Continuando a série dedicada a infernizar nossos programas de debate futebolístico, vamos agora abordar aquele que é o próprio sobrevivente jurássico da categoria; o mais tradicional do gênero, o parâmetro mesmo pelo qual nossa memória afetiva mede a concorrência (ao menos quando falamos da cada vez mais pré-histórica televisão aberta). Que dinossauro seria esse, interrogação? Ora, vocês sabem, e sabem também o porquê da sensação de estranheza que nos acomete quando, domingo após domingo, vai ao ar o “Mesa-Redonda Futebol Debate”. Alguma coisa está fora da ordem. Isso se sente, quase se pode tocar em pleno no ar.

“Mesa-Redonda Esportiva”, “Onze na Copa”, “Mesa-Redonda Futebol é com Onze” – esses são os ancestrais do programa que, a partir de 1985 e com o nome de “Mesa-Redonda Futebol Debate” foi comandado por Roberto Avallone, torcedor fanático do… bem, todos se lembram: Sociedade Esportiva Jornalismo! Ou seria Jornalismo Futebol Clube? Ora, dá no mesmo. Adelante.

Uma das coisas que mais me impressiona, na relação entre imprensa e Palmeiras, é o tratamento dado ao fato de Roberto Avallone ser palmeirense declarado. Nem Chico Lang é alvo de tanta chacota por ser corintiano e, em seu caso, só o que se oferece ao mundo é isso mesmo: corintianismo folclórico, palhaçada, laivos de fúria bonachona. A equiparação entre ambos é injustiça flagrante.

Para começar, Avallone é palmeirense, mas vivia auto-reprimido mediante os mais esquisitos mecanismos compensadores. Foi contra a parceria entre Palmeiras e Parmalat, dizia-a uma fria: em 1992, escreveu que a “grana era curta”. Em 2002, disse que França e Cacá formavam a melhor dupla de ataque desde Pelé e Coutinho, baseando-se em pelejas decisivas contra Bangu e Cia. LTDA – como lembrete, vale dizer que Edmundo e Evair conquistaram, em dupla, três brasileiros por dois clubes diferentes, dentre os quais o Palmeiras de Avallone. Só de ouvir alguém citar as glórias são-paulinas da equipe conhecida por “Menudos”, seus olhos até hoje marejam. Careca, para Avallone, foi o mais completo centro-avante brasileiro em todos os tempos. Em fins de 97, o homem fez executar o hino do Corinthians dentro do estúdio, isso enquanto clamava pela contratação, por parte do alvinegro, de ninguém menos do que Vanderlei Luxemburgo. Mal ao Corinthians, não pode ser que estivesse desejando, não é mesmo? Avallone, graças ao açodamento que lhe é característico, mas jamais exclusivo, cansou de prognosticar derrotas do Palmeiras mesmo com a equipe em nítidas condições de competitividade. A torcida do Palmeiras, em mais de uma ocasião, quis ver o jornalista empalado em praça pública. Certa feita, o clube o proibiu de por os pés lá dentro.

Isso tudo são fatos.

Pois muito bem: imaginem tais fatos, só que com o sinal invertido, ou seja: protagonizados por Chico Lang. Não funciona, pois não? Chico vive de prever goleadas insólitas e homéricas para o Corinthians que, aliás, jamais é derrotado senão graças a estupros promovidos pela arbitragem; de dizer que os títulos recentes do Palmeiras são todos comprados – no que, diga-se, já ultrapassou os limites da gracinha inofensiva, e muito, há muito tempo – pela Parmalat, que Marcelinho Carioca foi superior a, sei lá, Pelé, por exemplo, e daí por diante e para baixo e avante. Bom, só que não adianta nada notar que não estou mais do que listando constatações verificáveis. A despeito delas, nossa imprensa trata o assunto como se Avallone fosse o “Lang” do Palmeiras, o que é absurdo. Ou mais, afinal somente Avallone conta com imitadores, apenas ele virou motivo recorrente e indefectível de piada por sua suposta parcialidade (como se ela se dirigisse somente em favor do Palmeiras, e nunca se prestasse a, à là PVC, desculpar-se pelo time de coração, ou como se – pior ainda – todos os seus coleguinhas fossem monges isentos, serenos e ponderados).

E, finalmente: Avallone sempre escreveu bastante bem, ao passo que Lang… bem, Lang faz jus a todos os preconceitos com os quais se costuma cutucar a torcida de seu time.

E, no entanto… A loucura pontual de Avallone custou-lhe a carreira, enquanto o histrionismo convicto de Lang o mantém sob os holofotes. Não concordo com metade do que diz Avallone, mas o fato de atirarem-no para escanteio por conta de, principalmente, seu palestrismo – como direi? – vivaz é uma vergonha, sobretudo quando examinamos o caso à luz das contrafações do jornalista em outras torcidas: Lang é intencionalmente ridículo, vive disso, há até demanda para esse tipo de ação, mas o que dizer de gente como Birner, para ficar na Web? Comparem-no com aquele que seria o palmeirense fanático e irascível Roberto Avallone. O hoje comentarista da Rádio Capital, patético o quanto tenha sido (ocasionalmente, aliás) jamais se prestou ao papel de assessor de imprensa extraordinário não de um clube, e sim de determinada facção política dele. Por que, então, merece tratamento irônico, enquanto gente muito menos qualificada é tida como “aposta” duma espécie de “jornalismo progressista”?

Por conta do tom asséptico que faz a fama de produções aborrecidíssimas como a do “Cartão Verde”?

Ora, façam-me o favor. Já disse milhões de vezes, e dá gosto repetir: o tom melífluo dessa cambada é só isso mesmo – um tom, item de composição meramente formal destinado a atender aos requisitos mais acessórios do discurso, quais sejam: os estéticos – no presente caso, por sinal, de péssimo gosto. O conteúdo, que é o que deveria contar, ali é cunca. E, com mil demônios: se revela na forma, que só provoca menos sono do que irritação. O camarada precisa estar muito sedado para se deixar seduzir por aquele desfile de pedantismo engajado. Paro por aqui porque o Cartão Verde, não vou esquecer, é assunto para outro post.

Enfim: sem Avallone, o programa está descaracterizado, sem alma. O que é grave, porque tirantes os compactos, de longe os mais completos no que diz respeito ao público de São Paulo (a não ser pelas narrações sofríveis, tanto de Solera, o Sonso, como de Celso Cardoso, o Janota, e pelo ângulo e qualidade de imagem que a miséria material lhes impõem), de aproveitável sobram apenas as reportagens de Gurian (para mim, um dos melhores do ramo) e de Osmar Garrafa, também competente (por mais que, exteriormente, corresponda de cabo a rabo, da voz ao apelido, à atmosfera kitschy do “Mesa”). Os debates não são menos insólitos dos que os do “Bola na Rede”, com a ressalva de que ninguém ali é, como Vanucci, capaz de perguntar a Ronaldo se ele chegou a jogar com Carbone, astro da campanha campeã paulista de… 1953. É, Vanucci fez isso domingo passado, além de insistir que o avante da Portuguesa chamava-se “Diego”. No “Mesa”, pelo menos, é todo mundo do meio.

A pena é que, nos anos 90, o “Mesa” contava com gente como Alberto Helena Jr, enquanto hoje… e é por ausências assim que a gente nota: o programa está em franca decadência.

Pensem nos componentes da mesa, um a um. Solera serve apenas para dizer vacuidades e fazer-se de bom velhinho, enquanto os outros sapateiam gostosamente sobre sua cabeça fresca. Não diz nada que o melhor da segunda série, primeiro da primeira fileira, não seja capaz de dizer com mais clareza. Quando se põe a narrar, assusta-se até com os gols. É uma piada. Não tem fontes. Não tem texto. Não tem opinião. E desconfio que já tenha nos enchido demais a paciência fingindo que apenas finge que é boboca.

Dalmo Pessoa, outro que dizem ser palmeirense. Vejam que coisa linda: em 94, em sua coluna de “A Gazeta Esportiva”, Dalmo escreveu que o árbitro da segunda partida que decidiu o Brasileiro daquele ano, entre Palmeiras e Corinthians, parecia ter atuado com “um ponto de ouvido” para atender às ordens da… Parmalat! Fico pensando no que pode consistir esse tipo de observação. Não se tratou de isenção, claro, até porque a arbitragem não foi nem melhor, nem pior do que aquelas às quais nos acostumamos. Jornalismo, convenhamos, também não foi. Tratou-se de depredação pura e simples, que é o que o jornalista gosta de fazer.

Dalmo gosta ainda de berrar e balançar as perninhas, de ficar vermelho e de dar lições de moral. Como é articulado e, parece-me, bacharel em direito, sustenta alguma autoridade relativa a assuntos jurídicos. Mas o faz com uma pobreza de espírito invulgar (aquele deslumbramento pelo som do jargão, pela otoridade, sabem como é?), mais contida desde que Flávio Prado, também formado em direito, assumiu a mesa. “Raposa Felpuda” é coisa que jamais apareceu: Dalmo, a exemplo de Calil, passa a impressão de que quando tem vontade de dizer qualquer coisa, recorre às fontes das mais diversas naturezas. Inclusive, quando julga necessário, às imaginárias. Nisso, perde até de Lang que, a respeito do Corinthians, freqüentemente presta serviço jornalístico, traz furos, consegue exclusivas. Para piorar: Pessoa anda com dificuldades cognitivas. Por exemplo: após a rocambolesca explicação de PC Oliveira acerca do gol manchete de Adriano, o sagaz polemista insistiu por várias vezes na idéia de que, se o toque de mão influíra no resultado do lance, dever-se-ia tomar a coisa por intencional. Alertado para o fato de que essa ordem de elemento subjetivo não poderia estar relacionada ao resultado objetivo num liame de causa e efeito, coisa que se depreende da elevada taxa de boas intenções com que se lota o inferno, Dalmo ainda encontrou tempo de reiterar a tese, desta feita com os ares mais sonsos – equívoco que, de mais a mais, só fez reforçar a credibilidade da inacreditável desculpa de Oliveira. O fato é que se esqueceram de enterrar o homem, e ponto.

Bom, há Flávio Prado. E Wanderley Nogueira. Vamos lá, esses vão dar trabalho.

Quanto a Flávio Prado, preciso de um intróito.

Sejamos honestos: ele se vira bem no que diz respeito à condução do programa; não gagueja, tem boa memória, contém as extrapolações desinteressantes, estimula o pega-pra-capar que se espera desse tipo de atração. Impõe-se, enfim. Não nos constrange com aqueles acessos de dislexia que fazem a Honra e a Glória do “Bola na Rede”. Muito bem. Eu poderia dizer que, no mais, discordo de quase tudo o que ele acha acerca de futebol – ainda que isso tudo sejam só opiniões.

Flávio se encanta com a idéia de futebol “moderno”, baseado em marcação forte e contra-ataque. Gosto muito dessas coisas todas no meu time, mas não lhes empresto a mesma importância. Que importa? As diferenças podem ser resumidas pelo fato de que seu time ideal é o Palmeiras de 96, e o meu o de 94. Esse é o próprio assunto que sequer viria ao caso, mas penso que seria desonesto dizer o que vou dizer adiante sem reconhecer que, de fato, Flávio Prado gosta de futebol – apenas faz dele uma idéia diferente da minha – e é um comentarista perfeitamente apto.

O ponto é outro. Em primeiro lugar, Avallone ornava melhor com a atmosfera trash do programa. Além disso, como jornalista, era mais completo – Prado escreve mal demais para alguém formado em direito e, às vezes, é antipático demais para o papel de chefe. Características que, é verdade, não depõem contra o caráter de ninguém. Porém, é impossível deixar de notar todo aquele moralismo exacerbado que, mesmo em pessoas como eu, muitíssimo mais conservadoras do que a maior parte dos meus amigos ou mesmo conhecidos (se confrontarem minhas posições políticas com as do pessoal do OV não dou cinco minutos para a formação de um Tsunami), assume certo colorido um tanto quanto perigoso. Sua briga com as Organizadas já está descalibrada há anos: conheço dezenas de torcedores que são membros das uniformizadas (não sou sequer próximo a elas), alguns dos mais ativos. São sujeitos muito menos dados ao banditismo do que muitos dos policiais militares que me revistaram até hoje. Conheci o Izidoro, conheço o Barneschi, freqüentei muito o PA Bar quando este ainda era próximo ao Cambuci. A maior parte daquelas pessoas tem emprego, trabalha, tem família, não deve porcaria nenhuma a ninguém. Quanto mais à imprensa.

Ora, eu sei. Há certa parte dessas torcidas, e isso serve para todos os times, composta por arruaceiros profissionais. Problema igualzinho ao que atormenta a Polícia Militar, para dar o primeiro exemplo que me vem à cabeça. A Instituição, é claro, deve responder pelos erros que se cometem sob sua bandeira. Só que há muitos modos de se minimizar as possibilidades de dano, e nenhum deles passa por urrar diante das câmeras acusações contra cidadãos que sequer se conhece, xingando todos de bandidos, malfeitores e comedores de criancinha. Sobretudo quando a imensa maioria deles não é capaz de roubar um pirulito. Aliás, o único resultado que se pode obter desse tipo de atribuição leviana é incorrer em crime.

Não importa o quanto Flávio Prado estrile: ninguém que já apanhou da polícia a troco de nada vai acreditar que apanhar da polícia é prova de delinqüência. O raciocínio segundo o qual se o sujeito está apanhando da polícia, é porque alguma coisa fez, é boçal de ponta a ponta. Que morram 20, 30, 50, 100 pessoas nos estádios. A tragédia continuaria sendo fruto de dois fatores associados que precisam ser enfrentados com a cabeça, e não com chiliques. Observem que:

a) Há por aí, em liberdade, meia centena de bandidos loucos por liberar imenso potencial destrutivo, atividade que, aliás, não reservam somente para as praças de esporte, e aos quais se permite que;

b) Se aproveitem de uma conjuntura incontornável, que é a presença de muitas pessoas em eventos destinados a muitas pessoas, e sobretudo do despreparo (quando não de coisa pior) das Polícias Civil e Militar, infestadas também de sociopatas não menos descontrolados. Sim, já os vi, e aos montes. Flávio Prado também já deve ter lidado com coisa parecida, não é não?

Fica a impressão de que Prado faz suas opções a esmo, por preguiça, comodismo, e que deve ter se sentido provocado por qualquer episódio mais intenso para, agora, levar as coisas rumo ao lado pessoal. Não é lá a atitude mais profissional do mundo, e tanto pior fica quanto mais se nota que provinda de um sujeito que vive sugerindo aos clubes que “chutem o traseiro” deste ou daquele jogador pego em ato de indisciplina – quase uma monomania do jornalista. Ademais, como já se disse aqui, é a clássica postura que costuma ensejar grandes possibilidades de escorregadelas cujos resultados não podem ser outros que não a calúnia, a injúria, a difamação – todos tipos penais, que coisa chata.

Há, ainda, Wanderley Nogueira. Acreditem-me, já foi divertido. Boa voz, senso de oportunidade, inteligência, tudo ele tem e tudo utilizava naquela mesa-redonda do início dos anos 90 que comandou na Jovem Pan UHF, canal 16, com Roberto Petri torrando-lhe deliciosamente as bolas. No rádio, é rápido, preciso, sabe enriquecer o evento. Tudo isso é bom. Pena que Nogueira é outro que optou, há tempos, pelas funções professorais da alta moralidade vigente. Fiquemos neste exemplo: quer dizer que o Palmeiras deveria pedir desculpas ao São Paulo pelo episódio do gás, não é mesmo? Ahã. Temos visto.

Mas que bela roba, esse Wanderley.

Mais uma nota: assumisse logo que é são-paulino, e muito menos gente encontraria motivos para acusá-lo, com ou sem motivo, de ser são-paulino e de ser tendencioso. Mesmo porque, como mostra o exemplo de Avallone, esses fanatismos só o são conforme o time que o camarada assuma, não é verdade?

Para terminar: tem muito merchan no “Mesa”? É, passa da conta. Nem sempre ocupou tanto tempo do programa, e nem sempre se tinha que o interromper tantas vezes para se vender badulaques. Deve haver um modo de contornar isso, afinal.

Por todos esses motivos, o “Mesa-Redonda Futebol Debate” leva apenas duas carinhas vomitantes (quanto menos, melhor). Houve tempo em que não levaria nenhuma, houve tempo em que poderíamos pensar em enfiar ali uma, duas ou três estrelinhas, aquelas destinadas às avaliações de “péssimo”, “ruim” ou “regular”. Quem sabe, até coisa melhor. Quem sabe eu esteja sendo muito chato com tanta gente que já me divertiu tanto em outras épocas.

Mas que já vão longe, meu Deus.

A avaliação do “Bola na Rede” está aí em cima: três carinhas vomitantes. Acreditem-me: estará na média, quando tudo tiver acabado.

A principal atração do programa, hoje, é a tensão entre dois “maluquetes” – Vanucci e Kajuru – e não é porque um deles tenha saído da Globo que se deva levar o outro em conta mais alta.

Eu sei, fica mal falar do programa porque é lá que está Jorge Kajuru. Quem o conhece pessoalmente gosta dele, e mesmo o público, um dia, já lhe quis bem. Acontece que o homem é um celerado. Já o vi acusando de covarde um pugilista pelo fato do sujeito entregar-se ao pugilato puro e simples. Já o vi brandindo papéis cujo conteúdo, interesse ou autenticidade nem sequer ele próprio poderia ter verificado – a coisa acabara de lhe chegar por fax – somente porque a eleição de Eurico Miranda lhe soava tal qual deverão soar as trombetas do Apocalipse. Não duvido que tenha feito tudo na melhor das intenções – não é possível que tanta gente se equivoque tanto quanto ao bom coração de Kajuru. Mas o caso é que, a despeito do talento de comunicador, inegável, não se podem levar a sério três quartos do que ele diz: pode ser que esteja sendo feito de bobo, pode ser que esteja delirando, pode ser que esteja se precipitando, pode ser que esteja sendo manipulado; tudo com Kajuru é acompanhado de tantos “pode ser” que a gente fica com medo de aproveitar seja lá o que for. Afora isso, Kajuru ainda tem o mau hábito de perder as estribeiras de cinco em cinco minutos (parece aproveitar-se, às vezes, da fama de bom maluco) e, nos poucos momentos que se dedica a falar de futebol, limita-se a ou ir na onda do vozerio, ou a ceder a impulsos sentimentais. Ou repete o que todo mundo está dizendo, ou discorda de todo mundo pela antipatia ou simpatia que nutre por este ou aquele elemento. Para piorar tudo, esses sentimentos muitas vezes são fundados nos motivos mais superficiais, e Kajuru os exterioriza de modo lamentavelmente infantil. Em suma, não sei quanto a vocês: de minha parte, não tenho mais saco.

Quanto a Vanucci, bem… não é mais ou menos espantoso vê-lo conduzindo seja lá o que se pense? Sobretudo em se tratando de futebol, atividade que, segundo o próprio apresentador, jamais mereceu mais do que um “Eta esportezinho chato, hein?” (pois é, eu me lembro).

Vanucci, no apogeu, jamais passou de uma espécie de animador de estúdio. Ninguém quer saber o que ele pensa a respeito de porcaria nenhuma. Nem ele, que jamais se preocupou em articular o que quer que fosse acerca do que quer que seja. Sua presença à frente da mesa é uma dessas coisas que deveriam ser entregues aos cuidados da NASA. Não é coisa séria. Ele engrola tudo, tartamudeia, confunde nomes, treme o lábio de baixo, entrega-se pastosamente às mais variadas formas de desatenção, falta de sintonia, desconhecimento do assunto. Vanucci não gosta de futebol, não entende de futebol, não tem a mais mínima autoridade para comandar sequer um pega-pega e não sabe apresentar nem mesmo a própria e triste figura. Agora, me digam como um troço equipado com aquele tipo pode ser, repito, levado a sério. Não pode. Todo o valor do “Bola na Rede” reside no humor involuntário que se produz ali.

E que não é pouco. Há Ronaldo, que foi excepcional goleiro. E que nunca perdeu qualquer jogo sem ter sido lesado pela arbitragem, coisa que se depreende da totalidade de suas declarações, no passado, a programas como esse do qual ele, hoje, faz parte, e no qual desanca quem quer que atribua derrotas, com ou sem razão, a equívocos dos árbitros. Ronaldo parece ser um cara legal, mas é tão capaz de analisar a realidade e suas tramas que acusou Flávio Prado, no ar, de receber para falar bem do São Paulo. Uma demonstração de inteligência somente à altura da sensibilidade que revelou ao aplaudir sua zaga em 94, após os gols do Santos que alijaram o Corinthians da disputa do título paulista daquele ano. Os episódios têm entre si algo de comum e algo de diverso. A diferença é que a zaga do Corinthians era ruim mesmo e que isso se poderia provar com facilidade, ao passo que Flávio Prado, parcial o quanto fosse, não era (e nem é) a pessoa certa para se acusar sem provas. E a semelhança está no fato de que, em ambas as ocasiões, Ronaldo deveria ter se recolhido ao silêncio verbal e – com mil diabos – gestual também. Em todo o caso, não é por sua culpa que o “Bola na Rede” ganha ares de manicômio.

Isso só acontece quando José “À Flor da Pele” Calil balança seus desconexos Olhos de Sampacu Selvagem enquanto desfila incongruências naquele tom indignado que ninguém explica – alguém pode me dizer, por tudo quanto é sagrado, com o que ou quem Calil está bravo, em tempo integral, há coisa de cinco anos? A impressão que se tem é que lhe quebram o penico dia sim, dia também. Calil não consegue fundamentar uma única afirmação, e só o que faz é afirmar, afirmar e afirmar, intercalando o palavrório assertivo com mais afirmações altamente afirmativas. Entrementes, para variar, o célebre polemista introduz qualquer dúvida, nonsense e retórica, destinada ao papel de afirmação profunda elidida por forças ocultas entre as afirmações mais aparentes e insinuantes. Calil nunca diz algo útil: por que o faria, se pode perder nosso tempo vociferando? O camarada não sabe comunicar nada sem certa gravidade histriônica, e deve ser o jornalista esportivo brasileiro com menos compromisso com as próprias palavras – vende times inteiros, contrata jogadores a granel, descobre escândalos semanalmente, tudo isso fiado na própria imaginação. Com débito automático na conta do suposto esquecimento alheio.

O mais chato é a impressão de que se a gente bater o pé ele vai sair correndo e chamar a mãe. E que, Deus meu, ela virá em sua defesa.

Compactos, melhores momentos? Bom, há alguma coisa. O tratamento é que é ruim, precário. Isso é o de menos. Algo do demais: no “Bola na Rede”, o quadro dos “lances polêmicos” (praga do gênero, diga-se de passagem) assume contornos psicóticos. Aparentemente, porque o acesso às imagens, nos monitores disponíveis no estúdio, deixa a desejar. Além do mais, a transmissão utilizada não pode ser de melhor qualidade do que a que chega à nossa casa, e que é sofrível. Associe-se essa deficiência material à disposição para a insanidade que há ali e pronto: o quadro, pronto e acabado, é qualquer nota de Salvador Dali, bêbado.

E atirado à miséria.