O Caso Corinthians – Comecemos pela Globo

06/02/2012

Nunca pensei que fosse dizer algo nessa linha, mas acontece que o Corinthians está sendo convertido numa instituição chapa-branca – assim como o foi o Flamengo, no início dos anos 80, final dos 70, e sob os auspícios do mais carioca – e poderoso – de todos os departamentos de jornalismo esportivo em todos os tempos: o da Globo, no mesmo final dos anos 70, início dos 80. Sim, eu poderia falar do São Paulo – e vou falar. Mas, antes, creio que, ao menos para fins da discussão do fenômeno atual, o exemplo daquele Flamengo supercampeão será mais esclarecedor. Ao longo do texto, espero tornar explícito o porquê dessa suposição.

Vamos começar por uma brincadeira, um joguinho. Suponham que as seguintes perguntas, no próximo parágrafo, fossem formuladas nos seguintes termos e fundadas nas seguintes justificativas:

O Flamengo de então era mesmo o melhor time do Brasil? Ou ainda: suas conquistas foram o reflexo dessa eventual superioridade? Afinal, a equipe venceu tudo o que poderia vencer àquela época. E tinha Zico. Mas as vitórias foram, exclusivamente e todas elas, obtidas graças aos méritos esportivos do clube, ou a tão propalada influência da Globo – essa acusação era especialmente paulista, mas converse com qualquer gremista e entenderá o que digo – foi decisiva a ponto de macular a mais gloriosa fase do mais popular time do Brasil?

Deixem-me dizer o que penso:

Durante quase todo o período, sem dúvida, o Flamengo foi o melhor time do Brasil. Mais ainda: O Flamengo foi, na melhor parte daqueles anos, o melhor time do mundo. A imensa maioria de suas vitórias foi alcançada porque o Flamengo era superior aos seus adversários –  e isso numa Era de Gigantes. Muito bem. Por outro lado, dizer tudo isso não é encerrar o assunto. Por mais desagradável que seja, a verdade é que, além de tudo isso que se afirmou acima – e que é, como disse, o que penso – há uma série de fatos que, por serem fatos, ultrapassam em importância, com folga, tudo aquilo que pensei, penso ou vier a pensar. A ver.

  1. O episódio protagonizado por José Roberto Wright, no Serra Dourada, no jogo-desempate pela Libertadores contra o Atlético Mineiro é – para dizer algo sutil – simplesmente macabro. Não conheço, entre equipes grandes em partidas decisivas, registro de coisa sequer parecida – nem a final do Brasileiro de 95 chega perto. Que isso não incomode a nação flamenguista, creio que seja compreensível; jamais justificável. Que as reclamações atleticanas passem pela mídia como – por exemplo – “chororô” é algo simplesmente amoral;
  2. Diferentemente do que ocorreu ao longo dos anos dourados de outro grande carioca, o Botafogo, a influência exercida pelo sucesso flamenguista sobre as escolhas do selecionado nacional foi nefasta. A polarização entre o Rio e o resto do país – até hoje ignorada pelos fluminenses, aliás – chegou a tal ponto que Cláudio Coutinho, aterrorizado pela hipótese de escalar Wladimir, oriundo de clube paulista, produziu aberrações como Edinho na lateral-esquerda;
  3. A arbitragem da finalíssima disputada contra o Grêmio, no Olímpico, em 1982, foi facinorosa;
  4. A Taça Toyota, a não ser mui episodicamente, se tratou de grossa palhaçada. O Flamengo não tem nada a ver com isso e fez o que tinha que fazer, mas o Liverpool foi ao Japão tão preocupado em vencer – e não em fazer compras – que deixou três horas de fuso horário a acertar. Mal e mal treinou. O depoimento de Júnior, já nos anos 90, segundo o qual ele não trocaria tal conquista (dados os “terríveis sacrifícios” implicados nela) pela Copa do Mundo, além de asqueroso, só se compara em ridicularia ao esforço promovido pela Globo de então no sentido de que engolíssemos que “olha, é igual aos que o Santos ganhava”. Note-se que a imprensa esportiva paulista, na maioria dos casos, tratava a coisa nos mesmos termos em que o faço agora, mas resolveu mudar de opinião assim que um clube paulista venceu a mesma competição (é verdade que sob condições bastante diferentes das enfrentadas pela agremiação do Rio, ao menos na primeira ocasião em que o fez);
  5. A relação entre Globo e Flamengo era mesmo promíscua a dar com pau. Não fiquem chateados comigo. Deem uma olhadinha nas polêmicas da época, todas elas disponíveis nos melhores arquivos, e depois me rebatam sem ficarem vermelhos.

Muito bem, e vejam só: insisto. O Flamengo tinha mesmo o melhor time do mundo, capitaneado por um jogador que, em alguns momentos de sua carreira, foi o melhor jogador do mundo e, por tais razões, venceu o que venceu. Ponto, parabéns ao Flamengo. À parte disso, a questão que fica é simples:

Teria sido mais ou menos fácil fazer tudo aquilo – só que sem a Globo?

Não quero perder o tempo de ninguém. Ao ponto. Especialmente desde que o Corinthians associou-se a Ronaldo, foi adotado pela emissora. Um dos motivos pelos quais preferi falar do Flamengo dos anos 80 a discorrer sobre o que ocorre com o São Paulo (quando ocorre), é que as preferências da Globo, porque da Globo, implicam nacionalizar o problema – o que é mais difícil no caso do clube do Morumbi. Não estou falando dos interesses comerciais da emissora que, com justiça, recaem mais sobre o Corinthians – que dá mais audiência – do que sobre os outros. Que transmitam mais jogos do produto que vende mais, que ele tenha prioridade na grade quando isso não corresponder a qualquer absurdo. O que nos dá aquele desconforto nostálgico – e mesmo os corinthianos sabem o que é sentir isso, pois redimiram todo o Estado naqueles 4 a 1 de 84, a exemplo do que o Palmeiras (sempre chegando antes, ahá!) fizera em 79 – são episódios como o da semifinal do último paulista: um Casagrande constrangedor, por exemplo. Um Leifert, na segunda-feira seguinte, mais sapeca do que deveria. Cânticos legendados em meio a clássicos decisivos – e unilateralmente legendados. Análises acuadas sobre as arbitragens. Porque, pessoal: os penais que, aparentemente, sairiam de qualquer jeito – se é que vocês me entendem – doem menos do que comentaristas que os tomam por eventos da vida que corre. E tais comentaristas, sinto dizer, facilitam a vida de canalhas como Paulo César de Oliveira. Facilitam, mais ainda, a vida de grandes canalhas como o Coronel Marinho, ou de canalhas superlativos como Sérgio Corrêa.

Não, não caio naquela de chamar o Brasileiro de 2005 de “Zveitão”, nem acho o Mundial de 2000 menos valioso do que a Taça Toyota – e por milhões de motivos que não vêm ao caso. Não se trata disso. Mas é que há coisas que fazem parte do cenário sentimental da cidade. Da minha cidade. Dá nojo ver o que estão fazendo com algumas delas.

E ainda tem o Lance!, cujo caso é pior e, portanto, fica para outro post.

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One Response to “O Caso Corinthians – Comecemos pela Globo”

  1. Rafael Says:

    oloco, citou os ladrões mas não citou o simon?

    ahaha, belo txt

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