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Ontem, assisti ao “Cartão Verde” todinho. Não foi a primeira vez, não será a última. Compreendo os atrativos do “Cartão”. E é sobretudo por conta deles que, em minha opinião, certas características do programa conferem-lhe qualquer coisa de psicopatológico. Pelo amor de Deus, não se ofendam por precipitação. Vou chegar aonde quero, e vocês verão que não é nada pessoal. Um pouco do histórico, antes.

A primeira versão, de 93, contava com Trajano, Flávio Prado, Juca Kfouri e Armando Nogueira. Já continha todos os elementos que fazem do programa de hoje um produto na linha das televisões fechadas; um produto destinado à gente – como direi? – de bem, não é mesmo? Funciona assim: as mesas-redondas tradicionais são pouco sérias, há nelas muito espaço para a caricatura, para o popularesco e – por que não dizer? – para a apelação. Vamos reunir aí meia dúzia de camaradas articulados, que gostem de futebol e que estejam habituados ao debate civilizado. O espectador inteligente não deve ser obrigado a aturar pessoas urrando incongruências, sem parar, umas nas orelhas das outras; temos mesmo obrigação de lhe oferecer alternativas saudáveis. Associemos tal idéia à outra idéia, a de que é possível produzir algo assim sem se perder a leveza, o desprendimento bem-humorado que não pode deixar de ser relacionado ao esporte. Sobretudo ao esporte que se transformou numa espécie de signo do espírito alegre, musical e jovial desse tipo de brasileiro tão Bossa Nova, mas tão Bossa Nova que pruridos mil tomam-lhe todo o corpo à mera menção da Caninha 51, tanto mais se interposta entre dois gols cometidos num pré-histórico campeonato estadual.

Nada contra a Bossa Nova, eu inclusive gosto de Bossa Nova – e detesto 51. O problema é que a premissa que inspira o “Cartão Verde” já andava, à época, meio mal colocada: há, sim, gente capaz de perceber muita idiossincrasia nos programas ditos tradicionais, e de se irritar com ela. Gente que, portanto, estaria disposta a assistir a debates mais ponderados, menos pontuados de material folclórico, menos poluídos por merchandising. Isso é uma coisa. Outra coisa é encarar tal público como mais “preparado”, seja lá o que isso possa querer dizer acerca de camaradas que se dispõem a assistir debates sobre a mais recente rodada do Campeonato Paulista, Gaúcho, Mineiro, Carioca ou do raio que o parta. É outra coisa porque empresta às figuras que atenderão tal público as qualidades que se atribuem a ele, o que é mais ou menos engraçado. Sejamos honestos: Flávio Prado, por exemplo, não é mais preparado para falar de futebol do que qualquer outro bacharel em direito aficionado em futebol e que goste mais de vê-lo hoje, na Gazeta, do que gostava de vê-lo na TV Cultura de 15 anos atrás. Assim, se hoje conta com a audiência deste nosso cidadão fictício, mas verossímil, não é porque tenha se tornado menos preparado – é porque havia outros cidadãos de igual preparo lhe davam pontinhos no IBOPE, ontem, por motivos que nada tinham a ver com o preparo que eles – ou Flávio Prado, ou Kfouri, ou Trajano – tiveram ou têm. Preparo é a vovozinha, entendem? Conformem-se: falar de futebol, bem o quanto seja, não é a coisa que peça mais preparo no mundo. Ouvir, muito menos. Numa área em que muitos sequer são capazes de oferecer o mínimo, pretender-se num estrato mais qualificado por conta de certo verniz barato é coisa de espertalhões. Não de gente “preparada”.

Há outros motivos para se sustentar um programa como o “Cartão Verde”, motivos esses que se revelam no simples fato, indiscutível, de que o programa serviu de matriz para todos – é, todos – os programas de debate futebolístico produzidos, posteriormente, paras as opções por assinatura. Aliás, metade da mesa original do “Cartão” está na ESPN, não é mesmo?

Em 93, o processo de tecnicização da cobertura futebolística já estava concluído, o discurso deslumbrado ante a estrutura material do futebol europeu, pronto, e o moralismo bom-mocista, antiga marca do jornalismo esportivo brasileiro, perfeitamente adaptado às necessidades da geração que se incumbiu de carregar todas essas bandeiras tidas por “modernizadoras” – rótulo que, no Brasil, equivale a uma espécie de ascensão deontológica intrinsecamente benéfica e necessariamente inevitável. Aquela velha ladainha de que o mundo anda para frente, e rápido, e de que isso é bom e inexorável.

Todas essas características estiveram atravessando o antigo “Cartão Verde”, o tempo todo. Mas, ali, havia muitos e muitos atenuantes que garantiam a palatabilidade da atração.

O primeiro era a presença de Armando Nogueira. Sim, acho a postura romântica de Armando um tanto quanto forçada, artificial. E, com freqüência, o jornalista cai no mais rasteiro pieguismo. Mas isso tudo é matéria de gosto. Armando Nogueira é de um tempo em que o jornalismo era uma atividade séria. Ele é profissional. Ninguém é louco para vir aqui e dizer que o homem escreva mal, por exemplo – ainda que o estilo não agrade a este ou a aquele, Nogueira desenvolveu um que é dele, inconfundível, fundamentado o suficiente na tradição literária do idioma para ser capaz de render momentos inesquecíveis aos leitores. Anacrônico que é, ainda exige de seus próprios raciocínios toda a legitimidade formal que se espera de quem pretenda dizer coisas logicamente válidas e, portanto, úteis ao debate – qualquer debate. Havia entre ele e seus pares de “Cartão” um verdadeiro abismo de, ora vejam só, preparo, aliás só disfarçado pelo elemento adicional de uma educação irrepreensível que, se tais pares não podiam compreender, porque dela não participavam, também não sabiam contornar, por questões de menoridade psicológica.

O segundo alento é que de um ambiente habitado por José Trajano não se podia – como hoje se pode menos ainda – obter nada muito parecido com a tão almejada ponderação e frieza técnica, o que terminava compensando a absurda homogeneidade de opiniões – tinta típica desses quadros pintados sobre as telas do “público diferenciado” – com algum agito que o desequilíbrio emocional (às vezes, aparentemente mental) sempre garante. Acontece nas piores famílias. Acontecia com o “Cartão”. Acontece no “Linha de Passe”. Nesse sentido, as personalidades de Kfouri ou Prado, conforme a época, também ofereceram qualquer coisa humana ao programa, já que ambos são muito bem-humorados até que, no caso do primeiro, se ameace discordar dele e, no do segundo, lhe pisem algum calo criado pelo atrito ou da vaidade intelectual, ou do gênio autoritário com os rumos que a vida toma. Ademais, o programa exibia bons melhores momentos, a cobertura completa dos principais jogos; as imagens sempre foram boas e os repórteres, acima da média. A direção era boa, as coisas se apresentavam em ordem, o cenário era bacana, leve. É, dava pra assistir. Juro.

Porque, o atual, não dá mais. O horário é bom, a idéia de apanhar a oportunidade no meio da semana foi excelente – acho até que, em quintas-feiras como a de hoje, caberia uma edição extra, mais enxuta. O cenário está – como se diz por aí, pelos campos da petulância corporativa – OK. As imagens continuam boas, mas o nível das coberturas específicas caiu bastante – a repórter dessa nova versão, uma moça que ontem cobriu a Portuguesa, é a cara e o cheiro da Gazeta, para se ter uma idéia de como a coisa soa razoável. Esse e outros pequenos defeitos seriam perfeitamente ignoráveis, inclusive porque há até qualidades – como o tratamento civilizado que se dá aos convidados – não fosse por um fator que incomoda o tempo inteiro e que, para mim, chega a inspirar alguma espécie de mal-estar premonitório, a dar-me a sensação do movimento subaquático dos terríveis pesadelos. Acompanhem-me.

O programa voltou a contar com membros fixos. São eles o apresentador Vladir Lemos, os jornalistas Vitor Birner e Xico Sá e o comentarista Sócrates, ex-jogador.

O primeiro é correto, mas exige-se quase nada dele: como todos concordam acerca de tudo que for o principal, deixando-se as discordâncias para os termos da melhor instrumentalização possível desta ou daquela opinião em relação àquelas idéias centrais, Lemos não medeia nada. Apenas toca a coisa estampando um sorriso vidrado no rosto.

Birner, bem, Birner não é coisa que se possa levar muito a sério, como jornalista. Como assessor da situação do São Paulo, talvez. Seu texto é ginasial. Birner utiliza as vírgulas como alguém que pretendesse temperar um prato com páprica e, por engano, espalhasse balinhas Tic-Tac sabor Tutti-Frutti por toda a panela para, depois, não perceber a diferença. Ambos, Lemos e Birner, ontem, sacaram e-mails de telespectadores que elogiam o programa pelo clima de botequim. Eu mesmo peço isso de mesas-redondas, mas desconfio que tais telespectadores freqüentem botequins mórmons, ou coisa parecida. Em toda a minha longa jornada por botecos de todos os matizes e níveis, jamais vi qualquer tipo deles capaz de abrigar conversas sobre futebol sem interpelações fora de hora, agastamentos, alguma elevação de voz e muita, muita divergência profunda, conceitual. Para piorar: outro componente, Sócrates, é um dos dois únicos partícipes em condições de freqüentar à vontade estabelecimentos desse gênero, mas por algum motivo está claro que o sujeito, a exemplo do que ocorre a inúmeros outros ex-atletas geniais, simplesmente não tem mais saco para futebol.

Para ser sincero: Sócrates, é nítido, mal sabe quem está jogando onde, quem é quem ou o que quer que seja a respeito do que quer que demande alguma atenção. Vai ao programa a passeio. Ainda que eu repute como supervalorizada suas capacidades intelectuais, ele as tem. E é nitidamente boa-praça. Mas sua contribuição se resume ao tom pastoso dos grandes bêbados de antanho, que seria perfeito num programa em que Vitor Birner não lhe perguntasse – por brincadeira ou não, não duvido de mais nada (pareceu-me sério, inclusive) – se ele esteve em campo quando Fabinho anotou um gol de mão em Santo André, na primeira metade dos anos 90. Afora a curiosidade psicanalítica oriunda do fato de Birner precisar ter ido tão longe para encontrar um gol anotado com a mão e vergonhosamente validado, o resultado desse tipo de companhia é que Sócrates vai de um assunto a outro sem concluir nenhuma idéia útil. Como também parece sempre feliz e sorridente, soma-se sua alegria alheada à atmosfera repleta de qualquer coisa à base de Ritalina e que faz o “Cartão Verde” parecer um colóquio dos Depressivos Anônimos, todos empenhados em contaminar a todos com aquela alegria laboratorial de rostos suados e sorrisos armados em aço.

Birner, por exemplo, não consegue emitir qualquer opinião sem sustentar um arco mecânico nos lábios, mostrar-nos os dentes e franzir o cenho em sinal de jovialidade achada no manual, página 54, capítulo 5, “De Como o Futebol Pode Ser um Assunto Super de Gente Boa, Mesmo se Você For Paulista”. Ontem, salvou o programa da grosseria suprema de não oferecer os pêsames à família de Bindi, mas nem nessa hora soube se livrar da máscara de hilaridade – sentimento que, certamente, não era o seu diante da morte do amigo e do pesar da família.

De que diabos Vladir acha tanta graça, que não pode dizer nada sem aquela risadinha limítrofe nos lábios? Eu não sei, mas depois que ele nos exibiu os seis gols de Fluminense e Vasco, no final do programa, e não se deu ao trabalho de identificar mais da metade dos autores deles, não vejo como encontrou tempo para exibir ares fabricados de final de tarde, o solzinho caindo no meio da tardinha regada a chopinho. Aliás, o tratamento dos jogos é mesmo superficial, o que é imperdoável.

Xico Sá? É, esse é engraçado. E inteligente. Mas está ali para fazer o papel de Cacá Rosset do Bem. Não tem o mínimo interesse em dizer nada sério, e sua presença revela certo traço monomaníaco da produção do programa: se era para ser “uma maneira diferente de interpretar o futebol”, seja lá que porcaria signifique tal slogan, se era para dar um tratamento sério à coisa, ainda que bem-humorado, por que precisamos de um Xico Sá de verdade ladeado por dois de mentira?

Isso tudo, mais aquela moça que me parece saída da mais profunda Mooca e que esteve ontem, no Canindé, fazendo as vezes de repórter, entrevistando as figuras mais marcianas que encontrou – algo assim muito empático, afinal – e entregando todos os sorrisos e toda a alegria previstos no prospecto, foi mais do que o suficiente para me infligir forte desconforto mental, espiritual e até mesmo físico.

Que eu devolvo agora, vomitando três vezes lá em cima. E, pensando bem, três aqui embaixo também, que é pra caprichar:

Meus caros, fica por isso. Restam-nos os canais fechados. Comecemos pelo SporTV e seu imenso cardápio de mesas-redondas. Até lá.

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Ora, vamos lá. Pretendia falar primeiro do Cartão Verde, mas não pude ver o programa nas duas últimas semanas – penso que preciso de mais alguns dias, para ser honesto. E os terei.

Por isso, resolvi alterar a ordem dos fatores. Mas não só por isso. Há outros motivos.

Eu sei que fui citado por Milton Neves numa manhã de domingo, e todos sabem que a citação foi elogiosa (foi o que me disseram, não ouvi). Também já fui a “Personalidade da Semana”, no “Agora” e no próprio site de Neves. E foi divertido. Gostei. Por isso, e por eu ser quase que um completo desconhecido, pode surgir a suspeita de que, agora, eu talvez me sinta como que obrigado a elogiar a mesa-redonda da Bandeirantes. O máximo que posso fazer, quanto a isso, é dizer que dou graças a Deus pelo fato de o Terceiro Tempo ser mesmo melhor do que as atrações da Gazeta e da RedeTV!. E, ainda, lembrar que já fiz minhas restrições à condição do programa quando respondi à própria entrevista de Neves, na qual afirmei que preferia seu programa aos outros, na TV, muito em razão de uma concorrência que, acho nítido, é bastante fraca.

Além do mais, essa é a mania mais irritante das ditas classes pensantes brasileiras: há todo esse esquema de filiação ideológica, cartorial, no qual as pessoas buscam se apoiar quando pretendem analisar a opinião dos outros. É como se ninguém fosse capaz de atinar com absolutamente nada antes de verificar a correção de determinadas posições ante o juízo de uma coletividade qualquer. Para que pensar por si se é possível, de antemão, verificar o que seria melhor pensar segundo a escola à qual professamos fidelidade? Ninguém está atrás de confusão, não é mesmo? O sintoma mais berrante desse – como direi? – esquema de raciocínio é a recorrência inevitável e quase permanente ao recurso erístico da argumentação ad hominen, de modo que é comum ver gente capaz de nos afirmar, nos tons mais peremptórios e professorais, que tal e qual proposição não pode ser válida porque formulada por este ou aquele camarada, mal visto neste ou naquele círculo por ser supostamente malvado, insensível, feio, chato e bobo. Sobre a proposição mesma, necas de pitibiribas. É dose. Não perco mais tempo com isso.

Portanto, não se preocupem. Qualquer coisa que eu diga a respeito do programa da Bandeirantes terá sido fruto das minhas observações acerca do programa da Bandeirantes e, por mais que minhas observações só possam ser construídas a partir das convicções que desenvolvi ao longo da vida, no final das contas só quem as pode construir sou eu, e não as pessoas que compartilham de minhas convicções acerca de tudo o mais e que, ora vejam só, podem muito bem tomar por bobagem tudo o que eu disser acerca de tudo o menos.

Bom, ao “Terceiro Tempo”. Já foi melhor, pois não? Quando estava na Record. Lá reinava aquele clima de balbúrdia e, coisa estranha, havia mais espaço para a turma “falar de futebol”, para a conversa correr solta. Na Band, diminuiu-se o espaço para se jogar conversa fora, que é quase tudo que se pode fazer de bom numa mesa-redonda. É evidente: há quem saiba fazer isso perfeitamente bem, como Beting, e há quem já o soube fazer melhor, como Paulo Morsa. O primeiro só evolui desde que surgiu, o outro parece estar de saco cheio – prefere passar a maior parte do tempo encenando o papel do anti-carioca, anti-frescura e anti-modernidade. O papel é divertido, desde que encenado na hora certa.

Sobre Beting: é um dos poucos cronistas, dentre os mais jovens, que se preocupou, lá atrás, em desenvolver um estilo. Escrevendo, já me tirou do sério, mas tenho de reconhecer que – porca miséria – encontrou mecanismos honestos de se comunicar e pelos quais se pode identificá-lo sem nenhuma dificuldade. A mesma melhora se nota, na mesma exata proporção, em suas aparições na televisão. Algumas marcas involuntariamente histriônicas que se notavam no início e que desviavam ou até distorciam nossa impressão de todo o resto estão, hoje, relevadas ao quinto plano, obnubiladas – e isso não se deve somente ao fato de termos nos acostumado com os cacoetes de Beting, mas sobretudo à evolução profissional do sujeito. No rádio, incorporou tão bem o espírito da coisa que parece que está ao lado de Neves há décadas – é muito, muito superior ao Flávio Prado dos anos 80, na mesma função. Pratica humor sem ranço, não se arrasta naquele pântano de moralismo senil tão usual e comenta o que vê de forma mais calma e mais ponderada do que quase todos os seus pares. Não sofre da síndrome do “matei o jogo em cinco minutos”, nem tampouco decide em dois tempos o que pensar (e, o principal, dizer) acerca das qualidades e defeitos dos profissionais cuja análise do trabalho é seu ganha pão.

Só que o “Terceiro Tempo” é programa televisivo e a televisão, digam o que disserem, é bastante menos rica, como meio de comunicação, do que o rádio. Na TV, muita coisa boa não se pode fazer, e muita coisa ruim não se pode esconder. A mesa da Bandeirantes tem dois sujeitos em grande forma, e só. No nosso caso, nem eles têm desempenhado como em outras ocasiões. Pelo contrário: andam sucumbindo. Até o cenário, coisa bizarra, atrapalha. Os participantes, muitas vezes, dão a impressão de serem colagens contrapostas a um fundo de videoclipe porco. Dos anos 80. Clip-Trip.

Na Record havia amplidão, cores vivas – as pessoas chegavam a caminhar pelo palco. A versão atual é visivelmente sufocante – e não sei até que ponto isso é problema de ordem material. A Bandeirantes comprou repasses dos direitos de transmissão de diversos campeonatos, pode gerar imagens; aliás, o faz com qualidade. Tudo isso custa muito mais do que cenários razoáveis. Mas não é só o que vai mal.

Há quem faça grande berreiro em torno do merchandising; acho bobagem. Penso que o problema é outro. Para não fugir da raia, abro parêntese; depois volto ao ponto central:

Sobre o merchandising: deve haver controle, limites? É óbvio que sim. Mas não adianta fantasiar: o jornalismo esportivo não cobre os grandes temas nacionais: a política, a economia, a segurança pública, a saúde. Jornalismo esportivo, ainda mais quando se fala em futebol, é coisa com a qual se divertir – futebol é brincadeira, é teatro. É negócio? É, como também é coisa séria, para gente grande. Mas arrancado de suas raízes lúdicas é mau negócio, não tenho dúvidas. Não é possível que se queira manter o mesmo padrão de exigência entre profissionais que cobrem economia e profissionais que cobrem uma brincadeira de criança levada às últimas conseqüências. Para recorrer à analogia: o Estadão desligou-se de Joelmir Beting porque este aceitou fazer propaganda do Bradesco. Ora, faz sentido. A credibilidade de Joelmir gira em torno da idéia de que ele possa falar mal do Bradesco a qualquer momento. Se ele faz propaganda, seria natural esperar que estivesse impedido de descer a lenha no patrão de ocasião, até por questões de bom tom, durante certo período. Até aí, ele faz a propaganda que bem entender – este país é livre, não é? – o Estadão o dispensa – tem todo o direito – e, mais tarde, Joelmir vai buscar outra colocação – ninguém o levará menos a sério por isso. Permanecesse no Estadão, e teríamos um nó difícil de desatar.

Por outro lado, Milton Neves não precisa falar bem ou mal da Brahma para tecer quaisquer observações sobre futebol; isso é claro. Que opinião sua poderia ser modificada, sei lá, a respeito de Givanildo de Oliveira caso não estivesse contratado pela cervejaria?

Se mantivesse a mesma relação com o Sondas, a coisa se complicaria: o Sondas investe em jogadores. Ora, mas ele faz merchan do Sondas! Sei, só que fazer merchan não é a mesma coisa que ser garoto-propaganda, ainda que seja o tipo de situação que precisa ser estudada. Com calma. Para mim, não parece confortável, ainda que as inserções do supermercado sejam padronizadas, desvinculadas do esporte – que façam parte daquele repertório indispensável ao universo da crônica futebolística, quase incorporado ao folclore nacional e cujo melhor exemplo se vê em Avalone e sua “Cantina Chique dos Jardins”, ou seus sapatos “DiPolini”. Avalone caiu? Ora, se tivesse usado “Argamassas Portocol”, não tinha caído. Silvério que o diga. OK, de volta ao Sondas.

Ninguém impediria os executivos da empresa de, no mínimo, solicitar ou, no máximo, pressionar por algum elogio ou defesa a este ou aquele atleta cujos direitos pertencessem à rede. Daí o incômodo, que existe e deverá ser tratado. Ainda que esteja muito distante da condenação resoluta, típica de gente que confunde ética com guilhotina por conferir àquilo que é ideal o caráter mui mundano das ferramentas que melhor ornem com as próprias almazinhas sapecas, reconheço a existência da questão.

Há maneiras de contornar essa possibilidade? Não sei. Quem critica sem refletir, fundado em motivos pessoais, também não sabe, não quer saber e sente muita dor ao pensar a respeito – aliás, sente muita dor ao pensar em qualquer coisa, além de nos provocar dores piores ainda quando tenta se fazer entender. A coisa é complexa o suficiente para não permitir esses juízos de valor contundentes, puríssimos, impolutos. As respostas passam por conversar com gente série, capacitada e que viva em seu mundo situações comparáveis a esta. Talvez se as encontre no mercado corporativo, na administração pública; talvez se as encontre no exemplo de outros países. Na experiência.

Na inveja e no ódio irracional é que não vai ser. E nem aqui, neste Blog, porque tenho mais o que fazer. Fecho parêntese. Voltemos ao que interessa.

O problema com o “Terceiro Tempo” é que a coisa anda apoiada somente nas capacidades de entretenimento de Neves. No rádio, ele consegue segurar o ritmo por um dia e uma noite, sem descanso e sem susto – e tratando de material sério com muita qualidade. Na televisão, está tendo que abusar da criação de polêmicas, de suspense, de tensão. No rádio Neves pode, como inclusive pôde (em menor grau, por conta do tempo, é óbvio) em muitos momentos na Record, intercalar esses recursos com bom conteúdo e mesmo transmitir tal conteúdo bom a eles; na atração que está indo ao ar, não tem encontrado o tom. Se a bola vai até Beting, ainda rola. Se pára em Godoy, é o velho caso da cabeça de juiz e do bumbum de neném: dali, ninguém sabe o que vem.

Godoy é muito engraçado, às vezes parece boa gente – os jogadores do seu tempo de apito o tinham (e têm) na mais alta conta, para se ver como deve ser honesto – e disso ninguém jamais pôde sequer duvidar. E era belíssimo árbitro. Pena que sua carreira vá se embotando, em perspectiva, pela condescendência confusa, cheia de remorso com que ele, hoje como comentarista, trata seus pares da ativa. Pior: quando se depende de Godoy para mais do que rompantes pontuais, tudo fica muito chato, monotônico. Tanto o ex-árbitro como Morsa não vão funcionar num conjunto que não esteja afinadíssimo, inclusive com o contexto. Os dois estão encolhidos às caricaturas que se fez deles, e que não correspondem ao que já ofereceram ao público. Se não eram nada fora do normal, ao menos colaboravam no todo. São jogadores para compor elenco, por assim dizer.

Osmar de Oliveira? Talvez ajudasse. Mas tenho o pressentimento de que, no lugar do comentarista clássico, do debatedor atinado e do corintianismo à moda antiga, fôssemos topar apenas com mais um polemista de ocasião, esbugalhando os olhos de Sampacu-Açu, contrastando temível com aquele cenário digno de Zé do Caixão com o qual serviram MN. Porque o problema está menos na fórmula do que na proposta da coisa, mal trabalhada, ansiosa – meio histérica, até.

De tudo isso resulta que o novo “Terceiro Tempo” ainda está bastante desequilibrado e tem muito a melhorar. Por isso aqueles berreiros todos que, como disse um leitor deste blog, nos impedem de ouvir os convidados (na maioria das vezes, melhores do que os da concorrência). Por isso que a sessão de lances polêmicos é tão aborrecida como a dos rivais do gênero. Por isso que o programa leva aquela carinha de muxoxo ali em cima, para dar conta de certa decepção.

Dá para melhorar. Só que vai ter que ser rápido.

Continuando a série dedicada a infernizar nossos programas de debate futebolístico, vamos agora abordar aquele que é o próprio sobrevivente jurássico da categoria; o mais tradicional do gênero, o parâmetro mesmo pelo qual nossa memória afetiva mede a concorrência (ao menos quando falamos da cada vez mais pré-histórica televisão aberta). Que dinossauro seria esse, interrogação? Ora, vocês sabem, e sabem também o porquê da sensação de estranheza que nos acomete quando, domingo após domingo, vai ao ar o “Mesa-Redonda Futebol Debate”. Alguma coisa está fora da ordem. Isso se sente, quase se pode tocar em pleno no ar.

“Mesa-Redonda Esportiva”, “Onze na Copa”, “Mesa-Redonda Futebol é com Onze” – esses são os ancestrais do programa que, a partir de 1985 e com o nome de “Mesa-Redonda Futebol Debate” foi comandado por Roberto Avallone, torcedor fanático do… bem, todos se lembram: Sociedade Esportiva Jornalismo! Ou seria Jornalismo Futebol Clube? Ora, dá no mesmo. Adelante.

Uma das coisas que mais me impressiona, na relação entre imprensa e Palmeiras, é o tratamento dado ao fato de Roberto Avallone ser palmeirense declarado. Nem Chico Lang é alvo de tanta chacota por ser corintiano e, em seu caso, só o que se oferece ao mundo é isso mesmo: corintianismo folclórico, palhaçada, laivos de fúria bonachona. A equiparação entre ambos é injustiça flagrante.

Para começar, Avallone é palmeirense, mas vivia auto-reprimido mediante os mais esquisitos mecanismos compensadores. Foi contra a parceria entre Palmeiras e Parmalat, dizia-a uma fria: em 1992, escreveu que a “grana era curta”. Em 2002, disse que França e Cacá formavam a melhor dupla de ataque desde Pelé e Coutinho, baseando-se em pelejas decisivas contra Bangu e Cia. LTDA – como lembrete, vale dizer que Edmundo e Evair conquistaram, em dupla, três brasileiros por dois clubes diferentes, dentre os quais o Palmeiras de Avallone. Só de ouvir alguém citar as glórias são-paulinas da equipe conhecida por “Menudos”, seus olhos até hoje marejam. Careca, para Avallone, foi o mais completo centro-avante brasileiro em todos os tempos. Em fins de 97, o homem fez executar o hino do Corinthians dentro do estúdio, isso enquanto clamava pela contratação, por parte do alvinegro, de ninguém menos do que Vanderlei Luxemburgo. Mal ao Corinthians, não pode ser que estivesse desejando, não é mesmo? Avallone, graças ao açodamento que lhe é característico, mas jamais exclusivo, cansou de prognosticar derrotas do Palmeiras mesmo com a equipe em nítidas condições de competitividade. A torcida do Palmeiras, em mais de uma ocasião, quis ver o jornalista empalado em praça pública. Certa feita, o clube o proibiu de por os pés lá dentro.

Isso tudo são fatos.

Pois muito bem: imaginem tais fatos, só que com o sinal invertido, ou seja: protagonizados por Chico Lang. Não funciona, pois não? Chico vive de prever goleadas insólitas e homéricas para o Corinthians que, aliás, jamais é derrotado senão graças a estupros promovidos pela arbitragem; de dizer que os títulos recentes do Palmeiras são todos comprados – no que, diga-se, já ultrapassou os limites da gracinha inofensiva, e muito, há muito tempo – pela Parmalat, que Marcelinho Carioca foi superior a, sei lá, Pelé, por exemplo, e daí por diante e para baixo e avante. Bom, só que não adianta nada notar que não estou mais do que listando constatações verificáveis. A despeito delas, nossa imprensa trata o assunto como se Avallone fosse o “Lang” do Palmeiras, o que é absurdo. Ou mais, afinal somente Avallone conta com imitadores, apenas ele virou motivo recorrente e indefectível de piada por sua suposta parcialidade (como se ela se dirigisse somente em favor do Palmeiras, e nunca se prestasse a, à là PVC, desculpar-se pelo time de coração, ou como se – pior ainda – todos os seus coleguinhas fossem monges isentos, serenos e ponderados).

E, finalmente: Avallone sempre escreveu bastante bem, ao passo que Lang… bem, Lang faz jus a todos os preconceitos com os quais se costuma cutucar a torcida de seu time.

E, no entanto… A loucura pontual de Avallone custou-lhe a carreira, enquanto o histrionismo convicto de Lang o mantém sob os holofotes. Não concordo com metade do que diz Avallone, mas o fato de atirarem-no para escanteio por conta de, principalmente, seu palestrismo – como direi? – vivaz é uma vergonha, sobretudo quando examinamos o caso à luz das contrafações do jornalista em outras torcidas: Lang é intencionalmente ridículo, vive disso, há até demanda para esse tipo de ação, mas o que dizer de gente como Birner, para ficar na Web? Comparem-no com aquele que seria o palmeirense fanático e irascível Roberto Avallone. O hoje comentarista da Rádio Capital, patético o quanto tenha sido (ocasionalmente, aliás) jamais se prestou ao papel de assessor de imprensa extraordinário não de um clube, e sim de determinada facção política dele. Por que, então, merece tratamento irônico, enquanto gente muito menos qualificada é tida como “aposta” duma espécie de “jornalismo progressista”?

Por conta do tom asséptico que faz a fama de produções aborrecidíssimas como a do “Cartão Verde”?

Ora, façam-me o favor. Já disse milhões de vezes, e dá gosto repetir: o tom melífluo dessa cambada é só isso mesmo – um tom, item de composição meramente formal destinado a atender aos requisitos mais acessórios do discurso, quais sejam: os estéticos – no presente caso, por sinal, de péssimo gosto. O conteúdo, que é o que deveria contar, ali é cunca. E, com mil demônios: se revela na forma, que só provoca menos sono do que irritação. O camarada precisa estar muito sedado para se deixar seduzir por aquele desfile de pedantismo engajado. Paro por aqui porque o Cartão Verde, não vou esquecer, é assunto para outro post.

Enfim: sem Avallone, o programa está descaracterizado, sem alma. O que é grave, porque tirantes os compactos, de longe os mais completos no que diz respeito ao público de São Paulo (a não ser pelas narrações sofríveis, tanto de Solera, o Sonso, como de Celso Cardoso, o Janota, e pelo ângulo e qualidade de imagem que a miséria material lhes impõem), de aproveitável sobram apenas as reportagens de Gurian (para mim, um dos melhores do ramo) e de Osmar Garrafa, também competente (por mais que, exteriormente, corresponda de cabo a rabo, da voz ao apelido, à atmosfera kitschy do “Mesa”). Os debates não são menos insólitos dos que os do “Bola na Rede”, com a ressalva de que ninguém ali é, como Vanucci, capaz de perguntar a Ronaldo se ele chegou a jogar com Carbone, astro da campanha campeã paulista de… 1953. É, Vanucci fez isso domingo passado, além de insistir que o avante da Portuguesa chamava-se “Diego”. No “Mesa”, pelo menos, é todo mundo do meio.

A pena é que, nos anos 90, o “Mesa” contava com gente como Alberto Helena Jr, enquanto hoje… e é por ausências assim que a gente nota: o programa está em franca decadência.

Pensem nos componentes da mesa, um a um. Solera serve apenas para dizer vacuidades e fazer-se de bom velhinho, enquanto os outros sapateiam gostosamente sobre sua cabeça fresca. Não diz nada que o melhor da segunda série, primeiro da primeira fileira, não seja capaz de dizer com mais clareza. Quando se põe a narrar, assusta-se até com os gols. É uma piada. Não tem fontes. Não tem texto. Não tem opinião. E desconfio que já tenha nos enchido demais a paciência fingindo que apenas finge que é boboca.

Dalmo Pessoa, outro que dizem ser palmeirense. Vejam que coisa linda: em 94, em sua coluna de “A Gazeta Esportiva”, Dalmo escreveu que o árbitro da segunda partida que decidiu o Brasileiro daquele ano, entre Palmeiras e Corinthians, parecia ter atuado com “um ponto de ouvido” para atender às ordens da… Parmalat! Fico pensando no que pode consistir esse tipo de observação. Não se tratou de isenção, claro, até porque a arbitragem não foi nem melhor, nem pior do que aquelas às quais nos acostumamos. Jornalismo, convenhamos, também não foi. Tratou-se de depredação pura e simples, que é o que o jornalista gosta de fazer.

Dalmo gosta ainda de berrar e balançar as perninhas, de ficar vermelho e de dar lições de moral. Como é articulado e, parece-me, bacharel em direito, sustenta alguma autoridade relativa a assuntos jurídicos. Mas o faz com uma pobreza de espírito invulgar (aquele deslumbramento pelo som do jargão, pela otoridade, sabem como é?), mais contida desde que Flávio Prado, também formado em direito, assumiu a mesa. “Raposa Felpuda” é coisa que jamais apareceu: Dalmo, a exemplo de Calil, passa a impressão de que quando tem vontade de dizer qualquer coisa, recorre às fontes das mais diversas naturezas. Inclusive, quando julga necessário, às imaginárias. Nisso, perde até de Lang que, a respeito do Corinthians, freqüentemente presta serviço jornalístico, traz furos, consegue exclusivas. Para piorar: Pessoa anda com dificuldades cognitivas. Por exemplo: após a rocambolesca explicação de PC Oliveira acerca do gol manchete de Adriano, o sagaz polemista insistiu por várias vezes na idéia de que, se o toque de mão influíra no resultado do lance, dever-se-ia tomar a coisa por intencional. Alertado para o fato de que essa ordem de elemento subjetivo não poderia estar relacionada ao resultado objetivo num liame de causa e efeito, coisa que se depreende da elevada taxa de boas intenções com que se lota o inferno, Dalmo ainda encontrou tempo de reiterar a tese, desta feita com os ares mais sonsos – equívoco que, de mais a mais, só fez reforçar a credibilidade da inacreditável desculpa de Oliveira. O fato é que se esqueceram de enterrar o homem, e ponto.

Bom, há Flávio Prado. E Wanderley Nogueira. Vamos lá, esses vão dar trabalho.

Quanto a Flávio Prado, preciso de um intróito.

Sejamos honestos: ele se vira bem no que diz respeito à condução do programa; não gagueja, tem boa memória, contém as extrapolações desinteressantes, estimula o pega-pra-capar que se espera desse tipo de atração. Impõe-se, enfim. Não nos constrange com aqueles acessos de dislexia que fazem a Honra e a Glória do “Bola na Rede”. Muito bem. Eu poderia dizer que, no mais, discordo de quase tudo o que ele acha acerca de futebol – ainda que isso tudo sejam só opiniões.

Flávio se encanta com a idéia de futebol “moderno”, baseado em marcação forte e contra-ataque. Gosto muito dessas coisas todas no meu time, mas não lhes empresto a mesma importância. Que importa? As diferenças podem ser resumidas pelo fato de que seu time ideal é o Palmeiras de 96, e o meu o de 94. Esse é o próprio assunto que sequer viria ao caso, mas penso que seria desonesto dizer o que vou dizer adiante sem reconhecer que, de fato, Flávio Prado gosta de futebol – apenas faz dele uma idéia diferente da minha – e é um comentarista perfeitamente apto.

O ponto é outro. Em primeiro lugar, Avallone ornava melhor com a atmosfera trash do programa. Além disso, como jornalista, era mais completo – Prado escreve mal demais para alguém formado em direito e, às vezes, é antipático demais para o papel de chefe. Características que, é verdade, não depõem contra o caráter de ninguém. Porém, é impossível deixar de notar todo aquele moralismo exacerbado que, mesmo em pessoas como eu, muitíssimo mais conservadoras do que a maior parte dos meus amigos ou mesmo conhecidos (se confrontarem minhas posições políticas com as do pessoal do OV não dou cinco minutos para a formação de um Tsunami), assume certo colorido um tanto quanto perigoso. Sua briga com as Organizadas já está descalibrada há anos: conheço dezenas de torcedores que são membros das uniformizadas (não sou sequer próximo a elas), alguns dos mais ativos. São sujeitos muito menos dados ao banditismo do que muitos dos policiais militares que me revistaram até hoje. Conheci o Izidoro, conheço o Barneschi, freqüentei muito o PA Bar quando este ainda era próximo ao Cambuci. A maior parte daquelas pessoas tem emprego, trabalha, tem família, não deve porcaria nenhuma a ninguém. Quanto mais à imprensa.

Ora, eu sei. Há certa parte dessas torcidas, e isso serve para todos os times, composta por arruaceiros profissionais. Problema igualzinho ao que atormenta a Polícia Militar, para dar o primeiro exemplo que me vem à cabeça. A Instituição, é claro, deve responder pelos erros que se cometem sob sua bandeira. Só que há muitos modos de se minimizar as possibilidades de dano, e nenhum deles passa por urrar diante das câmeras acusações contra cidadãos que sequer se conhece, xingando todos de bandidos, malfeitores e comedores de criancinha. Sobretudo quando a imensa maioria deles não é capaz de roubar um pirulito. Aliás, o único resultado que se pode obter desse tipo de atribuição leviana é incorrer em crime.

Não importa o quanto Flávio Prado estrile: ninguém que já apanhou da polícia a troco de nada vai acreditar que apanhar da polícia é prova de delinqüência. O raciocínio segundo o qual se o sujeito está apanhando da polícia, é porque alguma coisa fez, é boçal de ponta a ponta. Que morram 20, 30, 50, 100 pessoas nos estádios. A tragédia continuaria sendo fruto de dois fatores associados que precisam ser enfrentados com a cabeça, e não com chiliques. Observem que:

a) Há por aí, em liberdade, meia centena de bandidos loucos por liberar imenso potencial destrutivo, atividade que, aliás, não reservam somente para as praças de esporte, e aos quais se permite que;

b) Se aproveitem de uma conjuntura incontornável, que é a presença de muitas pessoas em eventos destinados a muitas pessoas, e sobretudo do despreparo (quando não de coisa pior) das Polícias Civil e Militar, infestadas também de sociopatas não menos descontrolados. Sim, já os vi, e aos montes. Flávio Prado também já deve ter lidado com coisa parecida, não é não?

Fica a impressão de que Prado faz suas opções a esmo, por preguiça, comodismo, e que deve ter se sentido provocado por qualquer episódio mais intenso para, agora, levar as coisas rumo ao lado pessoal. Não é lá a atitude mais profissional do mundo, e tanto pior fica quanto mais se nota que provinda de um sujeito que vive sugerindo aos clubes que “chutem o traseiro” deste ou daquele jogador pego em ato de indisciplina – quase uma monomania do jornalista. Ademais, como já se disse aqui, é a clássica postura que costuma ensejar grandes possibilidades de escorregadelas cujos resultados não podem ser outros que não a calúnia, a injúria, a difamação – todos tipos penais, que coisa chata.

Há, ainda, Wanderley Nogueira. Acreditem-me, já foi divertido. Boa voz, senso de oportunidade, inteligência, tudo ele tem e tudo utilizava naquela mesa-redonda do início dos anos 90 que comandou na Jovem Pan UHF, canal 16, com Roberto Petri torrando-lhe deliciosamente as bolas. No rádio, é rápido, preciso, sabe enriquecer o evento. Tudo isso é bom. Pena que Nogueira é outro que optou, há tempos, pelas funções professorais da alta moralidade vigente. Fiquemos neste exemplo: quer dizer que o Palmeiras deveria pedir desculpas ao São Paulo pelo episódio do gás, não é mesmo? Ahã. Temos visto.

Mas que bela roba, esse Wanderley.

Mais uma nota: assumisse logo que é são-paulino, e muito menos gente encontraria motivos para acusá-lo, com ou sem motivo, de ser são-paulino e de ser tendencioso. Mesmo porque, como mostra o exemplo de Avallone, esses fanatismos só o são conforme o time que o camarada assuma, não é verdade?

Para terminar: tem muito merchan no “Mesa”? É, passa da conta. Nem sempre ocupou tanto tempo do programa, e nem sempre se tinha que o interromper tantas vezes para se vender badulaques. Deve haver um modo de contornar isso, afinal.

Por todos esses motivos, o “Mesa-Redonda Futebol Debate” leva apenas duas carinhas vomitantes (quanto menos, melhor). Houve tempo em que não levaria nenhuma, houve tempo em que poderíamos pensar em enfiar ali uma, duas ou três estrelinhas, aquelas destinadas às avaliações de “péssimo”, “ruim” ou “regular”. Quem sabe, até coisa melhor. Quem sabe eu esteja sendo muito chato com tanta gente que já me divertiu tanto em outras épocas.

Mas que já vão longe, meu Deus.

A avaliação do “Bola na Rede” está aí em cima: três carinhas vomitantes. Acreditem-me: estará na média, quando tudo tiver acabado.

A principal atração do programa, hoje, é a tensão entre dois “maluquetes” – Vanucci e Kajuru – e não é porque um deles tenha saído da Globo que se deva levar o outro em conta mais alta.

Eu sei, fica mal falar do programa porque é lá que está Jorge Kajuru. Quem o conhece pessoalmente gosta dele, e mesmo o público, um dia, já lhe quis bem. Acontece que o homem é um celerado. Já o vi acusando de covarde um pugilista pelo fato do sujeito entregar-se ao pugilato puro e simples. Já o vi brandindo papéis cujo conteúdo, interesse ou autenticidade nem sequer ele próprio poderia ter verificado – a coisa acabara de lhe chegar por fax – somente porque a eleição de Eurico Miranda lhe soava tal qual deverão soar as trombetas do Apocalipse. Não duvido que tenha feito tudo na melhor das intenções – não é possível que tanta gente se equivoque tanto quanto ao bom coração de Kajuru. Mas o caso é que, a despeito do talento de comunicador, inegável, não se podem levar a sério três quartos do que ele diz: pode ser que esteja sendo feito de bobo, pode ser que esteja delirando, pode ser que esteja se precipitando, pode ser que esteja sendo manipulado; tudo com Kajuru é acompanhado de tantos “pode ser” que a gente fica com medo de aproveitar seja lá o que for. Afora isso, Kajuru ainda tem o mau hábito de perder as estribeiras de cinco em cinco minutos (parece aproveitar-se, às vezes, da fama de bom maluco) e, nos poucos momentos que se dedica a falar de futebol, limita-se a ou ir na onda do vozerio, ou a ceder a impulsos sentimentais. Ou repete o que todo mundo está dizendo, ou discorda de todo mundo pela antipatia ou simpatia que nutre por este ou aquele elemento. Para piorar tudo, esses sentimentos muitas vezes são fundados nos motivos mais superficiais, e Kajuru os exterioriza de modo lamentavelmente infantil. Em suma, não sei quanto a vocês: de minha parte, não tenho mais saco.

Quanto a Vanucci, bem… não é mais ou menos espantoso vê-lo conduzindo seja lá o que se pense? Sobretudo em se tratando de futebol, atividade que, segundo o próprio apresentador, jamais mereceu mais do que um “Eta esportezinho chato, hein?” (pois é, eu me lembro).

Vanucci, no apogeu, jamais passou de uma espécie de animador de estúdio. Ninguém quer saber o que ele pensa a respeito de porcaria nenhuma. Nem ele, que jamais se preocupou em articular o que quer que fosse acerca do que quer que seja. Sua presença à frente da mesa é uma dessas coisas que deveriam ser entregues aos cuidados da NASA. Não é coisa séria. Ele engrola tudo, tartamudeia, confunde nomes, treme o lábio de baixo, entrega-se pastosamente às mais variadas formas de desatenção, falta de sintonia, desconhecimento do assunto. Vanucci não gosta de futebol, não entende de futebol, não tem a mais mínima autoridade para comandar sequer um pega-pega e não sabe apresentar nem mesmo a própria e triste figura. Agora, me digam como um troço equipado com aquele tipo pode ser, repito, levado a sério. Não pode. Todo o valor do “Bola na Rede” reside no humor involuntário que se produz ali.

E que não é pouco. Há Ronaldo, que foi excepcional goleiro. E que nunca perdeu qualquer jogo sem ter sido lesado pela arbitragem, coisa que se depreende da totalidade de suas declarações, no passado, a programas como esse do qual ele, hoje, faz parte, e no qual desanca quem quer que atribua derrotas, com ou sem razão, a equívocos dos árbitros. Ronaldo parece ser um cara legal, mas é tão capaz de analisar a realidade e suas tramas que acusou Flávio Prado, no ar, de receber para falar bem do São Paulo. Uma demonstração de inteligência somente à altura da sensibilidade que revelou ao aplaudir sua zaga em 94, após os gols do Santos que alijaram o Corinthians da disputa do título paulista daquele ano. Os episódios têm entre si algo de comum e algo de diverso. A diferença é que a zaga do Corinthians era ruim mesmo e que isso se poderia provar com facilidade, ao passo que Flávio Prado, parcial o quanto fosse, não era (e nem é) a pessoa certa para se acusar sem provas. E a semelhança está no fato de que, em ambas as ocasiões, Ronaldo deveria ter se recolhido ao silêncio verbal e – com mil diabos – gestual também. Em todo o caso, não é por sua culpa que o “Bola na Rede” ganha ares de manicômio.

Isso só acontece quando José “À Flor da Pele” Calil balança seus desconexos Olhos de Sampacu Selvagem enquanto desfila incongruências naquele tom indignado que ninguém explica – alguém pode me dizer, por tudo quanto é sagrado, com o que ou quem Calil está bravo, em tempo integral, há coisa de cinco anos? A impressão que se tem é que lhe quebram o penico dia sim, dia também. Calil não consegue fundamentar uma única afirmação, e só o que faz é afirmar, afirmar e afirmar, intercalando o palavrório assertivo com mais afirmações altamente afirmativas. Entrementes, para variar, o célebre polemista introduz qualquer dúvida, nonsense e retórica, destinada ao papel de afirmação profunda elidida por forças ocultas entre as afirmações mais aparentes e insinuantes. Calil nunca diz algo útil: por que o faria, se pode perder nosso tempo vociferando? O camarada não sabe comunicar nada sem certa gravidade histriônica, e deve ser o jornalista esportivo brasileiro com menos compromisso com as próprias palavras – vende times inteiros, contrata jogadores a granel, descobre escândalos semanalmente, tudo isso fiado na própria imaginação. Com débito automático na conta do suposto esquecimento alheio.

O mais chato é a impressão de que se a gente bater o pé ele vai sair correndo e chamar a mãe. E que, Deus meu, ela virá em sua defesa.

Compactos, melhores momentos? Bom, há alguma coisa. O tratamento é que é ruim, precário. Isso é o de menos. Algo do demais: no “Bola na Rede”, o quadro dos “lances polêmicos” (praga do gênero, diga-se de passagem) assume contornos psicóticos. Aparentemente, porque o acesso às imagens, nos monitores disponíveis no estúdio, deixa a desejar. Além do mais, a transmissão utilizada não pode ser de melhor qualidade do que a que chega à nossa casa, e que é sofrível. Associe-se essa deficiência material à disposição para a insanidade que há ali e pronto: o quadro, pronto e acabado, é qualquer nota de Salvador Dali, bêbado.

E atirado à miséria.