.

Ontem, assisti ao “Cartão Verde” todinho. Não foi a primeira vez, não será a última. Compreendo os atrativos do “Cartão”. E é sobretudo por conta deles que, em minha opinião, certas características do programa conferem-lhe qualquer coisa de psicopatológico. Pelo amor de Deus, não se ofendam por precipitação. Vou chegar aonde quero, e vocês verão que não é nada pessoal. Um pouco do histórico, antes.

A primeira versão, de 93, contava com Trajano, Flávio Prado, Juca Kfouri e Armando Nogueira. Já continha todos os elementos que fazem do programa de hoje um produto na linha das televisões fechadas; um produto destinado à gente – como direi? – de bem, não é mesmo? Funciona assim: as mesas-redondas tradicionais são pouco sérias, há nelas muito espaço para a caricatura, para o popularesco e – por que não dizer? – para a apelação. Vamos reunir aí meia dúzia de camaradas articulados, que gostem de futebol e que estejam habituados ao debate civilizado. O espectador inteligente não deve ser obrigado a aturar pessoas urrando incongruências, sem parar, umas nas orelhas das outras; temos mesmo obrigação de lhe oferecer alternativas saudáveis. Associemos tal idéia à outra idéia, a de que é possível produzir algo assim sem se perder a leveza, o desprendimento bem-humorado que não pode deixar de ser relacionado ao esporte. Sobretudo ao esporte que se transformou numa espécie de signo do espírito alegre, musical e jovial desse tipo de brasileiro tão Bossa Nova, mas tão Bossa Nova que pruridos mil tomam-lhe todo o corpo à mera menção da Caninha 51, tanto mais se interposta entre dois gols cometidos num pré-histórico campeonato estadual.

Nada contra a Bossa Nova, eu inclusive gosto de Bossa Nova – e detesto 51. O problema é que a premissa que inspira o “Cartão Verde” já andava, à época, meio mal colocada: há, sim, gente capaz de perceber muita idiossincrasia nos programas ditos tradicionais, e de se irritar com ela. Gente que, portanto, estaria disposta a assistir a debates mais ponderados, menos pontuados de material folclórico, menos poluídos por merchandising. Isso é uma coisa. Outra coisa é encarar tal público como mais “preparado”, seja lá o que isso possa querer dizer acerca de camaradas que se dispõem a assistir debates sobre a mais recente rodada do Campeonato Paulista, Gaúcho, Mineiro, Carioca ou do raio que o parta. É outra coisa porque empresta às figuras que atenderão tal público as qualidades que se atribuem a ele, o que é mais ou menos engraçado. Sejamos honestos: Flávio Prado, por exemplo, não é mais preparado para falar de futebol do que qualquer outro bacharel em direito aficionado em futebol e que goste mais de vê-lo hoje, na Gazeta, do que gostava de vê-lo na TV Cultura de 15 anos atrás. Assim, se hoje conta com a audiência deste nosso cidadão fictício, mas verossímil, não é porque tenha se tornado menos preparado – é porque havia outros cidadãos de igual preparo lhe davam pontinhos no IBOPE, ontem, por motivos que nada tinham a ver com o preparo que eles – ou Flávio Prado, ou Kfouri, ou Trajano – tiveram ou têm. Preparo é a vovozinha, entendem? Conformem-se: falar de futebol, bem o quanto seja, não é a coisa que peça mais preparo no mundo. Ouvir, muito menos. Numa área em que muitos sequer são capazes de oferecer o mínimo, pretender-se num estrato mais qualificado por conta de certo verniz barato é coisa de espertalhões. Não de gente “preparada”.

Há outros motivos para se sustentar um programa como o “Cartão Verde”, motivos esses que se revelam no simples fato, indiscutível, de que o programa serviu de matriz para todos – é, todos – os programas de debate futebolístico produzidos, posteriormente, paras as opções por assinatura. Aliás, metade da mesa original do “Cartão” está na ESPN, não é mesmo?

Em 93, o processo de tecnicização da cobertura futebolística já estava concluído, o discurso deslumbrado ante a estrutura material do futebol europeu, pronto, e o moralismo bom-mocista, antiga marca do jornalismo esportivo brasileiro, perfeitamente adaptado às necessidades da geração que se incumbiu de carregar todas essas bandeiras tidas por “modernizadoras” – rótulo que, no Brasil, equivale a uma espécie de ascensão deontológica intrinsecamente benéfica e necessariamente inevitável. Aquela velha ladainha de que o mundo anda para frente, e rápido, e de que isso é bom e inexorável.

Todas essas características estiveram atravessando o antigo “Cartão Verde”, o tempo todo. Mas, ali, havia muitos e muitos atenuantes que garantiam a palatabilidade da atração.

O primeiro era a presença de Armando Nogueira. Sim, acho a postura romântica de Armando um tanto quanto forçada, artificial. E, com freqüência, o jornalista cai no mais rasteiro pieguismo. Mas isso tudo é matéria de gosto. Armando Nogueira é de um tempo em que o jornalismo era uma atividade séria. Ele é profissional. Ninguém é louco para vir aqui e dizer que o homem escreva mal, por exemplo – ainda que o estilo não agrade a este ou a aquele, Nogueira desenvolveu um que é dele, inconfundível, fundamentado o suficiente na tradição literária do idioma para ser capaz de render momentos inesquecíveis aos leitores. Anacrônico que é, ainda exige de seus próprios raciocínios toda a legitimidade formal que se espera de quem pretenda dizer coisas logicamente válidas e, portanto, úteis ao debate – qualquer debate. Havia entre ele e seus pares de “Cartão” um verdadeiro abismo de, ora vejam só, preparo, aliás só disfarçado pelo elemento adicional de uma educação irrepreensível que, se tais pares não podiam compreender, porque dela não participavam, também não sabiam contornar, por questões de menoridade psicológica.

O segundo alento é que de um ambiente habitado por José Trajano não se podia – como hoje se pode menos ainda – obter nada muito parecido com a tão almejada ponderação e frieza técnica, o que terminava compensando a absurda homogeneidade de opiniões – tinta típica desses quadros pintados sobre as telas do “público diferenciado” – com algum agito que o desequilíbrio emocional (às vezes, aparentemente mental) sempre garante. Acontece nas piores famílias. Acontecia com o “Cartão”. Acontece no “Linha de Passe”. Nesse sentido, as personalidades de Kfouri ou Prado, conforme a época, também ofereceram qualquer coisa humana ao programa, já que ambos são muito bem-humorados até que, no caso do primeiro, se ameace discordar dele e, no do segundo, lhe pisem algum calo criado pelo atrito ou da vaidade intelectual, ou do gênio autoritário com os rumos que a vida toma. Ademais, o programa exibia bons melhores momentos, a cobertura completa dos principais jogos; as imagens sempre foram boas e os repórteres, acima da média. A direção era boa, as coisas se apresentavam em ordem, o cenário era bacana, leve. É, dava pra assistir. Juro.

Porque, o atual, não dá mais. O horário é bom, a idéia de apanhar a oportunidade no meio da semana foi excelente – acho até que, em quintas-feiras como a de hoje, caberia uma edição extra, mais enxuta. O cenário está – como se diz por aí, pelos campos da petulância corporativa – OK. As imagens continuam boas, mas o nível das coberturas específicas caiu bastante – a repórter dessa nova versão, uma moça que ontem cobriu a Portuguesa, é a cara e o cheiro da Gazeta, para se ter uma idéia de como a coisa soa razoável. Esse e outros pequenos defeitos seriam perfeitamente ignoráveis, inclusive porque há até qualidades – como o tratamento civilizado que se dá aos convidados – não fosse por um fator que incomoda o tempo inteiro e que, para mim, chega a inspirar alguma espécie de mal-estar premonitório, a dar-me a sensação do movimento subaquático dos terríveis pesadelos. Acompanhem-me.

O programa voltou a contar com membros fixos. São eles o apresentador Vladir Lemos, os jornalistas Vitor Birner e Xico Sá e o comentarista Sócrates, ex-jogador.

O primeiro é correto, mas exige-se quase nada dele: como todos concordam acerca de tudo que for o principal, deixando-se as discordâncias para os termos da melhor instrumentalização possível desta ou daquela opinião em relação àquelas idéias centrais, Lemos não medeia nada. Apenas toca a coisa estampando um sorriso vidrado no rosto.

Birner, bem, Birner não é coisa que se possa levar muito a sério, como jornalista. Como assessor da situação do São Paulo, talvez. Seu texto é ginasial. Birner utiliza as vírgulas como alguém que pretendesse temperar um prato com páprica e, por engano, espalhasse balinhas Tic-Tac sabor Tutti-Frutti por toda a panela para, depois, não perceber a diferença. Ambos, Lemos e Birner, ontem, sacaram e-mails de telespectadores que elogiam o programa pelo clima de botequim. Eu mesmo peço isso de mesas-redondas, mas desconfio que tais telespectadores freqüentem botequins mórmons, ou coisa parecida. Em toda a minha longa jornada por botecos de todos os matizes e níveis, jamais vi qualquer tipo deles capaz de abrigar conversas sobre futebol sem interpelações fora de hora, agastamentos, alguma elevação de voz e muita, muita divergência profunda, conceitual. Para piorar: outro componente, Sócrates, é um dos dois únicos partícipes em condições de freqüentar à vontade estabelecimentos desse gênero, mas por algum motivo está claro que o sujeito, a exemplo do que ocorre a inúmeros outros ex-atletas geniais, simplesmente não tem mais saco para futebol.

Para ser sincero: Sócrates, é nítido, mal sabe quem está jogando onde, quem é quem ou o que quer que seja a respeito do que quer que demande alguma atenção. Vai ao programa a passeio. Ainda que eu repute como supervalorizada suas capacidades intelectuais, ele as tem. E é nitidamente boa-praça. Mas sua contribuição se resume ao tom pastoso dos grandes bêbados de antanho, que seria perfeito num programa em que Vitor Birner não lhe perguntasse – por brincadeira ou não, não duvido de mais nada (pareceu-me sério, inclusive) – se ele esteve em campo quando Fabinho anotou um gol de mão em Santo André, na primeira metade dos anos 90. Afora a curiosidade psicanalítica oriunda do fato de Birner precisar ter ido tão longe para encontrar um gol anotado com a mão e vergonhosamente validado, o resultado desse tipo de companhia é que Sócrates vai de um assunto a outro sem concluir nenhuma idéia útil. Como também parece sempre feliz e sorridente, soma-se sua alegria alheada à atmosfera repleta de qualquer coisa à base de Ritalina e que faz o “Cartão Verde” parecer um colóquio dos Depressivos Anônimos, todos empenhados em contaminar a todos com aquela alegria laboratorial de rostos suados e sorrisos armados em aço.

Birner, por exemplo, não consegue emitir qualquer opinião sem sustentar um arco mecânico nos lábios, mostrar-nos os dentes e franzir o cenho em sinal de jovialidade achada no manual, página 54, capítulo 5, “De Como o Futebol Pode Ser um Assunto Super de Gente Boa, Mesmo se Você For Paulista”. Ontem, salvou o programa da grosseria suprema de não oferecer os pêsames à família de Bindi, mas nem nessa hora soube se livrar da máscara de hilaridade – sentimento que, certamente, não era o seu diante da morte do amigo e do pesar da família.

De que diabos Vladir acha tanta graça, que não pode dizer nada sem aquela risadinha limítrofe nos lábios? Eu não sei, mas depois que ele nos exibiu os seis gols de Fluminense e Vasco, no final do programa, e não se deu ao trabalho de identificar mais da metade dos autores deles, não vejo como encontrou tempo para exibir ares fabricados de final de tarde, o solzinho caindo no meio da tardinha regada a chopinho. Aliás, o tratamento dos jogos é mesmo superficial, o que é imperdoável.

Xico Sá? É, esse é engraçado. E inteligente. Mas está ali para fazer o papel de Cacá Rosset do Bem. Não tem o mínimo interesse em dizer nada sério, e sua presença revela certo traço monomaníaco da produção do programa: se era para ser “uma maneira diferente de interpretar o futebol”, seja lá que porcaria signifique tal slogan, se era para dar um tratamento sério à coisa, ainda que bem-humorado, por que precisamos de um Xico Sá de verdade ladeado por dois de mentira?

Isso tudo, mais aquela moça que me parece saída da mais profunda Mooca e que esteve ontem, no Canindé, fazendo as vezes de repórter, entrevistando as figuras mais marcianas que encontrou – algo assim muito empático, afinal – e entregando todos os sorrisos e toda a alegria previstos no prospecto, foi mais do que o suficiente para me infligir forte desconforto mental, espiritual e até mesmo físico.

Que eu devolvo agora, vomitando três vezes lá em cima. E, pensando bem, três aqui embaixo também, que é pra caprichar:

Meus caros, fica por isso. Restam-nos os canais fechados. Comecemos pelo SporTV e seu imenso cardápio de mesas-redondas. Até lá.