Poucas vezes temos um exemplo tão claro de o quanto caímos intelectualmente, nos últimos 30 anos, como quando notamos que Tostão se tornou referência na crônica esportiva. Tostão é mais inteligente do que a imensa maioria dos nossos comentaristas, é verdade, e escreve com o mínimo de apuro – o que, nos dias de hoje e diante da malta que o cerca, resulta nessa aura quase de literato com a qual o envolve a colegada analfabeta. Tostão sabe exatamente o que dizer para ser recebido com calor pelo meio jornalístico esportivo, o que não é difícil. Pior ainda: consegue arremedar um estilo. É mais do que o suficiente para se destacar nesse ambiente repleto de nulidades. É triste. Mas é assim. Foi desse modo que, em suas crônicas, Juninho Paulista se tornou jogador (em qualquer sentido que se queira imaginar) melhor do que Alex. Foi assim quando forçou aquela comparação insólita entre Jorge Vagner e Valdívia apenas para detratar o segundo e enaltecer o primeiro, ciente de que observações desse tipo, soltas assim, atendem não a dois, mas a dois mil senhores sem que para isso seja necessário assumir qualquer idéia pela qual se tenha que responder depois.

Sua coluna desta quarta-feira não passa do mais baixo coquetel de babações aos ovos do establishment intelectual que tomou de assalto as redações brasileiras. Para piorar, Tostão descuidou até do texto, confiante na idéia de que uma maçaroca de asserções adesivas, plenas de correição política, fosse resultar em algo palatável. Até nisso talvez tenha razão: costuma funcionar.

Como estamos no final do ano, talvez passe despercebido. Pena que, por conta disso, não deixe de ser horrível. Acompanhem comigo:

“O LEITOR que imaginava tirar férias das minhas colunas neste final de ano poderá ainda ler essas abobrinhas, se não tiver coisas melhores para fazer.
Ainda bem que acabou o massacre de comerciais. O que já é enorme durante todo o ano fica insuportável nesta época. As pessoas estão cada dia mais consumistas.
Pior, as crianças estão trocando as brincadeiras e o sonho infantil pelo hábito de ter, comprar e de trocar rapidamente as coisas. É um crime contra a educação das crianças”.

Ah, esses malditos comerciais, esse maldito consumismo… Sim, sempre é bom fazer constar o quanto somos contra a sociedade de consumo, sobretudo se pudermos apelar às nossas responsabilidades para com as criancinhas indefesas. Pessoalmente, perdi o saco com essa história. O jornal em que escreve Tostão é consumido na banca, as televisões em que ele prega contra o consumo vendem o que ele diz. Os jornais e as televisões estão repletos de anúncios de empresas que geram os empregos das pessoas que compram os jornais com as asneiras que Tostão escreve. A imensa maioria das pessoas com as quais convivo não pode consumir sequer o que precisa, quanto mais futilidades. Sou um cidadão médio. Tostão é que não é, graças aos méritos dele. Mas aposto que já comprou mais coisas das quais jamais necessitou do que a quase que totalidade de seus leitores.

Também gostaria de saber o que catzo são as brincadeiras e o sonho infantil que as crianças estão trocando pelo hábito de comprar e trocar rapidamente coisas (afora o de tê-las, crime – como direi? – capital). Que eu saiba, as crianças de hoje, sobretudo nos grandes centros, levam uma vida menos promissora em termos de possibilidades saudáveis do que no tempo em que podiam brincar na rua. Que essa conjuntura forme criaturinhas diferentes, isso é óbvio, mas nunca vi uma única criança menos interessada numa tarde ao lado do videogame do que na Daslu. Outra coisa: do jeito como está escrito, a gente fica com a impressão de que Tostão não só é contra o consumo exacerbado como também é contra o escambo moderado, já que a sua menção às trocas é bastante confusa. Mas não tem nada, não. Já adoçamos a boca das pessoas sensíveis, né mesmo? Então, foda-se a clareza. Só que não é só isso. Tudo ainda vai piorar:

“Costumo viajar depois do Natal, mas desta vez vou ficar por aqui.
As estradas estão péssimas, os aeroportos lotados, os hotéis cheios e caros e chove demais ou faz muito calor.
Na Europa, está muito frio.
Poderia ir para a Argentina, mas estive lá no ano passado e ainda não senti saudades do tango, de Maradona e do bife de chorizo.
Vou curtir minha casa, Belo Horizonte, meus livros, a música. E sair para ver um bom filme, se houver. Os cinemas acham que nesta época o povo só gosta de filmes da Xuxa, de aventuras e de alegrias idiotas”.

Esse trecho é simplesmente um show. Tostão, o socialista utópico que gostaria de salvar nossas crianças das garras do capitalismo insensível que mata os sonhos e as brincadeiras, é um camarada que gosta de viajar. Mas à Europa, claro. Da Argentina, estamos enjoados. Pena o frio, que nos priva da Europa. A conversa estaria perfeitamente adequada a um colóquio entre esposas consumistas de executivos perdulários. Gostei também da ignorada sapeca à possibilidade de se ir aos imperialistas EUA. Lá não tem nada que preste, só consumo e mais consumo. É a consumação da sociedade de consumo, consumada mesmo. Sem falar no que qualquer argentino pensaria dessa observação acerca dos atrativos da simpática nação vizinha. Tostão dá a impressão de ser o perfeito turista consumista fútil, que vai à Argentina ouvir tango, a Salvador comer acarajé e à Tailândia pegar qualquer coisa venérea e purulenta.

Pena, pena mesmo que eu não tinha mais o que fazer, conforme possibilidade citada pelo próprio Tostão. Essas coisas exercem certa atração mórbida sobre a gente. Vejam se dava para parar: Tostão ainda encontra tempo de dizer o quanto seus livros e música poderão lhe consolar durante esse período em que viajar se tornou um hor-ror. O fato de ele assumir a propriedade dos livros, mas não a dos CD’s, DVD’s e aparelhos de som que lhe garantem a música seria o suficiente para fundamentar uma pequena tese psicanalítica. Em todo caso, deitei os olhos nos cadernos de cultura de dois jornais mineiros e pude observar que há inúmeros filmes disponíveis para os mais diversos hábitos de consumo. É que, ora vejam só, como seria chato perder a oportunidade de descer o pau na Xuxa (da Globo, né, gente?), no cinemão americano e em algo que se optou por chamar, hermeticamente, de “alegrias idiotas”. As alegrias de gente como Tostão são sempre sapienciais a não mais poder. Recomendo-lhe, caso venha a São Paulo, visitar o Cine Dom José. Quem sabe, dá tempo de assistir ao “O Corsário Comedor – O Saqueador de Bundas”. Depois, faço questão de que Tostão nos diga qual o tipo de alegria exposta pela criativa produção independente que levou às telas essa obra contestadora e outsider.

Calma, macacada. Ainda não acabou. Fôlego. Mais desprendimento terno, sem perder a dureza jamais:

“Como vou tirar férias de ver jogos de futebol -os do Campeonato Inglês não param-, nem vou assistir aos milhares e longos programas diários de esporte, terei mais tempo para escrever estas abobrinhas e de flanar por aí.
Mandei várias cartas para Papai Noel e não tive respostas. Ele só responde a e-mails. Não vou enviar mais. Cartas são diferentes de e-mails.
Sou um dos últimos dinossauros em extinção. Não falo isso por prazer nem que seja vantagem.
Pelo contrário: estou cada dia mais pressionado. Já me disseram que comentarista sem site e/ou blog não sobrevive. Ou aprendo a usar e a gostar dessa parafernália eletrônica ou explodo, desapareço.
Dizem que sem computador não dá mais para ser nem um Robinson Crusoe. Estou perdido”.

Estou decepcionado: Tostão assiste todos aqueles detestáveis programas de debate esportivo. Pelo tom do texto, jurava que assim que acabava a rodada ele metia Ingmar Bergman no DVD (ou será que, dinossauro pimposo que é, Tostão ainda usa o vídeo cassete duas cabeças que ele consumiu nos anos 80?). O trecho que vai das cartas a Papai Noel até os e-mais a Papai Noel é monstruosamente sem nexo. O autor gostaria de ter feito graça. Perdeu o nosso tempo, ainda que não tivéssemos nada melhor a fazer. A tentativa de passar por fofo também não funciona. E, se você tiver um computador, não poderá ser Robinson Crusoe. As pessoas que dizem o contrário a Tostão comeram merda. É a explicação mais caridosa que me vem à cabeça, assim de primeira. Mas não é só isso.

“A coluna vai acabar e ainda não falei de futebol. No clássico entre Real Madrid e Barcelona, o destaque foi Júlio Baptista, atuando de volante, onde joga melhor.
No clássico entre Inter e Milan, Dida falhou no segundo gol para a alegria de tantos que nunca gostaram do goleiro nem quando ele fechava o gol.
Há atletas medíocres que têm enorme simpatia de parte da imprensa e outros, excelentes, que são mais criticados do que deviam. Dizem que é falta de carisma. Deve haver mais coisas que isso, que não sei o que são.
Flamengo e Fluminense contrataram ótimos reforços para a Libertadores. Como trouxeram vários atletas para a mesma posição, poderiam ceder uns dois para o Cruzeiro, que até agora só contratou jogadores medianos”.

Ora, o charme da coisa era justamente abster-se de falar de futebol. Futebol é coisa de bárbaros, compreendem? Tanto é assim que Tostão, inclusive, deu agora para comentar jogos que não assiste mais: Júlio Baptista, volante? De novo, essa história? Nessas horas me lembro do pai de um amigo meu, protestante clássico, que gostava de citar Cícero: Quo usque tandem abutere, Catilina, patientia nostra? Sei, há como escapar: volante, nos países de língua espanhola, é uma coisa; aqui é outra. Até Júlio Baptista pode cair nessa, desde que não lhe esclareçam que estão dizendo volante como diriam volante para Gilberto Silva, para Mineiro, como diziam para Dunga. Tostão está repetindo coisas que se viu obrigado a dizer lá atrás, quando a onda para detonar Dunga teve seu início. Agora, não larga o osso. É óbvio que Tostão saberia que Júlio Baptista não é volante se prestasse atenção ao jogo, mas anda tão relaxado que prefere partir para a orelhada pura e simples. Compreendam: não é matéria de opinião, é matéria de fato.

A observação sobre Dida também é talhada para o momento: “quando ele fechava o gol”, como se essa falha isolada (ou mesmo a má fase pela qual talvez venha passando) tivessem que significar o ocaso do arqueiro. É, é verdade. Dida acabou, ou talvez jamais tenha existido. Os italianos são todos imbecis, a direção técnica do Milan composta por ineptos há coisa de cinco anos e os dirigentes milanistas (isso existe?) uns irresponsáveis que ainda não vieram atrás de, deixem-me ver… Rogério Ceni, pronto. De quebra, Ceni poderia bater as faltas no lugar de Pirlo, aquele lixo que a besta do Dunga curte. E não, não vou perdoar nem uma miserável linha.

Primeiro, aquela obviedade acerca dos jogadores medíocres poupados e dos excelentes sobrecarregados de críticas. É engraçado mas, assim sem mais nem menos, Juninho e Alex voltaram-me à mente. E Tostão, idem. Que coisa.

Depois, a historieta do “dizem, de novo. Quem “dizem que é carisma? Normalmente, é falta de conhecimento técnico do crítico. Ou vontade de ser aceito pelos coleguinhas burrinhos. É mais fácil do que bater boca. Djalminha ou Rivaldo foram muito mais criticados do que Denílson durante muitos e muitos anos, por exemplo, porque o pessoal que cobre futebol não entende porra nenhuma de futebol, na maioria dos casos, ou quer mais é sossego, nos casos como o de Tostão. “Dizem” é o cacete. Carisma é o escambau. Tostão quer é uma saída para a constatação óbvia de que a crítica é injusta e despreparada.

E, mais adiante, vou querer saber o que Tostão pensará das contratações de Flamengo, Fluminense e Cruzeiro, depois que os resultados surgirem. Aposto, uma vez mais, que o camarada está apenas repetindo o que tem ouvido mais freqüentemente por aí. Pelo menos agora Tostão nos oferece qualquer coisa pela qual possa responder depois. Assim, escondidinha, eclipsada no meio dessa espécie de fio de ovos estragados que ele nos oferece para o consumo como se crônica fosse. Sei, sei. Ele conta com a complacência desmemoriada de seus pares.

“Mas a grande contratação foi a de Adriano pelo São Paulo. Qualquer atleta de férias tem o direito de ir a uma festa e tomar uma cerveja. Porém, nesta altura do campeonato, pegou mal para Adriano, que acabara de fazer um discurso emotivo de renúncia à bebida e às farras.
Aliás, até agora não sei qual é o principal problema de Adriano.
Falaram em alcoolismo, depressão, falta de dinheiro, excesso de peso, mau-olhado e que ele desaprendeu a jogar futebol.
Seria um pouco de tudo isso?”

A despeito das duas primeiras orações serem irrefutáveis, há que se reconhecer que entre a primeira e a segunda não há o mais remoto liame. Tostão pulou de um assunto ao outro sem nenhum pudor. Deve ter sido falta de espaço. Tivesse perdido menos tempo fazendo-se de gostosinho e teria sido possível conectar os raciocínios. O pior é que, depois, a segunda afirmação parece contestar a primeira. Coisa de ma-lu-co. Mais tarde, ficamos sabendo que Tostão nada sabe, mas desconfia que Adriano seja algo alcoólatra, algo depressivo, algo gordo e sobretudo grosso. Mas que é a melhor contratação, isso lá é. Desse modo, temos aí o elogio para quem quer ver a contratação elogiada e o agouro para quem quer agourar a vida alheia. Fica todo o mundo feliz, né? Para quem não gosta do consumo, Tostão até que se vende muito bem. Há quem compre.

OK.

Há também quem vá ver os filmes da Xuxa e saia cheio de alegria idiota.