Esse assunto é delicado, mas não deveria ser. Para falar a verdade, não é sequer assunto. Prova-se tal afirmação com muita facilidade (se bem que não em pouco tempo, como se notará pela extensão deste post, mais de 18 mil palavras), recorrendo-se às alegorias menos complexas, mais diretas e de forma alguma exigentes. Experimentem. Façam o teste do ET.

Lembrem-se dos ETs. De qualquer ET. Se os oferecidos no largo catálogo da ficção científica não lhes parecerem bons o suficiente, não se acanhem. Inventem um. Qualquer um.

Se qualquer alienígena – com a exceção talvez de Alf, que era teimoso – descesse hoje ao nosso estimado planeta e, na ausência de outro propósito mais relevante, decidisse analisar o campeonato brasileiro de futebol, verificaria que ele começou a ser disputado em 1959 com o nome de Taça Brasil. Que foi remodelado mediante a ampliação do Roberto Gomes Pedrosa (no popular, Rio-São Paulo), de que herdou o nome em 67. Que naquele 67, primeiro ano do então novo nome, hoje velho, foi disputado duas vezes – como o carioca de 79 ou todos os argentinos entre 67 a 85, para lembrar de dois casos muito parecidos –, com dois nomes diferentes – primeiro sob o então velho e hoje muito velho nome e depois sob o então novo e hoje já velhinho nome. Que o mesmo ocorreu em 68. Que, em 70, veio a atender pelo apelido de “Taça de Prata”. E que foi rebatizado outra vez em 71, quando se decidiu chamá-lo “Campeonato Brasileiro”. E de novo em 87, quando respondeu por Copa União. Que voltaria ao nome de 71 em 90. Que, em 2000, e somente em 2000, chamou-se Copa João Havelange, e que desde de 2001 assumiu de vez – mas ninguém pode garantir que isso é sério e definitivo – a alcunha (ou ALIAS, já que a analogia com a lógica de programação parece-me, aqui, irresistível) de Campeonato Brasileiro. O intrépido investigador poderia até atordoar-se diante de nossa fúria onomástica, mas não haveria de se deixar iludir por ela. Chacoalharia as enormes antenas sobre a cabeçorra e tocaria o estudo adiante.

Sim, tocaria adiante. Porque o alienígena, se foi capaz de chegar à Terra, é capaz de compreender que o nome de determinado objeto pode ser modificado sem que se altere a essência desse mesmo objeto, e que essa possibilidade é mesmo a mais freqüente. Portanto, só o que ele notaria é a seqüência de mais de 50 campeonatos disputados – sob os mais variados critérios, formatos e nomes, todos itens acidentais – entre as principais equipes do país e no intuito de nomear o campeão nacional. Dá até para brincar de Corvo. E só isso, e nada mais.

O ET não poderia levar em conta o formato de disputa, porque ele é indubitavelmente acidental. O formato passou a se repetir apenas desde 2003. E a partir de 2005, para complicar, havia menos times do que no biênio precedente. E, depois, menos ainda.

O ET não poderia levar em conta o número de partidas para se chegar ao título, e muito menos o número de participantes em cada disputa, porque ambos os dados são escandalosamente acidentais: em 79 (graças a um dos inúmeros regulamentos malucos e critérios malucos que ordenaram a coisa), caso o Palmeiras tivesse sido campeão do Campeonato Brasileiro, teria precisado de apenas sete pelejas estritamente ligadas ao torneio – menos jogos que os oito que Cruzeiro disputou para vencer a Taça Brasil de 66 (campeonato que, aliás, contou com 22 participantes diante dos, por exemplo, 16 da Copa União de 87).

O ET não poderia levar em conta a importância que os competidores emprestaram, ao longo dos anos, à competição, porque perceberia aí outro dado pornograficamente acidental: durante muito tempo, ganhar o torneio estadual foi o suficiente para salvar o ano de qualquer torcida, e o torneio nacional somente atingiu o prestígio de que hoje goza desde algo em torno de 1990 – nosso ET, é certo, não encontraria motivos para descartar cerca de 30 campeonatos baseando-se nas variações de humor dos postulantes ao título.

Mais ainda. O fato de que determinada versão da competição que hoje chamamos de Campeonato Brasileiro, como a Taça Brasil, tenha sido disputada num formato que, 20 anos depois, seria semelhante ao adotado para outro torneio nacional disputado até hoje, a Copa do Brasil, não poderia confundir nenhum ET – por maior que fosse a tentação proporcionada pelas coincidências das formas. Formas idênticas – o que sequer chega a ser o caso – não implicam identidade entre objetos distintos. A Copa do Brasil não existia ao tempo em que chamávamos de Taça Brasil o que hoje chamamos de Brasileirão, e o que hoje chamamos de Brasileirão continuou a existir depois que a Copa do Brasil foi criada. Não há, entre Copa do Brasil e Taça Brasil, sequer alguma similitude mais mínima e banal. Algo como o paralelismo entre a Taça e o Robertão semelhante ao que há entre o Brasileirão e a Copa: se houvesse, a Taça Brasil continuaria a ser disputada após o surgimento do Robertão, o que não aconteceu porque o Robertão, no fundo, era ela ainda e terminou por engoli-la em apenas dois anos; apenas com outro nome e com outro formato mas, essencialmente, o campeonato destinado a nomear o campeão nacional. Mesmo tendo surgido de outro torneio, a nova criatura destinava-se a absorver muito mais a Taça Brasil do que sua matriz, o Rio-São Paulo. E a absorveu mesmo: em 69, já não havia mais Taça Brasil tanto quanto não havia mais Rio-São Paulo. O que resta é que o argumento do formato, em qualquer de suas apresentações, causaria apenas espanto ao extraterreno interlocutor. “Como esta espécie capaz de visitar seu satélite ainda gera espécimes capazes de tentar nos convencer assim?”

Ah, mas e a abrangência nacional do atual campeonato? Hoje ele é muito mais “Brasileirão”, né não?

Né não.

Ainda que isso jamais tenha correspondido a noções precisas de justiça ou garantia de qualidade técnica, a Taça Brasil e o Robertão podiam ser bastante mais nacionais que nossos campeonatos sudestinos temperados com dois ou três sulistas, um ou dois nordestinos e o Goiás de sempre. E, entre estes nossos “Brasileirões” e aqueles de nossos avós, há os “Brasileirões” em que aonde a Arena ia mal, metia-se um time no Nacional – o que depõe sem dúvida muito mais contra os campeonatos pós 71 do que contra os disputados entre 59 e 70.

Ah, mas o Brasileiro, hoje, leva os times à Libertadores. Pois é, e era para isso que serviam – também – Taças e Robertões.

Ah, mas e o rebaixamento, e as divisões de acesso? Bem, nunca foram coisa muito séria, e o respeito às regras de acesso e descenso, dentro de padrões mais ou menos seguros, tem menos idade que meu bourbon predileto[1].

Ah, mas a questão não tem importância. O que você quer é puxar a sardinha para seu lado, porque é palmeirense. Sei. O argumento contrário, nos mesmos termos, não vale meio níquel a mais – mas também não o vale a menos. A não ser pelo fato de que, à diferença do meu ponto de vista, o de meus contraditores ocasiona certas perguntas que parecerão, no mínimo, indelicadas. A elas.

É admissível que os títulos com os quais o Santos habilitou-se para a caminhada ao bicampeonato mundial possam ser diferenciados, sob qualquer ângulo, dos campeonatos organizados a partir de 71? Mesmo diante do que aconteceu, por exemplo, em 87?

Será?

Lembrem-se de 87 e digam-me por que cargas d’água aquele ano é diferente de – deixem-me ver – 68, por exemplo de novo. Em 68 foram 16 times de sete estados, duas fases, 24 renhidas rodadas e um campeão brasileiro legítimo e cristalino que se habilitou a nos representar na Libertadores seguinte – para a qual, vejam que coisa, abdicamos até de enviar representante, o que denota a importância verdadeiramente térrea que dávamos ao título continental.

E, comparativamente, como foi 87? Aos incautos: a comparação é necessária, sim. Não sei se todos ainda se lembram, mas a feia, chata e boba comparação é o meio pelo qual se pode – coisa espantosa – comparar os objetos comparáveis – como os campeonatos nacionais de futebol, vejam só – e, dentre outras coisas, apontar-lhes as semelhanças e diferenças. Não é difícil, e chega a ser recomendável. Para falar a verdade, no presente caso não há outro jeito de resolver o problema. Não tenhamos, portanto, medo de comparar. Comparemos, amiguinhos, comparemos. Adelante.

1968, já vimos como foi. E 1987, o que tem de diferente em relação àquele a não ser o fato de que veio depois? Será muito desagradável frisar que mesmo essa diferença, parece-me – posso estar enganado –, é perfeitamente desculpável diante do fato de que dois anos não podem acontecer no mesmo ano, sobretudo quando separados por 18 outros?

Bom, 87 ficou assim: segundo a CBF, o campeão daquele ano é o Sport, ungido por final decidida em penais cuja conclusão jamais aconteceu, ao passo que para os 13 grandes o campeão é o Flamengo, que no entanto não disputou a Libertadores de 88 porque – vejam lá vocês – sequer era o campeão para a entidade que indicava e indica os representantes brasileiros no torneio.

Nota pessoal: para mim, o melhor é reconhecer os títulos de ambos, pois nem Sport, nem Flamengo estão perfeitamente inocentes nessa trama. Nota irônica: disputaram a Copa União 16 times oriundos de sete estados, e seu campeão, o Flamengo, jogou 19 vezes.

Afora as notas, fica a dúvida: por que diabos o Flamengo ou o Sport (ou ambos) é campeão brasileiro de 87, e o Santos não o é em 68?

Já vimos que não pode ser nem pelo nome do torneio, nem pelo formato, nem pela abrangência, nem pela quantidade de participantes, nem pelas importâncias relativa ou absoluta, nem pela dificuldade da disputa, nem pelo número de jogos. Também não creio que seja útil ater-se à sigla que nos ajuda a nos referirmos aos organizadores[2].

Alguém dirá: e daí? Para que mexer nisso, afinal? O que está feito está feito. Eu responderei: ao estudo, camarada. Ao estudo.

Trata-se de nossa História. A de todos nós. Quem deseja livrar-se dela, deixá-la para lá, tomá-la por desimportante, talvez não tenha sempre más intenções – muitas vezes, trata-se apenas de preguiça, ignorância ou burrice mesmo –, mas certamente jamais poderá ter razão justamente num ponto em que estar com a razão é tudo, e abandoná-la é abandonar tudo.

Não fosse o assunto importante, os flamenguistas de antes ou os são-paulinos de hoje não levantariam a grita que levantam a cada vez que se tenta trazer à tona nada mais do que a verdade, lambuzando-se nesse espírito de malandragem que encontra seu mais valioso apoio na ignorância fundamental e endêmica de nossa crônica esportiva.

Por que o garoto santista deve ouvir calado que o Flamengo é cinco vezes campeão brasileiro, e o Santos apenas duas? Por que o pai palmeirense deve passar por falastrão diante de seu filho que vai aos almanaques e lá lê coisas assim: “… o São Paulo é seis vezes campeão brasileiro, o Palmeiras quatro.”? Porque a crônica acha assim mais confortável, ou fácil, ou polido? Alguém aí poderia arrumar apelo mais razoável?

O fato é que nem os formatos, nem a disposição das torcidas ou equipes quanto à disputa, nem a abrangência representativa do torneio, nem o número de participantes, nem o número de jogos, nem a dificuldade ou extensão do percurso necessário ao título, nem as conseqüências das vitórias e das derrotas, enfim, nada referente à essência se presta à identificação de descontinuidade entre os campeonatos. O nome? Ora, compostura, pessoal.

Compostura.

É só isso, e nada mais.

Entretanto, com raríssimas exceções, o que se vê é algo parecido ao que segue abaixo. Da lavra de André Kfouri, cujo trabalho, diga-se, é mais do que bom – tudo o que o jornalista produz é, em regra, bem cuidado: texto, pesquisa, fundamentação lógica. O que torna a coisa pior, porque tão mais grave é o episódio deletério quão mais respeitável é seu protagonista.

Já discordei ou concordei com muito do que li dele, mas nunca antes André Kfouri havia me parecido relaxado ou, o que é mais grave, propenso à orelhada pura e simples – aliás, continuo achando que não seja. Mas que esta foi dose, é difícil negar. Ao caso. Ele em azul, eu interrompendo em verde. No Lance! de 14 de fevereiro deste ano. Está engasgada há meses, portanto. Foi assim:

DEIXEM OS TÍTULOS EM PAZ

por André Kfouri

E aí, também está fazendo um dossiê?

Começamos mal. Gostaria de saber que outra providência os clubes que se julgam injustiçados deveriam tomar que não documentar provas que refutem o que julgam injustiça e, a partir de tal documentação, tentar desfazê-la – o que é possível, ainda, ou as principais colunas do jornal não perderiam tempo com isso. A ironia, assim como está, é gratuita. Melhor seria estudar a documentação oferecida e deixar as gracinhas para depois, se coubessem.

Digamos que, há alguns anos, você ganhou um torneio de ping-bong (é assim que minha filha de 4 anos fala, e eu me recuso a contrariá-la) disputado apenas por quem trabalhava no seu andar. Partidas equilibradíssimas, um torneio que você suou para vencer.

Nos dois anos seguintes, ganhou de novo. Então você é um legítimo tricampeão do torneio de ping-bong do seu andar, a principal competição da empresa entre 2001 e 2003. Feito que não se apaga, está nos livros. Pode sentir orgulho e bater no peito.

E a coisa piora. A Taça Brasil e o Robertão não foram menos abrangentes do que a imensa maioria de suas versões denominadas “Campeonato Brasileiro”, cuja abrangência exagerada, muitas vezes, até desqualificou. A analogia está simplesmente errada. Os “torneios do andar” já eram os campeonatos estaduais. A Taça e o Robertão eram tanto do “prédio todo” quanto o foi a Copa União. Não dá nenhum trabalho verificar isso. Já comparamos 68 a 87, e nada melhora muito quando desdobramos as comparações entre os demais anos. Não se tratava do campeonato mais importante do prédio, só que disputado apenas pelo andar mais gostoso. Fosse tal distinção admitida, muitos Brasileirões não passariam, por sua vez, de títulos – deixem-me ver – mezaninos, no máximo.

Mas eis que o esporte cresceu e virou uma febre no prédio. Em 2004, foi criado o primeiro “Campeonato Geral de Ping-Bong” da empresa, com quase cem jogadores. Partidas disputadas na hora do almoço, em plena sala de reuniões da presidência, com cobertura total do jornalzinho interno. O campeão ganhava um troféu bonito, prêmio em dinheiro, e uma festa no restaurante da diretoria. Moral incrível.

E a coisa piora ainda mais. A Taça Brasil e o Robertão tiveram, muitas vezes, mais participantes do que suas versões denominadas “Campeonato Brasileiro”, e com tanta abrangência quanto a maioria deles. A analogia aprofunda o erro. O “prédio todo” não estava menos na jogada entre 59 e 70 do que passou a estar em 71, com a vantagem de que, até 70, não esteve submetido ao arbítrio de um regime que hipertrofiasse seus torneios.

Só que, sabe como é, com mais gente jogando, as dificuldades aumentaram, e você nunca sentiu o gostinho de entrar no elevador e perceber as pessoas se cutucando (“viu quem é? É o campeão de ping-bong!!”). Ah, como deve ser bom…

Aqui a coisa desanda para inverdade pura e simples e a analogia parte para o grotesco. Basta verificar o número de participantes em cada versão do campeonato, bem como a procedência dos postulantes. E, quanto aos “cutucões no elevador”, não é demais lembrar que o torneio do “prédio todo” não passou a mais prestigioso de 71 em diante. Durante muitos anos, o “campeonato do andar” era tão ou mais valioso que o do “prédio todo” tanto para torcidas quanto para clubes, tolos quanto se os tome pela preferência. Além do mais, ainda que a analogia servisse para alguma coisa – e ela não serve para quase nada –, há agravante aí: todos – é, todos – os vencedores das versões “Taça Brasil” e “Robertão” venceram também a versão “Campeonato Brasileiro” ou “Copa União”, razão pela qual não teriam curiosidade nenhuma em sentir gostinho nenhum que já não tivessem tido oportunidade de gozar, às vezes fartamente. “Ah, como deve ser bom” o quê, cara pálida?

Não passe mais um dia imaginando, amigo. Faça logo um dossiê e peça a equiparação dos seus títulos com os do Campeonato Geral. Você não vai ganhar o troféu, o dinheiro, ou a festa. Talvez não consiga nem comemorar. Mas e daí? Se aceitarem o pedido, na próxima vez em que o campeão geral entrar no elevador e as pessoas se cutucarem, você poderá dizer que ganhou o mesmo título.

O troféu, o dinheiro e a festa já foram ganhos ou feitos e, portanto, não podem e nem devem ser ganhos ou feitos novamente. E, por isso mesmo,  muito menos podem ser tirados, que é com o que o jornalista e seus pares estão colaborando ao espalhar essa conversa fiada – apoiada ou não em analogias mal empregadas, falta de critério e pouca disposição para a pesquisa ou até simples senso histórico. Só o que se quer é evitar a infantilidade, estimulada pela e na imprensa, do “olha, você ganhou mas não vale mais – éramos todos café-com-leite, afinal”, porque se trata de mentira.

É só isso, e nada mais.

Apesar de não ser o mesmo. Vai ter de explicar que o comitê do cafezinho equiparou os torneios, com base na importância dos primeiros campeonatos do andar. Não importa que eles tinham nomes diferentes, e que você não venceu o Geral. Você se sentirá campeão do mesmo jeito. Ou não?

Não se trata de como os clubes irão se sentir, nem dos nomes dos campeonatos, e nem da importância deles. Entre os campeonatos que André Kfouri reputa como “Gerais”, tudo isso variou além de qualquer linha demarcatória, muitas vezes ao ponto de se tornarem as disputas muito menos amplas (e gerais, diga-se), sérias e difíceis do que as  André Kfouri chama de “do andar”. E trata-se menos ainda de quem decide se serão reconhecidos ou não os títulos – se o comitê do cafezinho ou o a CBF. Isso tudo é acessório. O principal é pôr as coisas em seu devido lugar, ou optar pela farsa. É disso que se trata. É só isso, e nada mais.

Afinal, não é isso que alguns clubes de futebol estão fazendo?

Não, não é. Está claro que não é. O que se quer é que se reconheça a verdade: Palmeiras e Santos, por exemplo, têm mais títulos brasileiros que São Paulo e Flamengo, por exemplo, sob qualquer critério de comparação que se queira adotar: nome do campeonato, importâncias relativa e absoluta, abrangência nacional, número de participantes, formato de disputa etc – qualquer um, sem exceção. Por que devem fingir que não têm? Cartas à redação, por favor.

Palmeiras e o Fluminense querem que a Fifa resolva que a Copa Rio, que eles ganharam no começo da década de 50, é o Mundial de Clubes, criado em 2000. O Santos pede que a CBF equipare os títulos da Taça Brasil e do Robertão, conquistados nos anos 60, ao Campeonato Brasileiro, disputado a partir de 1971. Basta uma canetada, e a festa começa.

Mais bobagem. Por que o Campeonato Brasileiro começou apenas em 71? É muito repetir mas, na falta de outro recurso mais divertido, eu não resisto e repito: pelo nome que não é, pela forma que não é, pelos partícipes que não é, pela importância que não é, pelas conseqüências que não é, pela sopa de letrinhas institucional que não é: quem se aposentou pelo IAPI ainda recebe proventos pelo INSS. Pelo tudo que não é e pelo nada que é, por que “… começou apenas em 71.”? Noves fora, quem desceu a canetada? Preciso desenhar?

Será? Qual é o problema em ter orgulho do que se fez, quando se fez?

Eu que pergunto. Qual é o problema, afinal? Problema haveria se quem tivesse direito a se orgulhar fosse constantemente perturbado pela mentira e, para piorar, ficasse quieto. E o que “quando” tem a ver com isso? Quando os atuais brasileiros tiverem mais de 50 anos, valerão menos?

Não há dúvidas sobre a relevância dessas conquistas. A Copa Rio era, comprovadamente, o principal torneio internacional de clubes de sua época. Do mesmo modo que a Taça Brasil e o Robertão eram o que havia de mais importante no futebol brasileiro, enquanto existiram.

Não é bem assim. Se isso fizesse sentido, eu diria que a Copa União não era o campeonato brasileiro, mas apenas “o que havia de mais importante no futebol brasileiro”, enquanto existiu. Apenas não o faço porque sei que não há nenhum critério válido segundo o qual se possa dizer que a Copa União não era o Campeonato Brasileiro, só que com outro nome.

Os troféus estão guardados, as glórias eternizadas, a história preservada.

Mentira. Os troféus estão guardados, mas a glória e a história têm sido depredadas por textos como este de André Kfouri. É glória e história o que se quer preservar com trabalho e documentação, e é a glória e a história que têm sido vítimas da sanha reformista sustentada por nenhum argumento, documentação séria ou ao menos uso da lógica.

Ninguém – que esteja falando sério – pode negar.

Dessa observação devo inferir que o jornalista é o maior dos brincalhões sapecas.

Mas querer transformar esses títulos, com outro nome ou uma equivalência ao que veio mais tarde, é ofender o esforço dos jogadores que os conquistaram.

Todos os títulos, a não ser o primeiro, devem necessariamente vir mais tarde do que os que veiram mais cedo. É o caso de citar Chesterton: não posso mais levar a sério a gente que prefere a quinta-feira à quarta-feira somente porque ela já é a quinta-feira. Não há dúvidas de que os campeões da Taça Brasil e do Robertão possam estar ofendidos. Dizem-lhes que Richarlyson é três vezes campeão brasileiro e que Pelé não é nenhuma – mas não lhes dizem o porquê, apostando todas as fichas em comparações mancas, imprecisão histórica e desejo puro. É uma piada triste. Não dá para pegar leve. Sinto muito.

O campeonato de ping-bong do seu andar não vale menos, só porque existiu antes do Campeonato Geral.

Valeria menos, sim, se houvesse sentido na comparação – coisa que não há. O “andar” não é o “prédio todo”; não recebo por aquele os mesmos cutucões Thyssen & Krupp que este enseja e não posso negar o fato de que o todo inclui as partes – superar o “prédio todo” é mais importante que superar só um de seus andares, importante o quanto ele seja –, mesmo a cobertura triplex vale menos que o alto a baixo.

O caso é que tudo isso é um arranjo muito safadinho de palavras vazias que, suavizantes o quanto sejam, não atenuam a gravidade do ferimento aberto há décadas, e crescendo, na história dos clubes – ao qual o colunista oferece agora sua contribuição. E que se deve desinfetar, fechar e deixar cicatrizar. O corte deve ser curado, não ignorado. Não são os clubes que o rasgaram. Foi a CBF, com a conivência – e agora ativismo mesmo – de nossa crônica.

Ele só não é o Campeonato Geral.

Por quê? Isso o cronista não responde com outra coisa que não essa analogia de ponta a ponta falaciosa cuja utilidade, na melhor das hipóteses, é tornar fosforecentes os erros dos que, em meio à escuridão da ignorância, nela se apóiam.

É uma vergonha em toda a linha. Se alguém quiser continuar a defender o indefensável, que assuma ao menos a pesada carga de nos mostrar que estamos errados. Porque, se for para chutar, daí já é demais.

Haja saco, viu?


[1]Ainda não sei se é Wild Turkey (Russel’s Reserve) ou Maker’s March. Quando decidir, aviso.

[2] Hipótese tão absurda que, aliás, vale até aparte: é o argumento acróstico, segundo o qual a CBF substituiu a CBD e, portanto, organiza outro campeonato. Tá bom.

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