênalti”, para certo lance bem duvidoso que o jornal quis opor a penais escandalosos sofridos por jogadores do Palmeiras ao longo do certame estadual de 93 – era o começo da campanha lançada por um Telê Santana já em completo desequilíbrio emocional e que o jornal resolveu assumir para si: a do “Esquema Parmalat”. Não é demais lembrar aos coleguinhas que jornal nenhum deu asas a qualquer “Esquema HMTF” – não deve ter sido por falta de “fontes”, né mesmo? Isso sempre se arranja. “Ótima Derrota”, numa insinuação de que o Palmeiras entregara certa partida para o Corinthians a fim de evitar a chave do São Paulo nos quadrangulares semifinais – coisa que Vital Bataglia corroborou após a conquista do título pelo Palmeiras, numa coluna que intitulou – ai, que camarada sugestivo e, sobretudo, discreto – “Como se Faz um Campeão”, adicionando à acusação velada a informação de que tinha sido tudo roubado – sem atinar para o absurdo que seria entregar partidas para evitar adversários que se poderiam simplesmente assaltar ali adiante. O Estadão vendeu mais da metade do elenco do Palmeiras antes, durante – principalmente durante – e depois das conquistas dos Paulistas de 93 e 94, do Rio-São Paulo de 93 e dos Brasileiros também de 93 e 94. O time começou a se desfazer apenas no final daquele biênio, com vinte e quatro meses de atraso, não sem antes vinte entrevistas concedidas a Cosme Rímole, o Virgulador Maluco, todas elas recheadas de desmentidos acerca de desmanches que realmente nunca ocorreram. Nada mudou nos últimos vinte anos. Telmo Zanini, um acusador celerado a quem caberiam vários processos e outras tantas condenações pelos absurdos que publicou, até subiu na vida e sobreviveu ao “A Gazeta”. Osmar de Oliveira permanece premiado por escolher as urinas que deve ou não conservar adequadamente, conforme o fornecedor e o consumidor delas. O LANCE!, nesse sentido, é até muito tradicional: dá continuidade ao vale-tudo, ainda que o envernize – e bem mal, diga-se de passagem. Vital Bataglia não batia bem, babava até, mas escrevia pacas. E os Backs da vida, que não babam, são boa gente mas, em contrapartida, esperam que sejamos mais boa gente ainda a fim de perdermos nosso tempo tentando decifrar o que escreveram? Alguém dirá que é esse o jornalismo esportivo de hoje, e dirá que é “provocativo”. Eu concordarei com a constatação e variarei a qualificação: é isso mesmo e é por isso que é uma merda. Só que se continuasse nisso, dava pra engolir – estávamos acostumados a certos níveis de merda. Mas e o Corinthians, que tem lá um Núcleo para… defender o trabalho da comissão técnica, da gestão do futebol, do marketing e, se deixarem, o dos bicheiros – há alguns lotados lá, né? – também? Ah, não é nada disso? Pois então, como pode ser que…
  2. Adriano não compareça a quase nenhuma sessão de fisioterapia, em 2011, mas só fiquemos sabendo disso, com todas as letras, poucos dias antes de sua providencial e, do ponto de vista jornalístico, anestésica estreia, a peleja banal contra o banal Atlético Goianiense? O Corinthians é o único time do mundo cujo capitão pode ser afastado sem que tal evento oblitere os êxitos esportivos que lhe forem concomitantes. Ah, como esse povo sofre, né? Se quiserem exemplos: foram perguntar a Felipão – o LANCE! inclusive – sobre a demissão de César Sampaio – boato puro e simples – ainda no gramado, após uma vitória divertida. Ah, mas foi algum diretor querendo tumultuar. Pois é. A oposição do Corinthians deve odiar o Núcleo Corinthians, afinal de contas não pode usar o jornal para tumultuar picas – o que é uma injustiça diante do que se faz com – sem exceção, no momento – todas as outras equipes da Capital. Até os pequeninos oposicionistas da Portuguesa conseguem meter o nariz em algum Box, mas o poderoso Paulo Garcia não fura a Linha Bolgueseana, Motoryniana ou Vessoniana (é, tem os outros, que deram a sorte de não me conhecer) nem debaixo de porrada – e não creio que seja por algum ressentimento residual do tempo em que, funcionário da Officenet, Rodrigo se visse moralmente obrigado a desenvolver alguma bronca da Kalunga. Se quiserem entender o que estou dizendo, comparem as matérias do jornal à época do furdunço com Chicão às que foram produzidas pelo Núcleo Palmeiras durante o episódio Kléber. Maurício Oliveira, no “Com a Palavra” de hoje, nas páginas que tratam do Corinthians, deleita-se com a eficiência de Tite em se fazer respeitar – ela existe, o jornal não produz crises, tudo isso é muito legal. O que não é legal é nos fazer de idiotas: o perfil dos profissionais que cobre o São Paulo, por exemplo, é de gente que adota linha muito diferente, e quem disser que certas escolhas das editorias não interferem na realidade estará obrigado, desse dia em diante, a dizer que Collor caiu – única e exclusivamente – porque era ladrão – coisa que ele era mesmo, mas que não tem nada a ver com o caso. O Corinthians certamente tem dirigentes problemáticos, mas o LANCE! abre ou fechas as torneiras que quer, e como quer. O mais chato de tudo isso é que, para terminar…
  3. No final das contas, a gente fica numa posição absurda – a de ter que criticar o que, no jornal, funciona de propósito e, ainda, o que não funciona sem querer. O time que tem o maior número de incompetentes em seu “Núcleo” é, de longe, o São Paulo. A quantidade de merda que sai ali só perde, em gravidade, para a qualidade da merda que borbota. Dia desses, esses caras me salvaram de uma manhã das mais aborrecidas. Compartilhei com vocês, no Twitter. Tenho amigos corinthianos que não suportam o LANCE! porque, basicamente, veem a vida de outro jeito e percebem – porque está na cara – que Vessoni e outros mais gostam da administração de Andrés Sánchez. Eu lhes pediria que fingissem, por poucas horas, que são são-paulinos (Sem exagerar, hein, pessoal? Por favor). Possuídos por tal espírito – como direi? – sutil da mais moderna são-paulinidade planejamentosa estruturenta, tomem o LANCE! para ler. Daí vocês vão ver o que é bom: não importa se o time vai bem ou mal, o serviço entregue é porco. Tudo errado. Datas, contas, texto, gráficos – uma coisa louca. O camarada acha que porque está no São Paulo é só ir elogiando aquilo que os colegas ensinaram como sendo lindo-maravilhoso-bonito-demais e guardar as críticas para derrotas que, segundo as leis que regem aquele universo todo especial, jamais deveriam chegar. Daí que quando o time não ganha a coisa ganhe ares manicomiais.  Não é isso o que acontece com o Corinthians. Como os caras que estão lá gostam de futebol mesmo – e do time deles, sei lá se são todos corinthianos – e como ali, por algum acaso ainda inexplicável o índice de vagabundagem é bem baixo – tudo sai muito mais caprichadinho, um nojo – a vida do clube, bem ou mal administrado, ficou muito mais fácil. Está certo? Está errado? Não quero saber. O que não pode é coisa desse tipo para um time só: Liedson não enfrenta “jejum de gols”, o “Levezinho” apenas ainda não os fez, neste ano, em partidas oficiais – afinal, está machucado, lembrem-se! Porque, se for o Valdívia, vai ser jejum e foda-se. Ou ainda: a torcida quer matar Tite, ali no estádio mesmo, em meio às vaias ominosas, acusando-o de retranqueiro pérfido e arrombado – isso porque a equipe ainda liderava o campeonato. E o LANCE!, que tem todo o direito de discordar de quem for, inclusive de torcidas, não deixa a discordância para qualquer coluninha – isso não. Vai logo a enfiando no relato do jogo, onde justificativas da comissão técnica – cansaço, ritmo, arbitragem, a posição dos astros, o diabo a quatro – são lançadas aqui e ali como expressão da vida que corre. Imaginem Thiago Salata justificando a eliminação do Palmeiras na Sul-Americana passada baseando-se nos comentários de Felipão sobre a Fortuna Jumariana – mas isso assim, largado no meio do como-foi-o-jogo-e-coisa-e-tal: “O Palmeiras foi superior, fez os gols que precisava mas foi eliminado pelos erros da arbitragem no jogo de ida, no Rio e, por incrível que pareça, por um Jumar que não vai se repetir. Até por isso, o grupo segue de cabeça erguida para a continuidade do Brasileiro, onde vem bem e, com mais tempo agora, só tem a melhorar, já que segue ainda mais animado pelo fim do jejum do Gladiador”. Que tal? Imitei até aquela elegância, lanceística que só ela, que consiste em encadear ideias e períodos de tal modo que nos lembremos de – deixem-me ver – de Cicciolina, isso; Cicciolina tentando fazer dois pênis se encontrarem, a despeito do períneo quase etéreo, numa película dedicada aos prazeres da dupla penetração. Ficou bom? Gostaram? Porque, se for para um, bom ou não tem que ser para todos.

Ninguém espera que qualquer jornal seja imparcial – ninguém, é claro, mais ou menos capaz de somar dois e dois. Estamos todos combinados: a imparcialidade é uma meta, uma referência, um parâmetro segundo o qual o camarada se orienta – um Norte. Não é o destino. Jornalistas corinthianos talvez devam mesmo cobrir o Corinthians pensando em outras providências, adicionais, que não sejam postas em ação em detrimento do jornalismo que fazem – dentre elas, não prejudicar o time pelo qual torcem. Não sei. Quem sabe não seja essa a solução para essa porcaria que fazem hoje, a título de “profissionalismo”?

Mas o LANCE!, ah, o LANCE!! Até quando acerta, erra. Adotou dois critérios, talvez sem o notar e ao menos em São Paulo: uma medida de isenção jornalística é dada pela frieza, a outra pelo apuro. Você pode cobrir Palmeiras e São Paulo como um porco analfabeto, desde que não se entregue à paixão. Você pode cobrir o Corinthians entregue à paixão, desde que confira os dados nos quais se embasa, revise o texto e não diga coisas sem pé nem cabeça – ou seja, desde que exerça a profissão que escolheu. Você não pode dizer que o Corinthians foi roubado pelo América de Minas, em Minas, no Brasileirão 2011 ou que o Palmeiras o foi pelo próprio Corinthians, na última semifinal do Paulista – isso seria muito indelicado, apesar de ser a verdade pura e simples. Mas você pode passar mais de ano acompanhando a gestão de Sánchez enquanto ignora o bicheiro das categorias de base, o marqueteiro meio abilolado ou as ligações asquerosas entre o clube e a CBF ou mesmo a Globo – afinal, não há espaço para esse tipo de coisa quando você quer só saber se seu time vai engrenar ou não, seu trabalho – ao menos em parte – coincide com tal interesse e quando, de repente, alguma coisa parece poder desviar a concentração de todos, unidos, pela consecução daquele maravilhoso e acalentado programa que é o sucesso do time da gente.

Nunca pensei que fosse dizer algo nessa linha, mas acontece que o Corinthians está sendo convertido numa instituição chapa-branca – assim como o foi o Flamengo, no início dos anos 80, final dos 70, e sob os auspícios do mais carioca – e poderoso – de todos os departamentos de jornalismo esportivo em todos os tempos: o da Globo, no mesmo final dos anos 70, início dos 80. Sim, eu poderia falar do São Paulo – e vou falar. Mas, antes, creio que, ao menos para fins da discussão do fenômeno atual, o exemplo daquele Flamengo supercampeão será mais esclarecedor. Ao longo do texto, espero tornar explícito o porquê dessa suposição.

Vamos começar por uma brincadeira, um joguinho. Suponham que as seguintes perguntas, no próximo parágrafo, fossem formuladas nos seguintes termos e fundadas nas seguintes justificativas:

O Flamengo de então era mesmo o melhor time do Brasil? Ou ainda: suas conquistas foram o reflexo dessa eventual superioridade? Afinal, a equipe venceu tudo o que poderia vencer àquela época. E tinha Zico. Mas as vitórias foram, exclusivamente e todas elas, obtidas graças aos méritos esportivos do clube, ou a tão propalada influência da Globo – essa acusação era especialmente paulista, mas converse com qualquer gremista e entenderá o que digo – foi decisiva a ponto de macular a mais gloriosa fase do mais popular time do Brasil?

Deixem-me dizer o que penso:

Durante quase todo o período, sem dúvida, o Flamengo foi o melhor time do Brasil. Mais ainda: O Flamengo foi, na melhor parte daqueles anos, o melhor time do mundo. A imensa maioria de suas vitórias foi alcançada porque o Flamengo era superior aos seus adversários –  e isso numa Era de Gigantes. Muito bem. Por outro lado, dizer tudo isso não é encerrar o assunto. Por mais desagradável que seja, a verdade é que, além de tudo isso que se afirmou acima – e que é, como disse, o que penso – há uma série de fatos que, por serem fatos, ultrapassam em importância, com folga, tudo aquilo que pensei, penso ou vier a pensar. A ver.

  1. O episódio protagonizado por José Roberto Wright, no Serra Dourada, no jogo-desempate pela Libertadores contra o Atlético Mineiro é – para dizer algo sutil – simplesmente macabro. Não conheço, entre equipes grandes em partidas decisivas, registro de coisa sequer parecida – nem a final do Brasileiro de 95 chega perto. Que isso não incomode a nação flamenguista, creio que seja compreensível; jamais justificável. Que as reclamações atleticanas passem pela mídia como – por exemplo – “chororô” é algo simplesmente amoral;
  2. Diferentemente do que ocorreu ao longo dos anos dourados de outro grande carioca, o Botafogo, a influência exercida pelo sucesso flamenguista sobre as escolhas do selecionado nacional foi nefasta. A polarização entre o Rio e o resto do país – até hoje ignorada pelos fluminenses, aliás – chegou a tal ponto que Cláudio Coutinho, aterrorizado pela hipótese de escalar Wladimir, oriundo de clube paulista, produziu aberrações como Edinho na lateral-esquerda;
  3. A arbitragem da finalíssima disputada contra o Grêmio, no Olímpico, em 1982, foi facinorosa;
  4. A Taça Toyota, a não ser mui episodicamente, se tratou de grossa palhaçada. O Flamengo não tem nada a ver com isso e fez o que tinha que fazer, mas o Liverpool foi ao Japão tão preocupado em vencer – e não em fazer compras – que deixou três horas de fuso horário a acertar. Mal e mal treinou. O depoimento de Júnior, já nos anos 90, segundo o qual ele não trocaria tal conquista (dados os “terríveis sacrifícios” implicados nela) pela Copa do Mundo, além de asqueroso, só se compara em ridicularia ao esforço promovido pela Globo de então no sentido de que engolíssemos que “olha, é igual aos que o Santos ganhava”. Note-se que a imprensa esportiva paulista, na maioria dos casos, tratava a coisa nos mesmos termos em que o faço agora, mas resolveu mudar de opinião assim que um clube paulista venceu a mesma competição (é verdade que sob condições bastante diferentes das enfrentadas pela agremiação do Rio, ao menos na primeira ocasião em que o fez);
  5. A relação entre Globo e Flamengo era mesmo promíscua a dar com pau. Não fiquem chateados comigo. Deem uma olhadinha nas polêmicas da época, todas elas disponíveis nos melhores arquivos, e depois me rebatam sem ficarem vermelhos.

Muito bem, e vejam só: insisto. O Flamengo tinha mesmo o melhor time do mundo, capitaneado por um jogador que, em alguns momentos de sua carreira, foi o melhor jogador do mundo e, por tais razões, venceu o que venceu. Ponto, parabéns ao Flamengo. À parte disso, a questão que fica é simples:

Teria sido mais ou menos fácil fazer tudo aquilo – só que sem a Globo?

Não quero perder o tempo de ninguém. Ao ponto. Especialmente desde que o Corinthians associou-se a Ronaldo, foi adotado pela emissora. Um dos motivos pelos quais preferi falar do Flamengo dos anos 80 a discorrer sobre o que ocorre com o São Paulo (quando ocorre), é que as preferências da Globo, porque da Globo, implicam nacionalizar o problema – o que é mais difícil no caso do clube do Morumbi. Não estou falando dos interesses comerciais da emissora que, com justiça, recaem mais sobre o Corinthians – que dá mais audiência – do que sobre os outros. Que transmitam mais jogos do produto que vende mais, que ele tenha prioridade na grade quando isso não corresponder a qualquer absurdo. O que nos dá aquele desconforto nostálgico – e mesmo os corinthianos sabem o que é sentir isso, pois redimiram todo o Estado naqueles 4 a 1 de 84, a exemplo do que o Palmeiras (sempre chegando antes, ahá!) fizera em 79 – são episódios como o da semifinal do último paulista: um Casagrande constrangedor, por exemplo. Um Leifert, na segunda-feira seguinte, mais sapeca do que deveria. Cânticos legendados em meio a clássicos decisivos – e unilateralmente legendados. Análises acuadas sobre as arbitragens. Porque, pessoal: os penais que, aparentemente, sairiam de qualquer jeito – se é que vocês me entendem – doem menos do que comentaristas que os tomam por eventos da vida que corre. E tais comentaristas, sinto dizer, facilitam a vida de canalhas como Paulo César de Oliveira. Facilitam, mais ainda, a vida de grandes canalhas como o Coronel Marinho, ou de canalhas superlativos como Sérgio Corrêa.

Não, não caio naquela de chamar o Brasileiro de 2005 de “Zveitão”, nem acho o Mundial de 2000 menos valioso do que a Taça Toyota – e por milhões de motivos que não vêm ao caso. Não se trata disso. Mas é que há coisas que fazem parte do cenário sentimental da cidade. Da minha cidade. Dá nojo ver o que estão fazendo com algumas delas.

E ainda tem o Lance!, cujo caso é pior e, portanto, fica para outro post.

Nada contra os esportes americanos, as ligas sob siglas, essas porras todas. Até gosto de ver algumas coisas. Mas um alerta: você não precisa ser retardado para acompanhar nada disso. Pessoas normais também o podem. Por favor, alguém me explique o que é esta porcaria na página D8 da Folha de ontem, sob o título “Pubs da cidade abraçam evento norte-americano”:

“Ao contrário de uma final em qualquer outra modalidade, incluindo a Copa do Mundo, tudo que cerca a partida é capaz de gerar tanto burburinho quanto os touchdowns (jogada máxima do esporte)”

Ahã. Sei. Os tátchdóun geram burburinho, compreendo. Eu, que vejo uma partida da – ahá – NFL por ano, duas no máximo, sei que o tátchdóun gera uma reação parecida com a do gol. Burburinho é o que o rapaz – ou moça – que escreveu isso sentiu nas pregas, enquanto escrevia, porque estava muito emocionado(a) em falar sobre a ÉNÉFÉL, compreendem?

E essa foi só uma das inúmeras frescurinhas associadas ao evento do… Superból, tá certo?

Escrevam sobre o que lhes vier à veneta – há público para quase tudo. Mas mantenham o mínimo de compostura. Pelamor.

Tostão, o Sábio

06/02/2012

disse o que penso desse senhor. Eu sei, todo o mundo acha o camarada a coisa mais fofa do mundo. Isso porque, dentre outras coisas, além de um grande palhaço ele é bem espertinho. Antes de retomar o assunto “encampamento do Corinthians”, gostaria de me dedicar a mais este exercício de – como direi? – iconoclastia. É, vou falar mal do Tostão. Ai, como pode? Podendo.

Se não fosse por 70, não veria motivos para não o destratar dia sim, dia também. Sinto-me mal ao falar mal de qualquer homem que, enfiado na amarelinha, tenha se portado de acordo. Mas Tostão abusa. Pior ainda, abusa direitinho. Sua última coluna, a de ontem, na Folha, é o mais repulsivo empilhamento de lugares comuns bom-mocistas desde – deixem-me ver – sua penúltima coluna, na Folha também. Sem muito trabalho, a gente recolhe dali todas as platitudes que precisa. Vejam só:

  • O futebol, cheio de dúvidas, incertezas, contradições, emoções, alegrias e tristezas,  é uma metáfora da vida. Ah, que profundo. Olha, pessoal, os assassinatos, os estupros, os impostos – as leis em geral -, as religiões, a Arquitetura, a Engenharia Naval, a família do vizinho, a sobrinha do Álvaro, minha mercearia, o Monte Fuji, o Planetário do Parque do Carmo, meu pênis torto pra esquerda… metáforas da vida, OK?
  • Espertalhões costumam ter comportamentos contraditórios. Roubam dinheiro público, cometem todos os erros de um mau cidadão e, ao mesmo tempo, fazem caridades, belos discursos contra a injustiça social e ainda beijam e se enrolam na bandeira, quando o Brasil ganha um Mundial. São os espertalhões patriotas. Já citei antes esse tipo de gracinha, em Tostão, em outras ocasiões. Num amontoado de períodos desconexos, ele é capaz de atender às mais díspares expectativas – desde que todas elas sejam mais ou menos rasas. Você é contra a “Injustiça Social”, mas também quer tirar uma casquinha do PT? Use Tostão.  Quer se sentir com raiva do que se convencionou chamar de hipocrisia e ainda tem queixas contra manifestações ufanistas? Use Tostão. Uma coisa não tem nada a ver com a outra mas se queixar delas todas é bom para a consciência? Use Tostão. Outra coisa: de quem diabos esse sujeito está falando? Qual corrupto notório apareceu por aí beijando a bandeira (e enrolado nela, que coisa) depois da conquista brasileira (suponho que ainda estejamos falando de futebol, né?) de qualquer Mundial? Não entendeu, não quer entender, mas tudo isso parece massagear seus bons sentimentos? Use Tostão.
  • Os Estaduais estão repletos de contradições. Ahá – isso é assim porque, meu bom Deus, os Estaduais são metáforas da vida, né? OK, já descemos a lenha neles (checkpoint) e, agora, vamos baixar o sarrafo na gestão do futebol pátrio.
  • Enquanto os clubes gastam fortunas em contratações, repatriamentos, pagamentos a jogadores, a técnicos e até a gerentes, atrasam salários (ué, mas eles não gastam fortunas em pagamentos a jogadores, técnicos e até (!?!) a gerentes? Ah, esse Tostão… a que tremenda metáfora da vida ele está me saindo…) não pagam impostos e jogam em gramados ruins. Torcedores pagam caro para ver partidas fracas em estádios sem segurança e sem conforto. Uau. Checkpoint.
  • A contradição é uma característica do país. O Brasil é a sexta economia do mundo, mas, no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), ocupa a 84ª posição. Estou começando a entender. Tostão preferiria uma vida sem contradições, a fim de que tudo o que fosse repleto de contradições – como a própria vida ou meu pênis, por exemplo – não pudesse servir-lhe de metáfora, entendem? É tudo muito claro. E sábio. Em todo o caso, falamos bem e mal do governo – e da vida. Checkpoint.

Foram apenas os quatro primeiros parágrafos. Restam outros quatro.

Não vou desgraçar o dia de vocês com as demais demonstrações de checkpointismo fofo. Basta dizer que Tostão ainda encontra espaço para, mediante o encadeamento amalucado de asserções totalmente independentes entre si (Tostão escreve, cada vez mais, como se fosse Chalita bêbado a psicografar Hemingway – bêbado também)  cutucar o nível técnico da atual geração, a economia europeia-neo-liberal-demoníaca (faltou zoar o Papa, a Veja e os EUA, pra não falar da própria Folha que o publica), os salários dos futebolistas em geral (que são pagos mas não o são, segundo o contraditório pensamento tostãoniano, pura metáfora da vida), Douglas – meia que o Corinthians acaba de trazer de volta – e a crítica futebolística, que judia dos meias clássicos, tipo Douglas – como ele mesmo, o Sábio, – eu me lembro bem – judiava de Alex, dizendo que Juninho Paulista jogava mais do que ele – afinal, era o que os coleguinhas queriam ouvir, já que ninguém acredita que Tostão achasse mesmo isso.

É que o Tostão, mesmo, deve andar usando… Tostão. Que coisa.

A fim de não causar constrangimento com a lembrança de antigas promessas não cumpridas, decidi retomar este Blog do Meu Saco sem dar a mais mínima satisfação a quem quer que seja, e foda-se. Melhor isso do que continuar parado. E, agora, terei mais tempo para tocar a coisa da forma correta. Adicionalmente, e por sugestão do amigo e mestre Nei Duclós, vou criar outro blog – o “Blog de André Falavigna”, ou coisa que o valha – que servirá como repositório das crônicas que escrevi ao longo dos últimos anos, muitas delas publicadas no Comunique-se ou no ótimo “Literário“, tocado pelo ainda mais ótimo Pedro Bondaczuk. Estou apenas acabando de revisar algumas coisinhas. Logicamente, vou incluir contos – como este, já bem velho – e novas crônicas lá. As regras aqui não mudaram, e continuam sendo estas. Andei organizando os links em categorias mais ou menos racionais, e agradecerei as contribuições que me reavivarem a memória. Já estão disponíveis alguns, abaixo, à direita. Há ali muita gente que não deve entender por que está ali, mas isso é assim porque nem todos me conhecem o suficiente para entender que, sob o aspecto pessoal, é realmente bastante difícil me fazer “ficar de mal”. Já não tenho mais saco para isso também, ora vejam só. Não concordo com tudo o que leio em cada um dos blogs que recomendo, mas e daí? Não sou de esquerda, não tenho problemas em conviver com a opinião dos outros. Nota: inclui apenas links de veículos ativos, e é por isso que “Sobre Porcos e Ratos”, por exemplo, não está lá. Assim que forem reativados, serão incluídos. Também não inclui links para blogs ou sites não relacionados, pelo menos indiretamente, a futebol – isso fica para o outro blog, citado acima. Dentro de vinte e quatro horas, publicarei o primeiro novo post propriamente dito. Já está pronto, que é para que eu não possa começar fazendo graça – de novo. Só não o publico agora para evitar confusão com o anúncio da volta – Deus, como se houvesse gente o suficiente interessada nisso a ponto de haver alguém disponível para se confundir. Não sei se teremos bolões, mas certamente teremos palpites pra tudo que é lado. O resto se vê depois. Até lá.

Coisa confusa

13/06/2010

Ainda hoje, publicarei pequeno post sobre minhas opiniões sobre esta Copa, na qual mais uma vez as predições sobre nossa eliminação na primeira fase ganham destaque todo especial. Sócrates, inclusive, atribuiu tal risco ao estado físico da seleção, que estaria péssimo. E, caramba: a gente sabe como o Doutor entende da importância das questões atléticas no desenvolvimento do bom jogo de futebol, né mesmo?

Outra nota: a Globo só pode manter Wright e Coelho comentando arbitragem em nome dos grandes serviços prestados por ambos, em campo, ao longo dos anos 80. Coelho, sobretudo, é de um ridículo sem limitações de nenhuma ordem; seu comentário agora há pouco, durante Argentina e Nigéria, de que “a arbitragem alemã é assim mesmo, não dá nada, o jogador cai na área e ele diz que o atleta está voando” é uma espécie de resumo de suas incapacidades técnicas e intelectuais: ainda que a coisa tivesse assumido o sentido que seu autor pretendeu emprestar a ela, não é menos do que uma generalização basbaque, uma enormidade.

E se pôde ouvir Casagrande, por trás dos microfones, corrigindo-o quanto ao material das garrafas chocantemente – para boçais como Arnaldo – repletas de cerveja com as quais se vê alguns torcedores nos estádios africanos: são de plástico, e não de vidro; Casagrande sabe que é assim porque esteve “com uma delas nas mãos”, coisa que, aliás, deve ter deixado muita gente preocupada por aí.

A Grécia é a primeira equipe da história do futebol a escalar zagueiros centrais para as dez posições de linha.

Um bolãozinho

09/06/2010

Caríssimos, alguns dos leitores habituais deste blog já devem ter recebido o convite para o Bolão do Meu Saco para a Copa, mas, para os que não receberam e querem participar, é só enviar um e-mail para ofalavigna@gmail.com que o convite será enviado.

Ainda devemos a premiação do Bolão das Olimpíadas, que será providenciada. Mas o Bolão melhorou muito: agora está todo automático, num site separado, só para ele.

Até lá.

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Sim, eu sei, não há nada mais démodé do que amar a Copa do Mundo, a não ser, é claro, amar a seleção amarela. Os preconceitos levantados contra o escrete nacional são tão poderosos que, mesmo nesta época de louco ufanismo, a seleção brasileira continua servindo de saco de pancadas ideológico. Todos, menos a pobrezinha, podem se aproveitar da onda de triunfalismo compulsório.

 

São diversas as razões para essa situação aborrecida. As pintadas em cores mais berrantes são as mesmas que fazem de nossa cobertura futebolística a pior do mundo futebolístico: o despreparo dos profissionais que vivem de – ora vejam só – cobrir futebol. Vocês sabem: salvas as poucas exceções, aquela gente estúpida, ignorante e arrogante que aponta o dedo para a seleção dia e noite, dia após dia e noite após noite, sem jamais prestar contas do que diz nem mesmo diante do julgamento dos fatos.

 

Dado empírico: nas últimas 05 Copas, ou o Brasil fez a final ou foi eliminado por quem a fizesse; na maior parte das ocasiões, fez a final e, na maioria das vezes em que a fez, venceu-a. Ainda assim, há um milhão de desculpas para os achincalhes promovidos antes, durante e depois de cada uma dessas ocasiões – mesmo quando o depois nada mais era, ou ao menos deveria ser, do que o gozo da glória imensa de se ser campeão do mundo. Se tanta bile estragada não contribuísse para a imensa babaquice que é – sobretudo em São Paulo – o desamor pela canarinho, então nem mesmo no campo da estupidez restou qualquer contribuição do cultivo de tal atitude.

 

Ah, é porque você não sabe como são os jornais italianos, espanhóis, ingleses!

 

Sei sim: são histéricos. E, por isso mesmo, podem se desculpar depois de desmascarados, pela vida, como bocós – podem, afinal de contas, ser lidos com o devido desprendimento. As publicações estrangeiras são freqüentemente ciclotímicas, mas não posam de sabichonas. Os defeitos delas terminam sendo menos deletérios do que as supostas qualidades – isenção, objetividade, distanciamento – das nossas. No bojo, o que nos vendem há anos são parcialidade, subjetivismo e envolvimento pessoal revestidos por uma fina camada ou de pompa tecnicista, ou de irreverência de Shopping Center.

 

Mas não é só. Esqueçamos as evidências técnicas de que a atitude – como direi? – especializada em relação à seleção e à Copa tem sido despropositada, descolada da realidade.

 

Nós também temos sido maus com o futebol, com a Copa, com a nossa seleção. Temos pecado por esnobismo. Para tudo temos uma desculpa meio provinciana, meio metida a besta. De algum tempo para cá, já não bastam a camisa estrelada, o hino e a batalha sob o nome da Pátria: todos querem motivos especiais – e mesmo pessoais, às vezes – para amar o time em cujos ombros pesa a terrível diferença entre a festa de todo o povo e a alegria miserável dos ressentidos.

 

Se eu amo mais meu clube? É claro que sim. Porque o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia, porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia. E é só. Agora, quando começa a Copa do Mundo, minha aldeia é o Brasil. Quando ela acaba, o Palmeiras minha pequena pátria.

 

A camisa da seleção brasileira é o maior símbolo nacional deste país – inspira, muitas vezes, mais ternura ou ira do que a própria bandeira, do que o próprio hino. A seleção brasileira de futebol – ah, como se houvesse outra – é o mais poderoso símbolo da unidade nacional – é ela, afora talvez as Forças Armadas, a única coisa capaz, no mundo, de fazer com que um pernambucano e um paulista se vejam a ambos como brasileiros. Se um estado assim de coisas é bom ou mau, não sei – como, aliás, podem tanto a seleção como as Forças Armadas serem ótimas ou péssimas: tanto faz. O que sei é que minha vida, sem o Brasil, não seria propriamente a minha vida, e não vejo como o compromisso com qualquer ideário possa ser levantado contra algo que confere ao meu país espírito para agir como país. Nenhuma razão é boa o suficiente para se ser canalha.

 

Se o futebol da seleção ou os convocados poderiam ser melhores? Ora, não me digam. Quase sempre é assim. Por outro lado, é simplesmente injusto dizer que o time que humilhou a Argentina quando era zebra e, depois, que a humilhou quando era favorito – só que lá dentro, na toca do leão –, que o time que pela primeira vez bateu o Uruguai, em partida oficial, no Estádio Nacional – e que o fez goleando –, que o time que ganhou tudo o que disputou com folga e força, e que nos deu momentos de prazer estético, sim, como nas pelejas citadas ou no amistoso contra a Itália, ou durante as eliminatórias, contra o Equador; que tal time é fraco, ruim ou que “jogue feio”. É muita vontade de “produzir” História, compreendem? Qualquer seleção de gols e jogadas bastará para mostrar que, se a equipe de Dunga não é composta exclusivamente por virtuoses, está muito menos longe disso do que de ser o que dizem dela. Não o fosse, não teria feito o que fez, ainda mais do modo como o fez. Tenham a santa paciência. Se fosse a Argentina que o tivesse feito, valha-me Deus, ia ser um tal de geme pra cá, ronrona pra lá que eu quase vomito só de imaginar – só de imaginar, hein?

 

Ah, mas a Copa do Mundo é isso e aquilo e aquele outro. Puro comércio, consumismo, que sujeira, quanta armação. E patati. E patatá. Sim, deve ser, e mais cinco minutos de papo e já estou dormindo.

 

A Copa do Mundo não é perfeita – talvez já tenha sido melhor sob muitos aspectos, certamente já foi pior sob outros. Mas mantém todo o caráter de celebração sem o qual a vida perde metade da graça. São trinta dias durante os quais o ritmo das coisas ordinárias se altera em nome de algo – literalmente – extraordinário.  Há toda uma série de elementos que agem para tornar a ocasião especial: horários e rotinas transtornados, aparência de muros, calçadas, de ruas e vilas inteiras enfeitadas; a programação da TV e do rádio; há revistas e guias e suplementos e livros e até um álbum de figurinhas – somente os desalmados não gostam de álbuns de figurinhas – e mais uma infinidade de outras coisas, boas ou não, tolas ou fantásticas, profundas ou banais – que sejam, porca miséria! – prontas para nos lembrar que a vida é, definitivamente, mais do que finge ser na maior parte do tempo.

 

Dia 11 está aí, e há o melhor do inverno para curtir. Estarei de férias e, a partir do dia 22, no gesso. Por isso, o Blog do Meu Saco encontrou a oportunidade de, se não ressuscitar de vez – vamos ver – ao menos dar-me o prazer de me divertir ao lado dos amigos, e de uma vez mais torcer pelos nossos numa das últimas – talvez última mesmo – ocasiões puramente cívicas deste país ingrato. Já estou colecionando as pérolas que merecerão nossa mais dedicada atenção, e garanto-lhes que não são poucas, nem tampouco pequenas.

 

Até lá.

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