Coisa confusa

13/06/2010

Ainda hoje, publicarei pequeno post sobre minhas opiniões sobre esta Copa, na qual mais uma vez as predições sobre nossa eliminação na primeira fase ganham destaque todo especial. Sócrates, inclusive, atribuiu tal risco ao estado físico da seleção, que estaria péssimo. E, caramba: a gente sabe como o Doutor entende da importância das questões atléticas no desenvolvimento do bom jogo de futebol, né mesmo?

Outra nota: a Globo só pode manter Wright e Coelho comentando arbitragem em nome dos grandes serviços prestados por ambos, em campo, ao longo dos anos 80. Coelho, sobretudo, é de um ridículo sem limitações de nenhuma ordem; seu comentário agora há pouco, durante Argentina e Nigéria, de que “a arbitragem alemã é assim mesmo, não dá nada, o jogador cai na área e ele diz que o atleta está voando” é uma espécie de resumo de suas incapacidades técnicas e intelectuais: ainda que a coisa tivesse assumido o sentido que seu autor pretendeu emprestar a ela, não é menos do que uma generalização basbaque, uma enormidade.

E se pôde ouvir Casagrande, por trás dos microfones, corrigindo-o quanto ao material das garrafas chocantemente – para boçais como Arnaldo – repletas de cerveja com as quais se vê alguns torcedores nos estádios africanos: são de plástico, e não de vidro; Casagrande sabe que é assim porque esteve “com uma delas nas mãos”, coisa que, aliás, deve ter deixado muita gente preocupada por aí.

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A Grécia é a primeira equipe da história do futebol a escalar zagueiros centrais para as dez posições de linha.

Um bolãozinho

09/06/2010

Caríssimos, alguns dos leitores habituais deste blog já devem ter recebido o convite para o Bolão do Meu Saco para a Copa, mas, para os que não receberam e querem participar, é só enviar um e-mail para ofalavigna@gmail.com que o convite será enviado.

Ainda devemos a premiação do Bolão das Olimpíadas, que será providenciada. Mas o Bolão melhorou muito: agora está todo automático, num site separado, só para ele.

Até lá.

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Sim, eu sei, não há nada mais démodé do que amar a Copa do Mundo, a não ser, é claro, amar a seleção amarela. Os preconceitos levantados contra o escrete nacional são tão poderosos que, mesmo nesta época de louco ufanismo, a seleção brasileira continua servindo de saco de pancadas ideológico. Todos, menos a pobrezinha, podem se aproveitar da onda de triunfalismo compulsório.

 

São diversas as razões para essa situação aborrecida. As pintadas em cores mais berrantes são as mesmas que fazem de nossa cobertura futebolística a pior do mundo futebolístico: o despreparo dos profissionais que vivem de – ora vejam só – cobrir futebol. Vocês sabem: salvas as poucas exceções, aquela gente estúpida, ignorante e arrogante que aponta o dedo para a seleção dia e noite, dia após dia e noite após noite, sem jamais prestar contas do que diz nem mesmo diante do julgamento dos fatos.

 

Dado empírico: nas últimas 05 Copas, ou o Brasil fez a final ou foi eliminado por quem a fizesse; na maior parte das ocasiões, fez a final e, na maioria das vezes em que a fez, venceu-a. Ainda assim, há um milhão de desculpas para os achincalhes promovidos antes, durante e depois de cada uma dessas ocasiões – mesmo quando o depois nada mais era, ou ao menos deveria ser, do que o gozo da glória imensa de se ser campeão do mundo. Se tanta bile estragada não contribuísse para a imensa babaquice que é – sobretudo em São Paulo – o desamor pela canarinho, então nem mesmo no campo da estupidez restou qualquer contribuição do cultivo de tal atitude.

 

Ah, é porque você não sabe como são os jornais italianos, espanhóis, ingleses!

 

Sei sim: são histéricos. E, por isso mesmo, podem se desculpar depois de desmascarados, pela vida, como bocós – podem, afinal de contas, ser lidos com o devido desprendimento. As publicações estrangeiras são freqüentemente ciclotímicas, mas não posam de sabichonas. Os defeitos delas terminam sendo menos deletérios do que as supostas qualidades – isenção, objetividade, distanciamento – das nossas. No bojo, o que nos vendem há anos são parcialidade, subjetivismo e envolvimento pessoal revestidos por uma fina camada ou de pompa tecnicista, ou de irreverência de Shopping Center.

 

Mas não é só. Esqueçamos as evidências técnicas de que a atitude – como direi? – especializada em relação à seleção e à Copa tem sido despropositada, descolada da realidade.

 

Nós também temos sido maus com o futebol, com a Copa, com a nossa seleção. Temos pecado por esnobismo. Para tudo temos uma desculpa meio provinciana, meio metida a besta. De algum tempo para cá, já não bastam a camisa estrelada, o hino e a batalha sob o nome da Pátria: todos querem motivos especiais – e mesmo pessoais, às vezes – para amar o time em cujos ombros pesa a terrível diferença entre a festa de todo o povo e a alegria miserável dos ressentidos.

 

Se eu amo mais meu clube? É claro que sim. Porque o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia, porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia. E é só. Agora, quando começa a Copa do Mundo, minha aldeia é o Brasil. Quando ela acaba, o Palmeiras minha pequena pátria.

 

A camisa da seleção brasileira é o maior símbolo nacional deste país – inspira, muitas vezes, mais ternura ou ira do que a própria bandeira, do que o próprio hino. A seleção brasileira de futebol – ah, como se houvesse outra – é o mais poderoso símbolo da unidade nacional – é ela, afora talvez as Forças Armadas, a única coisa capaz, no mundo, de fazer com que um pernambucano e um paulista se vejam a ambos como brasileiros. Se um estado assim de coisas é bom ou mau, não sei – como, aliás, podem tanto a seleção como as Forças Armadas serem ótimas ou péssimas: tanto faz. O que sei é que minha vida, sem o Brasil, não seria propriamente a minha vida, e não vejo como o compromisso com qualquer ideário possa ser levantado contra algo que confere ao meu país espírito para agir como país. Nenhuma razão é boa o suficiente para se ser canalha.

 

Se o futebol da seleção ou os convocados poderiam ser melhores? Ora, não me digam. Quase sempre é assim. Por outro lado, é simplesmente injusto dizer que o time que humilhou a Argentina quando era zebra e, depois, que a humilhou quando era favorito – só que lá dentro, na toca do leão –, que o time que pela primeira vez bateu o Uruguai, em partida oficial, no Estádio Nacional – e que o fez goleando –, que o time que ganhou tudo o que disputou com folga e força, e que nos deu momentos de prazer estético, sim, como nas pelejas citadas ou no amistoso contra a Itália, ou durante as eliminatórias, contra o Equador; que tal time é fraco, ruim ou que “jogue feio”. É muita vontade de “produzir” História, compreendem? Qualquer seleção de gols e jogadas bastará para mostrar que, se a equipe de Dunga não é composta exclusivamente por virtuoses, está muito menos longe disso do que de ser o que dizem dela. Não o fosse, não teria feito o que fez, ainda mais do modo como o fez. Tenham a santa paciência. Se fosse a Argentina que o tivesse feito, valha-me Deus, ia ser um tal de geme pra cá, ronrona pra lá que eu quase vomito só de imaginar – só de imaginar, hein?

 

Ah, mas a Copa do Mundo é isso e aquilo e aquele outro. Puro comércio, consumismo, que sujeira, quanta armação. E patati. E patatá. Sim, deve ser, e mais cinco minutos de papo e já estou dormindo.

 

A Copa do Mundo não é perfeita – talvez já tenha sido melhor sob muitos aspectos, certamente já foi pior sob outros. Mas mantém todo o caráter de celebração sem o qual a vida perde metade da graça. São trinta dias durante os quais o ritmo das coisas ordinárias se altera em nome de algo – literalmente – extraordinário.  Há toda uma série de elementos que agem para tornar a ocasião especial: horários e rotinas transtornados, aparência de muros, calçadas, de ruas e vilas inteiras enfeitadas; a programação da TV e do rádio; há revistas e guias e suplementos e livros e até um álbum de figurinhas – somente os desalmados não gostam de álbuns de figurinhas – e mais uma infinidade de outras coisas, boas ou não, tolas ou fantásticas, profundas ou banais – que sejam, porca miséria! – prontas para nos lembrar que a vida é, definitivamente, mais do que finge ser na maior parte do tempo.

 

Dia 11 está aí, e há o melhor do inverno para curtir. Estarei de férias e, a partir do dia 22, no gesso. Por isso, o Blog do Meu Saco encontrou a oportunidade de, se não ressuscitar de vez – vamos ver – ao menos dar-me o prazer de me divertir ao lado dos amigos, e de uma vez mais torcer pelos nossos numa das últimas – talvez última mesmo – ocasiões puramente cívicas deste país ingrato. Já estou colecionando as pérolas que merecerão nossa mais dedicada atenção, e garanto-lhes que não são poucas, nem tampouco pequenas.

 

Até lá.

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