Ora, vamos lá. Pretendia falar primeiro do Cartão Verde, mas não pude ver o programa nas duas últimas semanas – penso que preciso de mais alguns dias, para ser honesto. E os terei.

Por isso, resolvi alterar a ordem dos fatores. Mas não só por isso. Há outros motivos.

Eu sei que fui citado por Milton Neves numa manhã de domingo, e todos sabem que a citação foi elogiosa (foi o que me disseram, não ouvi). Também já fui a “Personalidade da Semana”, no “Agora” e no próprio site de Neves. E foi divertido. Gostei. Por isso, e por eu ser quase que um completo desconhecido, pode surgir a suspeita de que, agora, eu talvez me sinta como que obrigado a elogiar a mesa-redonda da Bandeirantes. O máximo que posso fazer, quanto a isso, é dizer que dou graças a Deus pelo fato de o Terceiro Tempo ser mesmo melhor do que as atrações da Gazeta e da RedeTV!. E, ainda, lembrar que já fiz minhas restrições à condição do programa quando respondi à própria entrevista de Neves, na qual afirmei que preferia seu programa aos outros, na TV, muito em razão de uma concorrência que, acho nítido, é bastante fraca.

Além do mais, essa é a mania mais irritante das ditas classes pensantes brasileiras: há todo esse esquema de filiação ideológica, cartorial, no qual as pessoas buscam se apoiar quando pretendem analisar a opinião dos outros. É como se ninguém fosse capaz de atinar com absolutamente nada antes de verificar a correção de determinadas posições ante o juízo de uma coletividade qualquer. Para que pensar por si se é possível, de antemão, verificar o que seria melhor pensar segundo a escola à qual professamos fidelidade? Ninguém está atrás de confusão, não é mesmo? O sintoma mais berrante desse – como direi? – esquema de raciocínio é a recorrência inevitável e quase permanente ao recurso erístico da argumentação ad hominen, de modo que é comum ver gente capaz de nos afirmar, nos tons mais peremptórios e professorais, que tal e qual proposição não pode ser válida porque formulada por este ou aquele camarada, mal visto neste ou naquele círculo por ser supostamente malvado, insensível, feio, chato e bobo. Sobre a proposição mesma, necas de pitibiribas. É dose. Não perco mais tempo com isso.

Portanto, não se preocupem. Qualquer coisa que eu diga a respeito do programa da Bandeirantes terá sido fruto das minhas observações acerca do programa da Bandeirantes e, por mais que minhas observações só possam ser construídas a partir das convicções que desenvolvi ao longo da vida, no final das contas só quem as pode construir sou eu, e não as pessoas que compartilham de minhas convicções acerca de tudo o mais e que, ora vejam só, podem muito bem tomar por bobagem tudo o que eu disser acerca de tudo o menos.

Bom, ao “Terceiro Tempo”. Já foi melhor, pois não? Quando estava na Record. Lá reinava aquele clima de balbúrdia e, coisa estranha, havia mais espaço para a turma “falar de futebol”, para a conversa correr solta. Na Band, diminuiu-se o espaço para se jogar conversa fora, que é quase tudo que se pode fazer de bom numa mesa-redonda. É evidente: há quem saiba fazer isso perfeitamente bem, como Beting, e há quem já o soube fazer melhor, como Paulo Morsa. O primeiro só evolui desde que surgiu, o outro parece estar de saco cheio – prefere passar a maior parte do tempo encenando o papel do anti-carioca, anti-frescura e anti-modernidade. O papel é divertido, desde que encenado na hora certa.

Sobre Beting: é um dos poucos cronistas, dentre os mais jovens, que se preocupou, lá atrás, em desenvolver um estilo. Escrevendo, já me tirou do sério, mas tenho de reconhecer que – porca miséria – encontrou mecanismos honestos de se comunicar e pelos quais se pode identificá-lo sem nenhuma dificuldade. A mesma melhora se nota, na mesma exata proporção, em suas aparições na televisão. Algumas marcas involuntariamente histriônicas que se notavam no início e que desviavam ou até distorciam nossa impressão de todo o resto estão, hoje, relevadas ao quinto plano, obnubiladas – e isso não se deve somente ao fato de termos nos acostumado com os cacoetes de Beting, mas sobretudo à evolução profissional do sujeito. No rádio, incorporou tão bem o espírito da coisa que parece que está ao lado de Neves há décadas – é muito, muito superior ao Flávio Prado dos anos 80, na mesma função. Pratica humor sem ranço, não se arrasta naquele pântano de moralismo senil tão usual e comenta o que vê de forma mais calma e mais ponderada do que quase todos os seus pares. Não sofre da síndrome do “matei o jogo em cinco minutos”, nem tampouco decide em dois tempos o que pensar (e, o principal, dizer) acerca das qualidades e defeitos dos profissionais cuja análise do trabalho é seu ganha pão.

Só que o “Terceiro Tempo” é programa televisivo e a televisão, digam o que disserem, é bastante menos rica, como meio de comunicação, do que o rádio. Na TV, muita coisa boa não se pode fazer, e muita coisa ruim não se pode esconder. A mesa da Bandeirantes tem dois sujeitos em grande forma, e só. No nosso caso, nem eles têm desempenhado como em outras ocasiões. Pelo contrário: andam sucumbindo. Até o cenário, coisa bizarra, atrapalha. Os participantes, muitas vezes, dão a impressão de serem colagens contrapostas a um fundo de videoclipe porco. Dos anos 80. Clip-Trip.

Na Record havia amplidão, cores vivas – as pessoas chegavam a caminhar pelo palco. A versão atual é visivelmente sufocante – e não sei até que ponto isso é problema de ordem material. A Bandeirantes comprou repasses dos direitos de transmissão de diversos campeonatos, pode gerar imagens; aliás, o faz com qualidade. Tudo isso custa muito mais do que cenários razoáveis. Mas não é só o que vai mal.

Há quem faça grande berreiro em torno do merchandising; acho bobagem. Penso que o problema é outro. Para não fugir da raia, abro parêntese; depois volto ao ponto central:

Sobre o merchandising: deve haver controle, limites? É óbvio que sim. Mas não adianta fantasiar: o jornalismo esportivo não cobre os grandes temas nacionais: a política, a economia, a segurança pública, a saúde. Jornalismo esportivo, ainda mais quando se fala em futebol, é coisa com a qual se divertir – futebol é brincadeira, é teatro. É negócio? É, como também é coisa séria, para gente grande. Mas arrancado de suas raízes lúdicas é mau negócio, não tenho dúvidas. Não é possível que se queira manter o mesmo padrão de exigência entre profissionais que cobrem economia e profissionais que cobrem uma brincadeira de criança levada às últimas conseqüências. Para recorrer à analogia: o Estadão desligou-se de Joelmir Beting porque este aceitou fazer propaganda do Bradesco. Ora, faz sentido. A credibilidade de Joelmir gira em torno da idéia de que ele possa falar mal do Bradesco a qualquer momento. Se ele faz propaganda, seria natural esperar que estivesse impedido de descer a lenha no patrão de ocasião, até por questões de bom tom, durante certo período. Até aí, ele faz a propaganda que bem entender – este país é livre, não é? – o Estadão o dispensa – tem todo o direito – e, mais tarde, Joelmir vai buscar outra colocação – ninguém o levará menos a sério por isso. Permanecesse no Estadão, e teríamos um nó difícil de desatar.

Por outro lado, Milton Neves não precisa falar bem ou mal da Brahma para tecer quaisquer observações sobre futebol; isso é claro. Que opinião sua poderia ser modificada, sei lá, a respeito de Givanildo de Oliveira caso não estivesse contratado pela cervejaria?

Se mantivesse a mesma relação com o Sondas, a coisa se complicaria: o Sondas investe em jogadores. Ora, mas ele faz merchan do Sondas! Sei, só que fazer merchan não é a mesma coisa que ser garoto-propaganda, ainda que seja o tipo de situação que precisa ser estudada. Com calma. Para mim, não parece confortável, ainda que as inserções do supermercado sejam padronizadas, desvinculadas do esporte – que façam parte daquele repertório indispensável ao universo da crônica futebolística, quase incorporado ao folclore nacional e cujo melhor exemplo se vê em Avalone e sua “Cantina Chique dos Jardins”, ou seus sapatos “DiPolini”. Avalone caiu? Ora, se tivesse usado “Argamassas Portocol”, não tinha caído. Silvério que o diga. OK, de volta ao Sondas.

Ninguém impediria os executivos da empresa de, no mínimo, solicitar ou, no máximo, pressionar por algum elogio ou defesa a este ou aquele atleta cujos direitos pertencessem à rede. Daí o incômodo, que existe e deverá ser tratado. Ainda que esteja muito distante da condenação resoluta, típica de gente que confunde ética com guilhotina por conferir àquilo que é ideal o caráter mui mundano das ferramentas que melhor ornem com as próprias almazinhas sapecas, reconheço a existência da questão.

Há maneiras de contornar essa possibilidade? Não sei. Quem critica sem refletir, fundado em motivos pessoais, também não sabe, não quer saber e sente muita dor ao pensar a respeito – aliás, sente muita dor ao pensar em qualquer coisa, além de nos provocar dores piores ainda quando tenta se fazer entender. A coisa é complexa o suficiente para não permitir esses juízos de valor contundentes, puríssimos, impolutos. As respostas passam por conversar com gente série, capacitada e que viva em seu mundo situações comparáveis a esta. Talvez se as encontre no mercado corporativo, na administração pública; talvez se as encontre no exemplo de outros países. Na experiência.

Na inveja e no ódio irracional é que não vai ser. E nem aqui, neste Blog, porque tenho mais o que fazer. Fecho parêntese. Voltemos ao que interessa.

O problema com o “Terceiro Tempo” é que a coisa anda apoiada somente nas capacidades de entretenimento de Neves. No rádio, ele consegue segurar o ritmo por um dia e uma noite, sem descanso e sem susto – e tratando de material sério com muita qualidade. Na televisão, está tendo que abusar da criação de polêmicas, de suspense, de tensão. No rádio Neves pode, como inclusive pôde (em menor grau, por conta do tempo, é óbvio) em muitos momentos na Record, intercalar esses recursos com bom conteúdo e mesmo transmitir tal conteúdo bom a eles; na atração que está indo ao ar, não tem encontrado o tom. Se a bola vai até Beting, ainda rola. Se pára em Godoy, é o velho caso da cabeça de juiz e do bumbum de neném: dali, ninguém sabe o que vem.

Godoy é muito engraçado, às vezes parece boa gente – os jogadores do seu tempo de apito o tinham (e têm) na mais alta conta, para se ver como deve ser honesto – e disso ninguém jamais pôde sequer duvidar. E era belíssimo árbitro. Pena que sua carreira vá se embotando, em perspectiva, pela condescendência confusa, cheia de remorso com que ele, hoje como comentarista, trata seus pares da ativa. Pior: quando se depende de Godoy para mais do que rompantes pontuais, tudo fica muito chato, monotônico. Tanto o ex-árbitro como Morsa não vão funcionar num conjunto que não esteja afinadíssimo, inclusive com o contexto. Os dois estão encolhidos às caricaturas que se fez deles, e que não correspondem ao que já ofereceram ao público. Se não eram nada fora do normal, ao menos colaboravam no todo. São jogadores para compor elenco, por assim dizer.

Osmar de Oliveira? Talvez ajudasse. Mas tenho o pressentimento de que, no lugar do comentarista clássico, do debatedor atinado e do corintianismo à moda antiga, fôssemos topar apenas com mais um polemista de ocasião, esbugalhando os olhos de Sampacu-Açu, contrastando temível com aquele cenário digno de Zé do Caixão com o qual serviram MN. Porque o problema está menos na fórmula do que na proposta da coisa, mal trabalhada, ansiosa – meio histérica, até.

De tudo isso resulta que o novo “Terceiro Tempo” ainda está bastante desequilibrado e tem muito a melhorar. Por isso aqueles berreiros todos que, como disse um leitor deste blog, nos impedem de ouvir os convidados (na maioria das vezes, melhores do que os da concorrência). Por isso que a sessão de lances polêmicos é tão aborrecida como a dos rivais do gênero. Por isso que o programa leva aquela carinha de muxoxo ali em cima, para dar conta de certa decepção.

Dá para melhorar. Só que vai ter que ser rápido.

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