A Pequena Loja de Horrores do Bola na Rede

19/05/2008

A avaliação do “Bola na Rede” está aí em cima: três carinhas vomitantes. Acreditem-me: estará na média, quando tudo tiver acabado.

A principal atração do programa, hoje, é a tensão entre dois “maluquetes” – Vanucci e Kajuru – e não é porque um deles tenha saído da Globo que se deva levar o outro em conta mais alta.

Eu sei, fica mal falar do programa porque é lá que está Jorge Kajuru. Quem o conhece pessoalmente gosta dele, e mesmo o público, um dia, já lhe quis bem. Acontece que o homem é um celerado. Já o vi acusando de covarde um pugilista pelo fato do sujeito entregar-se ao pugilato puro e simples. Já o vi brandindo papéis cujo conteúdo, interesse ou autenticidade nem sequer ele próprio poderia ter verificado – a coisa acabara de lhe chegar por fax – somente porque a eleição de Eurico Miranda lhe soava tal qual deverão soar as trombetas do Apocalipse. Não duvido que tenha feito tudo na melhor das intenções – não é possível que tanta gente se equivoque tanto quanto ao bom coração de Kajuru. Mas o caso é que, a despeito do talento de comunicador, inegável, não se podem levar a sério três quartos do que ele diz: pode ser que esteja sendo feito de bobo, pode ser que esteja delirando, pode ser que esteja se precipitando, pode ser que esteja sendo manipulado; tudo com Kajuru é acompanhado de tantos “pode ser” que a gente fica com medo de aproveitar seja lá o que for. Afora isso, Kajuru ainda tem o mau hábito de perder as estribeiras de cinco em cinco minutos (parece aproveitar-se, às vezes, da fama de bom maluco) e, nos poucos momentos que se dedica a falar de futebol, limita-se a ou ir na onda do vozerio, ou a ceder a impulsos sentimentais. Ou repete o que todo mundo está dizendo, ou discorda de todo mundo pela antipatia ou simpatia que nutre por este ou aquele elemento. Para piorar tudo, esses sentimentos muitas vezes são fundados nos motivos mais superficiais, e Kajuru os exterioriza de modo lamentavelmente infantil. Em suma, não sei quanto a vocês: de minha parte, não tenho mais saco.

Quanto a Vanucci, bem… não é mais ou menos espantoso vê-lo conduzindo seja lá o que se pense? Sobretudo em se tratando de futebol, atividade que, segundo o próprio apresentador, jamais mereceu mais do que um “Eta esportezinho chato, hein?” (pois é, eu me lembro).

Vanucci, no apogeu, jamais passou de uma espécie de animador de estúdio. Ninguém quer saber o que ele pensa a respeito de porcaria nenhuma. Nem ele, que jamais se preocupou em articular o que quer que fosse acerca do que quer que seja. Sua presença à frente da mesa é uma dessas coisas que deveriam ser entregues aos cuidados da NASA. Não é coisa séria. Ele engrola tudo, tartamudeia, confunde nomes, treme o lábio de baixo, entrega-se pastosamente às mais variadas formas de desatenção, falta de sintonia, desconhecimento do assunto. Vanucci não gosta de futebol, não entende de futebol, não tem a mais mínima autoridade para comandar sequer um pega-pega e não sabe apresentar nem mesmo a própria e triste figura. Agora, me digam como um troço equipado com aquele tipo pode ser, repito, levado a sério. Não pode. Todo o valor do “Bola na Rede” reside no humor involuntário que se produz ali.

E que não é pouco. Há Ronaldo, que foi excepcional goleiro. E que nunca perdeu qualquer jogo sem ter sido lesado pela arbitragem, coisa que se depreende da totalidade de suas declarações, no passado, a programas como esse do qual ele, hoje, faz parte, e no qual desanca quem quer que atribua derrotas, com ou sem razão, a equívocos dos árbitros. Ronaldo parece ser um cara legal, mas é tão capaz de analisar a realidade e suas tramas que acusou Flávio Prado, no ar, de receber para falar bem do São Paulo. Uma demonstração de inteligência somente à altura da sensibilidade que revelou ao aplaudir sua zaga em 94, após os gols do Santos que alijaram o Corinthians da disputa do título paulista daquele ano. Os episódios têm entre si algo de comum e algo de diverso. A diferença é que a zaga do Corinthians era ruim mesmo e que isso se poderia provar com facilidade, ao passo que Flávio Prado, parcial o quanto fosse, não era (e nem é) a pessoa certa para se acusar sem provas. E a semelhança está no fato de que, em ambas as ocasiões, Ronaldo deveria ter se recolhido ao silêncio verbal e – com mil diabos – gestual também. Em todo o caso, não é por sua culpa que o “Bola na Rede” ganha ares de manicômio.

Isso só acontece quando José “À Flor da Pele” Calil balança seus desconexos Olhos de Sampacu Selvagem enquanto desfila incongruências naquele tom indignado que ninguém explica – alguém pode me dizer, por tudo quanto é sagrado, com o que ou quem Calil está bravo, em tempo integral, há coisa de cinco anos? A impressão que se tem é que lhe quebram o penico dia sim, dia também. Calil não consegue fundamentar uma única afirmação, e só o que faz é afirmar, afirmar e afirmar, intercalando o palavrório assertivo com mais afirmações altamente afirmativas. Entrementes, para variar, o célebre polemista introduz qualquer dúvida, nonsense e retórica, destinada ao papel de afirmação profunda elidida por forças ocultas entre as afirmações mais aparentes e insinuantes. Calil nunca diz algo útil: por que o faria, se pode perder nosso tempo vociferando? O camarada não sabe comunicar nada sem certa gravidade histriônica, e deve ser o jornalista esportivo brasileiro com menos compromisso com as próprias palavras – vende times inteiros, contrata jogadores a granel, descobre escândalos semanalmente, tudo isso fiado na própria imaginação. Com débito automático na conta do suposto esquecimento alheio.

O mais chato é a impressão de que se a gente bater o pé ele vai sair correndo e chamar a mãe. E que, Deus meu, ela virá em sua defesa.

Compactos, melhores momentos? Bom, há alguma coisa. O tratamento é que é ruim, precário. Isso é o de menos. Algo do demais: no “Bola na Rede”, o quadro dos “lances polêmicos” (praga do gênero, diga-se de passagem) assume contornos psicóticos. Aparentemente, porque o acesso às imagens, nos monitores disponíveis no estúdio, deixa a desejar. Além do mais, a transmissão utilizada não pode ser de melhor qualidade do que a que chega à nossa casa, e que é sofrível. Associe-se essa deficiência material à disposição para a insanidade que há ali e pronto: o quadro, pronto e acabado, é qualquer nota de Salvador Dali, bêbado.

E atirado à miséria.

Anúncios

Chute o Saco

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s