A fim de não causar constrangimento com a lembrança de antigas promessas não cumpridas, decidi retomar este Blog do Meu Saco sem dar a mais mínima satisfação a quem quer que seja, e foda-se. Melhor isso do que continuar parado. E, agora, terei mais tempo para tocar a coisa da forma correta. Adicionalmente, e por sugestão do amigo e mestre Nei Duclós, vou criar outro blog – o “Blog de André Falavigna”, ou coisa que o valha – que servirá como repositório das crônicas que escrevi ao longo dos últimos anos, muitas delas publicadas no Comunique-se ou no ótimo “Literário“, tocado pelo ainda mais ótimo Pedro Bondaczuk. Estou apenas acabando de revisar algumas coisinhas. Logicamente, vou incluir contos – como este, já bem velho – e novas crônicas lá. As regras aqui não mudaram, e continuam sendo estas. Andei organizando os links em categorias mais ou menos racionais, e agradecerei as contribuições que me reavivarem a memória. Já estão disponíveis alguns, abaixo, à direita. Há ali muita gente que não deve entender por que está ali, mas isso é assim porque nem todos me conhecem o suficiente para entender que, sob o aspecto pessoal, é realmente bastante difícil me fazer “ficar de mal”. Já não tenho mais saco para isso também, ora vejam só. Não concordo com tudo o que leio em cada um dos blogs que recomendo, mas e daí? Não sou de esquerda, não tenho problemas em conviver com a opinião dos outros. Nota: inclui apenas links de veículos ativos, e é por isso que “Sobre Porcos e Ratos”, por exemplo, não está lá. Assim que forem reativados, serão incluídos. Também não inclui links para blogs ou sites não relacionados, pelo menos indiretamente, a futebol – isso fica para o outro blog, citado acima. Dentro de vinte e quatro horas, publicarei o primeiro novo post propriamente dito. Já está pronto, que é para que eu não possa começar fazendo graça – de novo. Só não o publico agora para evitar confusão com o anúncio da volta – Deus, como se houvesse gente o suficiente interessada nisso a ponto de haver alguém disponível para se confundir. Não sei se teremos bolões, mas certamente teremos palpites pra tudo que é lado. O resto se vê depois. Até lá.

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Sim, eu sei, não há nada mais démodé do que amar a Copa do Mundo, a não ser, é claro, amar a seleção amarela. Os preconceitos levantados contra o escrete nacional são tão poderosos que, mesmo nesta época de louco ufanismo, a seleção brasileira continua servindo de saco de pancadas ideológico. Todos, menos a pobrezinha, podem se aproveitar da onda de triunfalismo compulsório.

 

São diversas as razões para essa situação aborrecida. As pintadas em cores mais berrantes são as mesmas que fazem de nossa cobertura futebolística a pior do mundo futebolístico: o despreparo dos profissionais que vivem de – ora vejam só – cobrir futebol. Vocês sabem: salvas as poucas exceções, aquela gente estúpida, ignorante e arrogante que aponta o dedo para a seleção dia e noite, dia após dia e noite após noite, sem jamais prestar contas do que diz nem mesmo diante do julgamento dos fatos.

 

Dado empírico: nas últimas 05 Copas, ou o Brasil fez a final ou foi eliminado por quem a fizesse; na maior parte das ocasiões, fez a final e, na maioria das vezes em que a fez, venceu-a. Ainda assim, há um milhão de desculpas para os achincalhes promovidos antes, durante e depois de cada uma dessas ocasiões – mesmo quando o depois nada mais era, ou ao menos deveria ser, do que o gozo da glória imensa de se ser campeão do mundo. Se tanta bile estragada não contribuísse para a imensa babaquice que é – sobretudo em São Paulo – o desamor pela canarinho, então nem mesmo no campo da estupidez restou qualquer contribuição do cultivo de tal atitude.

 

Ah, é porque você não sabe como são os jornais italianos, espanhóis, ingleses!

 

Sei sim: são histéricos. E, por isso mesmo, podem se desculpar depois de desmascarados, pela vida, como bocós – podem, afinal de contas, ser lidos com o devido desprendimento. As publicações estrangeiras são freqüentemente ciclotímicas, mas não posam de sabichonas. Os defeitos delas terminam sendo menos deletérios do que as supostas qualidades – isenção, objetividade, distanciamento – das nossas. No bojo, o que nos vendem há anos são parcialidade, subjetivismo e envolvimento pessoal revestidos por uma fina camada ou de pompa tecnicista, ou de irreverência de Shopping Center.

 

Mas não é só. Esqueçamos as evidências técnicas de que a atitude – como direi? – especializada em relação à seleção e à Copa tem sido despropositada, descolada da realidade.

 

Nós também temos sido maus com o futebol, com a Copa, com a nossa seleção. Temos pecado por esnobismo. Para tudo temos uma desculpa meio provinciana, meio metida a besta. De algum tempo para cá, já não bastam a camisa estrelada, o hino e a batalha sob o nome da Pátria: todos querem motivos especiais – e mesmo pessoais, às vezes – para amar o time em cujos ombros pesa a terrível diferença entre a festa de todo o povo e a alegria miserável dos ressentidos.

 

Se eu amo mais meu clube? É claro que sim. Porque o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia, porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia. E é só. Agora, quando começa a Copa do Mundo, minha aldeia é o Brasil. Quando ela acaba, o Palmeiras minha pequena pátria.

 

A camisa da seleção brasileira é o maior símbolo nacional deste país – inspira, muitas vezes, mais ternura ou ira do que a própria bandeira, do que o próprio hino. A seleção brasileira de futebol – ah, como se houvesse outra – é o mais poderoso símbolo da unidade nacional – é ela, afora talvez as Forças Armadas, a única coisa capaz, no mundo, de fazer com que um pernambucano e um paulista se vejam a ambos como brasileiros. Se um estado assim de coisas é bom ou mau, não sei – como, aliás, podem tanto a seleção como as Forças Armadas serem ótimas ou péssimas: tanto faz. O que sei é que minha vida, sem o Brasil, não seria propriamente a minha vida, e não vejo como o compromisso com qualquer ideário possa ser levantado contra algo que confere ao meu país espírito para agir como país. Nenhuma razão é boa o suficiente para se ser canalha.

 

Se o futebol da seleção ou os convocados poderiam ser melhores? Ora, não me digam. Quase sempre é assim. Por outro lado, é simplesmente injusto dizer que o time que humilhou a Argentina quando era zebra e, depois, que a humilhou quando era favorito – só que lá dentro, na toca do leão –, que o time que pela primeira vez bateu o Uruguai, em partida oficial, no Estádio Nacional – e que o fez goleando –, que o time que ganhou tudo o que disputou com folga e força, e que nos deu momentos de prazer estético, sim, como nas pelejas citadas ou no amistoso contra a Itália, ou durante as eliminatórias, contra o Equador; que tal time é fraco, ruim ou que “jogue feio”. É muita vontade de “produzir” História, compreendem? Qualquer seleção de gols e jogadas bastará para mostrar que, se a equipe de Dunga não é composta exclusivamente por virtuoses, está muito menos longe disso do que de ser o que dizem dela. Não o fosse, não teria feito o que fez, ainda mais do modo como o fez. Tenham a santa paciência. Se fosse a Argentina que o tivesse feito, valha-me Deus, ia ser um tal de geme pra cá, ronrona pra lá que eu quase vomito só de imaginar – só de imaginar, hein?

 

Ah, mas a Copa do Mundo é isso e aquilo e aquele outro. Puro comércio, consumismo, que sujeira, quanta armação. E patati. E patatá. Sim, deve ser, e mais cinco minutos de papo e já estou dormindo.

 

A Copa do Mundo não é perfeita – talvez já tenha sido melhor sob muitos aspectos, certamente já foi pior sob outros. Mas mantém todo o caráter de celebração sem o qual a vida perde metade da graça. São trinta dias durante os quais o ritmo das coisas ordinárias se altera em nome de algo – literalmente – extraordinário.  Há toda uma série de elementos que agem para tornar a ocasião especial: horários e rotinas transtornados, aparência de muros, calçadas, de ruas e vilas inteiras enfeitadas; a programação da TV e do rádio; há revistas e guias e suplementos e livros e até um álbum de figurinhas – somente os desalmados não gostam de álbuns de figurinhas – e mais uma infinidade de outras coisas, boas ou não, tolas ou fantásticas, profundas ou banais – que sejam, porca miséria! – prontas para nos lembrar que a vida é, definitivamente, mais do que finge ser na maior parte do tempo.

 

Dia 11 está aí, e há o melhor do inverno para curtir. Estarei de férias e, a partir do dia 22, no gesso. Por isso, o Blog do Meu Saco encontrou a oportunidade de, se não ressuscitar de vez – vamos ver – ao menos dar-me o prazer de me divertir ao lado dos amigos, e de uma vez mais torcer pelos nossos numa das últimas – talvez última mesmo – ocasiões puramente cívicas deste país ingrato. Já estou colecionando as pérolas que merecerão nossa mais dedicada atenção, e garanto-lhes que não são poucas, nem tampouco pequenas.

 

Até lá.

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Luto

22/07/2009

Caríssimos,

Hoje, faz um ano que passou uma das últimas figuras que emprestavam brilho, cultura e humanidade ao jornalismo esportivo brasileiro: passou Luis Fernando Bindi.

Este post era para anunciar a volta ao Literário, comentar as barbaridades de ontem, na ESPN Brasil – dessas de ressuscitar blog – e outras providências, como falar de Muricy no Palmeiras (ficou bom para todo o mundo?).

Fica para quinta. Hoje é luto.

Até lá.

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O Blog do Meu Saco está de volta, agora no WordPress. A mudança era necessária, e os motivos são tão do conhecimento geral, sobretudo daqueles que trabalham com blogues, que me dispenso de chateá-los com assunto assim batido.

As apresentações, por incrível que pareça (ao menos para mim), não são mais tão necessárias quanto seria de se esperar quando, com mais de um aniversário, o endereço antigo deste blog contava com algumas dezenas de posts comentados por meia dúzia de gatos pingados – para ser honesto, menos que isso.

Um pequeno empurrão do ora hibernante – jamais falecido, para mim ao menos – Observatório Verde foi o suficiente para tirar este Saco Cheio da escuridão e levá-lo, rude e determinado, à penumbra de onde nem o mais completo abandono forçado – jamais relaxo – pôde expulsá-lo até o momento.

E ainda houve o “Literário”, do Comunique-se, que rendeu – e ainda rende – repercussão no rádio. E os muitos sítios da Mídia Palestrina que se tornaram amigos próximos, como o Forza do Barneschi. Isso para não falar dos que já o eram, como o Forza do Ademir. E o Cruz de Savóia, esse ciclone alucinado gerado pelo meu irmão e que hoje atrai mais de 100.000 leitores por mês. E mesmo alguns outros blogs e sites alheios ao tema central do Meu Saco, como os de Emerson Gonçalves e Nei Duclós. E mais aqueles que eu, desgraçadamente, tenha esquecido agora, sem por isso deixar de estar em dívida também com eles.

Foi pouca coisa, mas foi algo. Acho que não vai ser difícil retomar de onde paramos, mas isso não faz menos necessário qualquer intróito. Miudinho que seja.

Portanto, àqueles poucos que já me conhecem e queiram refrescar a memória, àqueles inumeráveis que não fazem idéia de onde vieram parar, eis o lembrete: este é o Blog do Meu Saco. Ele está de volta. E, como não pretende confundir ninguém, passa aos avisos devidos:

1. O Blog do Meu Saco existe para espezinhar a imprensa futebolística de um modo geral e sua crônica escrita de um modo especial; é assim pois seu titular constatou a baixeza – técnica, estética, moral, espiritual – que dominou um setor que lhe é tão caro e que precisa e pode ser reparado; é assim não porque seu titular se julgue acima dos erros humanos – demasiadamente humanos, para citar um filósofo que este Saco prefere como escritor – e portador de uma missão elevada, mas porque se julga em condições de olhar, do alto deste montículo, o vale miserável de onde provém toda essa fedentina. E porque julga a tarefa de ajudar a emendar a cobertura do futebol, no Brasil, tão modesta quanto sua própria – e microscópica, aliás – estatura;

2. O Blog do Meu Saco é freqüentemente prolixo e detesta vagabundos, desatentos e congêneres, brilhantes o quanto lhes torne o verniz barato. Se você não pode com textos longos ou complexos e, pior ainda, mente para si mesmo dizendo que não precisa com eles poder, faça a mim e a si o favor de ir ao blog de Juca Kfouri, e passar bem;

3. O Blog do Meu Saco tem o indelicado hábito de submeter a argumentação alheia a um exame de validade formal prévio, anterior à discussão dos méritos, e, para isso, lança mão de recursos os mais divertidos;

4. Às vezes, o Blog do Meu Saco é boca suja, de tempos em tempos, cafajeste; em hipótese alguma cede à correição política, que despreza, mas não permite que por isso se aproveitem de seu espírito libertário para a incitação ao crime, ou para o exercício de racismo – machismo pode, porque não consigo me privar das delícias do feminismo – ou para qualquer outra boçalidade do gênero. Incluam, neste rol de proibições, as ofensas gratuitas – e portanto não meramente jocosas – à preferência clubística de quem quer que seja, seja ela qual for;

5. O Blog do Meu Saco não permite escarnecimento;

6. O Blog do Meu Saco não suporta e nem perdoa cagação de regra sem oferecimento de dados – o direito de opinar só existe em correspondência ao dever de estudar;

7. O Blog do Meu Saco, que não respeita o mais recente acordo ortográfico e que, quando o vê em versão física, material, cospe-lhe em cima, preza o idioma pátrio (ainda que compreenda e pratique toda sorte de liberdade literária e mesmo de estilo, desde que proposital – porque a liberdade ou é proposital, ou não é liberdade) e pede aos seus leitores que, por gentileza, quando surgir a oportunidade – e ela sempre surge – o corrijam com, no mínimo, o mesmo rigor com que ele sapateia sobre a cabeça de suas vítimas prediletas;

8. O Blog do Meu Saco apóia a Seleção Brasileira porque aquela camisa é a última bandeira deste país – no sentido de que é o último símbolo capaz de reunir sob si a Nação, ainda que só por um mês a cada quatro anos – não importam quais os homens que nelas estejam enfiados, e muitíssimo menos sob as ordens de quem;

9. O Blog do Meu Saco não desrespeita o passado e tem na mais baixa conta quem o desrespeite;

10. O Blog do Meu Saco leva tal nome em homenagem àquele órgão que, metaforicamente entendido, armazena nossos desgostos até o último limite, qual seja, até o dia em que já é irreprimível o desejo de – como direi? – livrarmos-nos deles, transmutando-os em algo de bom os bons, e de mau os covardes. A intenção é publicar sempre que possível, mas desta feita comprometo-me a publicar ao menos um post por semana, sempre às segundas-feiras, tirantes os períodos de férias.

O Blog do Meu Saco está de volta.

E não está nada contente.

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