Sim, trata-se de uma modalidade nova de jornalismo. Não sei se é boa, não sei se é má. O que sei é que, se o Corinthians pode ter um, então eu também quero. Quero um Núcleo Corinthians pra chamar de meu.

Isso não é culpa dos jornalistas, é claro. É culpa – se é que se trata de culpa, penso nisso mais adiante – de quem edita aquela joça. Afinal, os caras estão fazendo algo quase que inédito na história do jornalismo esportivo brasileiro e, portanto, seria muita crueldade nossa sugerir que ninguém – mesmo sendo esse ninguém alguém que apite qualquer coisa naquele pasquim de merda, o que já depõe fortemente contra o sujeito – tenha notado movimento de tal magnitude. E não, não estou dizendo isso porque conheço Rodrigo Vessoni – não o vejo há coisa de dez anos, mas trocamos ideias às vezes e, de qualquer modo, gosto mesmo muito dele. E é por isso, para que não me confundam com o que não sou, que, antes de descer o cacete, passo a esta pequena – ou nem tanto, mas de todo modo absolutamente necessária – digressão:

No final da década retrasada – valha-me Deus – fui parar na central telefônica, comercial, de uma multinacional argentina – em nome da Virgem Santíssima, acreditem-me, existe mais de uma – que oferecia serviços de terceirização do almoxarifado das outras empresas. Chamava-se Officenet. “Papelaria, Informática, Copa e Limpeza, senhor”. Foi na Officenet, inclusive, que conheci a Jovem Esposa – o que deposita todas as minhas lembranças daquele tempo numa espécie de solo sagrado de minha memória. Lá pelo terceiro mês – a empresa era nova aqui e havia, como se gosta tanto de dizer por aí, muitas oportunidades – me passaram ao departamento de Crédito e Cobrança. Outro endereço. Saí da Barra Funda, daquele edifício azul espelhado da Atento, na Júlio Gonzalez, e fui parar na Vila Olímpia, num outro edifício, metidão, em frente ao que hoje é o ótimo “The Fifties” mas que, na época, era um “Feijão de Corda” – aliás, muito bom.

Nos dias seguintes à mudança uma nova leva de “Hunters” – socorro – foi contratada para ampliar o departamento de “Primeira Venda”, que é o que os “Hunters” – porca miséria – faziam.  Dentre os novatos, o gorducho Rodrigo Luís Vessoni. O primeiro contato que tive com ele foi este: havia listas de e-mail, obviamente clandestinas, entre funcionários; listas com as mais diversas finalidades, clandestinas todas. Uma delas, claro, era discutir futebol clandestinamente. A despeito de ter mudado de cargo, de prédio e, graças a Deus, de salário, ainda tinha muito contato com a turma antiga, e enfiaram-me – clandestinamente também, vejam ao que nos obriga o tal mundo corporativo – na tal lista do futebol. Quem quer que tenha conhecido Vessoni, em qualquer fase da vida dele, sabe que a possibilidade de seu nome não constar ali, calouro o quanto fosse, era mais ou menos a mesma de Lady Gaga assumir o papado – só que na Idade Média. Enfim. Logo de cara, o sujeito solta que o Corinthians seria campeão paulista com facilidade já que, ora bolas, só havia sobrado, para as semifinais, o – ai, meu Jesus Cristinho – “Timão” e “mais três times do interior”, quais fossem: Ponte Preta, de Campinas, Botafogo de Ribeirão Preto e… o Santos, de Santos mesmo. Isso. Vessoni estreou comigo fazendo a décima oitava economia da União saltar a Serra do Mar assim, sem mais e muito menos sem menos. Não é para qualquer bobo.

Mais tarde, chegamos a trabalhar juntos – ele, primeiro, foi fazer extras no Financeiro. Depois, transferiram-lhe de vez – e o cara era tão azarado que, a essa altura, a empresa inteira fora ajambrada dentro daquele galpão na James Holland, Barra Funda de novo, que creio ainda servir ao Submarino. Deram-nos um refeitório horroroso e cortaram-nos os tíquetes. Para completar, trocaram o seguro de saúde pelo primeiro que, relativamente ao anterior, lhes pareceu o pior possível. Não demorou muito e ambos fomos para o olho da rua. Eu, porque era – aliás, ainda sou – boca suja. Ele, basicamente, porque dizia – num misto de honestidade e inocência meio que mal dosadas – para quem quisesse ouvir que seria jornalista esportivo, que aquilo ali era pra pagar a faculdade de jornalismo – ela própria mera baldeação entre a vida preparatória e a verdadeira, de jornalista esportivo – e que não, ele não tinha a menor pretensão de “progredir”; afinal, estava tratando era de ser jornalista esportivo e, talvez, quem sabe, alternativamente, jornalista esportivo.

Ou, ainda, jornalista esportivo. Nada nem além, nem aquém disso, nem mais e nem menos do que jornalista esportivo. Uma obsessão que superava até – e tenho a impressão de que ele mesmo jamais tenha notado isso – a própria paixão clubística que a proporcionara. E foi o que se deu. Entre uma coisa e outra, nos tornamos amigos. Vessoni – aliás, toda a família dele, ainda que eu não saiba até que ponto os pais soubessem disso – me ajudou muito no começo da minha vida de homenzinho. Éramos todos uns quebrados, todo o mundo pagando faculdade e eu, adicionalmente, morando sozinho, em pensão. Vivia enfiado em meias furadas. O pai dele não era menos quebrado, mas tinha lá sua quebrada confecção e, com ela, quebrou-me inúmeros galhos. Vendiam-me, a preço de custo ou quase e a perder – mesmo – de vista, inúmeras peças de roupas cuja autenticidade era – como direi? – um tanto quanto chinesinha. Houve períodos de minha vida em que eu era praticamente um modelo da confecção que apelidáramos de Pançoni’s WearPolo by Pançoni e daí em diante. Por outro lado, tratava-se na maioria das vezes de camisetas, e das honestas – algumas das quais ainda uso, em casa, motivo pelo qual a Jovem Esposa ainda quer “dar uns sopapos naquele gordinho”. As que não me serviam mais foram doadas em bom estado e, se os novos proprietários precisarem delas tanto quanto eu, há mais de dez anos, precisei, creio que as estejam tratando com a dignidade devida para que, ainda hoje, estejam por aí os protegendo do calor e do frio. Durante minha vida adulta chorei duas vezes, escondido, em banheiros de empresa. A primeira foi quando sequestraram Eric Stempliuc – Vessoni deve se lembrar disso – e achávamos que ele estava morto. A segunda foi quando demitiram o velho e bom Pançoni. Isso não se faz.

Além do mais, Vessoni não é um palhaço pretensioso que tenta fazer o que não sabe; gosta de futebol e assiste mesmo aos jogos a respeito dos quais depois fala, e tudo isso somado poupa os corinthianos de lerem muitas das barbaridades, materiais e formais, que se podem encontrar no restante do tabloide. Ele faz a coisa mais difícil para essa raça: não complica. Como vocês puderam notar, acabou a digressão. Feito isso, expliquem-me o seguinte:

  1. Quando foi que qualquer jornal ou encarte esportivo, no Brasil, se preocupou com a responsabilidade acerca daquilo que publica em relação aos clubes? Dá pra contar nos dedos os veículos que, ao longo da História, adotaram qualquer procedimento mais ou menos racional. O padrão sempre foi outro: vamos vender e, de preferência, vamos vender ajudando nosso time – seja ele um clube, seja ele uma ideia. Ah, seu exagerado. Sei. Assim, de cabeça, algumas das manchetes de “A Gazeta Esportiva”, anos 90: Edmundo briga com Antônio Carlos, no vestiário. A briga vaza. Antônio Carlos, vale lembrar, surgiu num São Paulo idealizado – ainda que formidável. A capa? “Afastado o Mau-Caráter”, ou seja: Edmundo. Hoje todos conhecemos bem o caráter de ambos os envolvidos e podemos dizer, sem pejo, que tipo de emoção levava a “A Gazeta” a escolher seus vilões. “Isso Também é Pênalti”, para certo lance bem duvidoso que o jornal quis opor a penais escandalosos sofridos por jogadores do Palmeiras ao longo do certame estadual de 93 – era o começo da campanha lançada por um Telê Santana já em completo desequilíbrio emocional e que o jornal resolveu assumir para si: a do “Esquema Parmalat”. Não é demais lembrar aos coleguinhas que jornal nenhum deu asas a qualquer “Esquema HMTF” – não deve ter sido por falta de “fontes”, né mesmo? Isso sempre se arranja. “Ótima Derrota”, numa insinuação de que o Palmeiras entregara certa partida para o Corinthians a fim de evitar a chave do São Paulo nos quadrangulares semifinais – coisa que Vital Bataglia corroborou após a conquista do título pelo Palmeiras, numa coluna que intitulou – ai, que camarada sugestivo e, sobretudo, discreto – “Como se Faz um Campeão”, adicionando à acusação velada a informação de que tinha sido tudo roubado – sem atinar para o absurdo que seria entregar partidas para evitar adversários que se poderiam simplesmente assaltar ali adiante. O Estadão vendeu mais da metade do elenco do Palmeiras antes, durante – principalmente durante – e depois das conquistas dos Paulistas de 93 e 94, do Rio-São Paulo de 93 e dos Brasileiros também de 93 e 94. O time começou a se desfazer apenas no final daquele biênio, com vinte e quatro meses de atraso, não sem antes vinte entrevistas concedidas a Cosme Rímole, o Virgulador Maluco, todas elas recheadas de desmentidos acerca de desmanches que realmente nunca ocorreram. Nada mudou nos últimos vinte anos. Telmo Zanini, um acusador celerado a quem caberiam vários processos e outras tantas condenações pelos absurdos que publicou, até subiu na vida e sobreviveu ao “A Gazeta”. Osmar de Oliveira permanece premiado por escolher as urinas que deve ou não conservar adequadamente, conforme o fornecedor e o consumidor delas. O LANCE!, nesse sentido, é até muito tradicional: dá continuidade ao vale-tudo, ainda que o envernize – e bem mal, diga-se de passagem. Vital Bataglia não batia bem, babava até, mas escrevia pacas. E os Backs da vida, que não babam, são boa gente mas, em contrapartida, esperam que sejamos mais boa gente ainda a fim de perdermos nosso tempo tentando decifrar o que escreveram? Alguém dirá que é esse o jornalismo esportivo de hoje, e dirá que é “provocativo”. Eu concordarei com a constatação e variarei a qualificação: é isso mesmo e é por isso que é uma merda. Só que se continuasse nisso, dava pra engolir – estávamos acostumados a certos níveis de merda. Mas e o Corinthians, que tem lá um Núcleo para… defender o trabalho da comissão técnica, da gestão do futebol, do marketing e, se deixarem, o dos bicheiros – há alguns lotados lá, né? – também? Ah, não é nada disso? Pois então, como pode ser que…
  2. Adriano não compareça a quase nenhuma sessão de fisioterapia, em 2011, mas só fiquemos sabendo disso, com todas as letras, poucos dias antes de sua providencial e, do ponto de vista jornalístico, anestésica estreia, a peleja banal contra o banal Atlético Goianiense? O Corinthians é o único time do mundo cujo capitão pode ser afastado sem que tal evento oblitere os êxitos esportivos que lhe forem concomitantes. Ah, como esse povo sofre, né? Se quiserem exemplos: foram perguntar a Felipão – o LANCE! inclusive – sobre a demissão de César Sampaio – boato puro e simples – ainda no gramado, após uma vitória divertida. Ah, mas foi algum diretor querendo tumultuar. Pois é. A oposição do Corinthians deve odiar o Núcleo Corinthians, afinal de contas não pode usar o jornal para tumultuar picas – o que é uma injustiça diante do que se faz com – sem exceção, no momento – todas as outras equipes da Capital. Até os pequeninos oposicionistas da Portuguesa conseguem meter o nariz em algum Box, mas o poderoso Paulo Garcia não fura a Linha Bolgueseana, Motoryniana ou Vessoniana (é, tem os outros, que deram a sorte de não me conhecer) nem debaixo de porrada – e não creio que seja por algum ressentimento residual do tempo em que, funcionário da Officenet, Rodrigo se visse moralmente obrigado a desenvolver alguma bronca da Kalunga. Se quiserem entender o que estou dizendo, comparem as matérias do jornal à época do furdunço com Chicão às que foram produzidas pelo Núcleo Palmeiras durante o episódio Kléber. Maurício Oliveira, no “Com a Palavra” de hoje, nas páginas que tratam do Corinthians, deleita-se com a eficiência de Tite em se fazer respeitar – ela existe, o jornal não produz crises, tudo isso é muito legal. O que não é legal é nos fazer de idiotas: o perfil dos profissionais que cobre o São Paulo, por exemplo, é de gente que adota linha muito diferente, e quem disser que certas escolhas das editorias não interferem na realidade estará obrigado, desse dia em diante, a dizer que Collor caiu – única e exclusivamente – porque era ladrão – coisa que ele era mesmo, mas que não tem nada a ver com o caso. O Corinthians certamente tem dirigentes problemáticos, mas o LANCE! abre ou fechas as torneiras que quer, e como quer. O mais chato de tudo isso é que, para terminar…
  3. No final das contas, a gente fica numa posição absurda – a de ter que criticar o que, no jornal, funciona de propósito e, ainda, o que não funciona sem querer. O time que tem o maior número de incompetentes em seu “Núcleo” é, de longe, o São Paulo. A quantidade de merda que sai ali só perde, em gravidade, para a qualidade da merda que borbota. Dia desses, esses caras me salvaram de uma manhã das mais aborrecidas. Compartilhei com vocês, no Twitter. Tenho amigos corinthianos que não suportam o LANCE! porque, basicamente, veem a vida de outro jeito e percebem – porque está na cara – que Vessoni e outros mais gostam da administração de Andrés Sánchez. Eu lhes pediria que fingissem, por poucas horas, que são são-paulinos (Sem exagerar, hein, pessoal? Por favor). Possuídos por tal espírito – como direi? – sutil da mais moderna são-paulinidade planejamentosa estruturenta, tomem o LANCE! para ler. Daí vocês vão ver o que é bom: não importa se o time vai bem ou mal, o serviço entregue é porco. Tudo errado. Datas, contas, texto, gráficos – uma coisa louca. O camarada acha que porque está no São Paulo é só ir elogiando aquilo que os colegas ensinaram como sendo lindo-maravilhoso-bonito-demais e guardar as críticas para derrotas que, segundo as leis que regem aquele universo todo especial, jamais deveriam chegar. Daí que quando o time não ganha a coisa ganhe ares manicomiais.  Não é isso o que acontece com o Corinthians. Como os caras que estão lá gostam de futebol mesmo – e do time deles, sei lá se são todos corinthianos – e como ali, por algum acaso ainda inexplicável o índice de vagabundagem é bem baixo – tudo sai muito mais caprichadinho, um nojo – a vida do clube, bem ou mal administrado, ficou muito mais fácil. Está certo? Está errado? Não quero saber. O que não pode é coisa desse tipo para um time só: Liedson não enfrenta “jejum de gols”, o “Levezinho” apenas ainda não os fez, neste ano, em partidas oficiais – afinal, está machucado, lembrem-se! Porque, se for o Valdívia, vai ser jejum e foda-se. Ou ainda: a torcida quer matar Tite, ali no estádio mesmo, em meio às vaias ominosas, acusando-o de retranqueiro pérfido e arrombado – isso porque a equipe ainda liderava o campeonato. E o LANCE!, que tem todo o direito de discordar de quem for, inclusive de torcidas, não deixa a discordância para qualquer coluninha – isso não. Vai logo a enfiando no relato do jogo, onde justificativas da comissão técnica – cansaço, ritmo, arbitragem, a posição dos astros, o diabo a quatro – são lançadas aqui e ali como expressão da vida que corre. Imaginem Thiago Salata justificando a eliminação do Palmeiras na Sul-Americana passada baseando-se nos comentários de Felipão sobre a Fortuna Jumariana – mas isso assim, largado no meio do como-foi-o-jogo-e-coisa-e-tal: “O Palmeiras foi superior, fez os gols que precisava mas foi eliminado pelos erros da arbitragem no jogo de ida, no Rio e, por incrível que pareça, por um Jumar que não vai se repetir. Até por isso, o grupo segue de cabeça erguida para a continuidade do Brasileiro, onde vem bem e, com mais tempo agora, só tem a melhorar, já que segue ainda mais animado pelo fim do jejum do Gladiador”. Que tal? Imitei até aquela elegância, lanceística que só ela, que consiste em encadear ideias e períodos de tal modo que nos lembremos de – deixem-me ver – de Cicciolina, isso; Cicciolina tentando fazer dois pênis se encontrarem, a despeito do períneo quase etéreo, numa película dedicada aos prazeres da dupla penetração. Ficou bom? Gostaram? Porque, se for para um, bom ou não tem que ser para todos.

Ninguém espera que qualquer jornal seja imparcial – ninguém, é claro, mais ou menos capaz de somar dois e dois. Estamos todos combinados: a imparcialidade é uma meta, uma referência, um parâmetro segundo o qual o camarada se orienta – um Norte. Não é o destino. Jornalistas corinthianos talvez devam mesmo cobrir o Corinthians pensando em outras providências, adicionais, que não sejam postas em ação em detrimento do jornalismo que fazem – dentre elas, não prejudicar o time pelo qual torcem. Não sei. Quem sabe não seja essa a solução para essa porcaria que fazem hoje, a título de “profissionalismo”?

Mas o LANCE!, ah, o LANCE!! Até quando acerta, erra. Adotou dois critérios, talvez sem o notar e ao menos em São Paulo: uma medida de isenção jornalística é dada pela frieza, a outra pelo apuro. Você pode cobrir Palmeiras e São Paulo como um porco analfabeto, desde que não se entregue à paixão. Você pode cobrir o Corinthians entregue à paixão, desde que confira os dados nos quais se embasa, revise o texto e não diga coisas sem pé nem cabeça – ou seja, desde que exerça a profissão que escolheu. Você não pode dizer que o Corinthians foi roubado pelo América de Minas, em Minas, no Brasileirão 2011 ou que o Palmeiras o foi pelo próprio Corinthians, na última semifinal do Paulista – isso seria muito indelicado, apesar de ser a verdade pura e simples. Mas você pode passar mais de ano acompanhando a gestão de Sánchez enquanto ignora o bicheiro das categorias de base, o marqueteiro meio abilolado ou as ligações asquerosas entre o clube e a CBF ou mesmo a Globo – afinal, não há espaço para esse tipo de coisa quando você quer só saber se seu time vai engrenar ou não, seu trabalho – ao menos em parte – coincide com tal interesse e quando, de repente, alguma coisa parece poder desviar a concentração de todos, unidos, pela consecução daquele maravilhoso e acalentado programa que é o sucesso do time da gente.

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Nunca pensei que fosse dizer algo nessa linha, mas acontece que o Corinthians está sendo convertido numa instituição chapa-branca – assim como o foi o Flamengo, no início dos anos 80, final dos 70, e sob os auspícios do mais carioca – e poderoso – de todos os departamentos de jornalismo esportivo em todos os tempos: o da Globo, no mesmo final dos anos 70, início dos 80. Sim, eu poderia falar do São Paulo – e vou falar. Mas, antes, creio que, ao menos para fins da discussão do fenômeno atual, o exemplo daquele Flamengo supercampeão será mais esclarecedor. Ao longo do texto, espero tornar explícito o porquê dessa suposição.

Vamos começar por uma brincadeira, um joguinho. Suponham que as seguintes perguntas, no próximo parágrafo, fossem formuladas nos seguintes termos e fundadas nas seguintes justificativas:

O Flamengo de então era mesmo o melhor time do Brasil? Ou ainda: suas conquistas foram o reflexo dessa eventual superioridade? Afinal, a equipe venceu tudo o que poderia vencer àquela época. E tinha Zico. Mas as vitórias foram, exclusivamente e todas elas, obtidas graças aos méritos esportivos do clube, ou a tão propalada influência da Globo – essa acusação era especialmente paulista, mas converse com qualquer gremista e entenderá o que digo – foi decisiva a ponto de macular a mais gloriosa fase do mais popular time do Brasil?

Deixem-me dizer o que penso:

Durante quase todo o período, sem dúvida, o Flamengo foi o melhor time do Brasil. Mais ainda: O Flamengo foi, na melhor parte daqueles anos, o melhor time do mundo. A imensa maioria de suas vitórias foi alcançada porque o Flamengo era superior aos seus adversários –  e isso numa Era de Gigantes. Muito bem. Por outro lado, dizer tudo isso não é encerrar o assunto. Por mais desagradável que seja, a verdade é que, além de tudo isso que se afirmou acima – e que é, como disse, o que penso – há uma série de fatos que, por serem fatos, ultrapassam em importância, com folga, tudo aquilo que pensei, penso ou vier a pensar. A ver.

  1. O episódio protagonizado por José Roberto Wright, no Serra Dourada, no jogo-desempate pela Libertadores contra o Atlético Mineiro é – para dizer algo sutil – simplesmente macabro. Não conheço, entre equipes grandes em partidas decisivas, registro de coisa sequer parecida – nem a final do Brasileiro de 95 chega perto. Que isso não incomode a nação flamenguista, creio que seja compreensível; jamais justificável. Que as reclamações atleticanas passem pela mídia como – por exemplo – “chororô” é algo simplesmente amoral;
  2. Diferentemente do que ocorreu ao longo dos anos dourados de outro grande carioca, o Botafogo, a influência exercida pelo sucesso flamenguista sobre as escolhas do selecionado nacional foi nefasta. A polarização entre o Rio e o resto do país – até hoje ignorada pelos fluminenses, aliás – chegou a tal ponto que Cláudio Coutinho, aterrorizado pela hipótese de escalar Wladimir, oriundo de clube paulista, produziu aberrações como Edinho na lateral-esquerda;
  3. A arbitragem da finalíssima disputada contra o Grêmio, no Olímpico, em 1982, foi facinorosa;
  4. A Taça Toyota, a não ser mui episodicamente, se tratou de grossa palhaçada. O Flamengo não tem nada a ver com isso e fez o que tinha que fazer, mas o Liverpool foi ao Japão tão preocupado em vencer – e não em fazer compras – que deixou três horas de fuso horário a acertar. Mal e mal treinou. O depoimento de Júnior, já nos anos 90, segundo o qual ele não trocaria tal conquista (dados os “terríveis sacrifícios” implicados nela) pela Copa do Mundo, além de asqueroso, só se compara em ridicularia ao esforço promovido pela Globo de então no sentido de que engolíssemos que “olha, é igual aos que o Santos ganhava”. Note-se que a imprensa esportiva paulista, na maioria dos casos, tratava a coisa nos mesmos termos em que o faço agora, mas resolveu mudar de opinião assim que um clube paulista venceu a mesma competição (é verdade que sob condições bastante diferentes das enfrentadas pela agremiação do Rio, ao menos na primeira ocasião em que o fez);
  5. A relação entre Globo e Flamengo era mesmo promíscua a dar com pau. Não fiquem chateados comigo. Deem uma olhadinha nas polêmicas da época, todas elas disponíveis nos melhores arquivos, e depois me rebatam sem ficarem vermelhos.

Muito bem, e vejam só: insisto. O Flamengo tinha mesmo o melhor time do mundo, capitaneado por um jogador que, em alguns momentos de sua carreira, foi o melhor jogador do mundo e, por tais razões, venceu o que venceu. Ponto, parabéns ao Flamengo. À parte disso, a questão que fica é simples:

Teria sido mais ou menos fácil fazer tudo aquilo – só que sem a Globo?

Não quero perder o tempo de ninguém. Ao ponto. Especialmente desde que o Corinthians associou-se a Ronaldo, foi adotado pela emissora. Um dos motivos pelos quais preferi falar do Flamengo dos anos 80 a discorrer sobre o que ocorre com o São Paulo (quando ocorre), é que as preferências da Globo, porque da Globo, implicam nacionalizar o problema – o que é mais difícil no caso do clube do Morumbi. Não estou falando dos interesses comerciais da emissora que, com justiça, recaem mais sobre o Corinthians – que dá mais audiência – do que sobre os outros. Que transmitam mais jogos do produto que vende mais, que ele tenha prioridade na grade quando isso não corresponder a qualquer absurdo. O que nos dá aquele desconforto nostálgico – e mesmo os corinthianos sabem o que é sentir isso, pois redimiram todo o Estado naqueles 4 a 1 de 84, a exemplo do que o Palmeiras (sempre chegando antes, ahá!) fizera em 79 – são episódios como o da semifinal do último paulista: um Casagrande constrangedor, por exemplo. Um Leifert, na segunda-feira seguinte, mais sapeca do que deveria. Cânticos legendados em meio a clássicos decisivos – e unilateralmente legendados. Análises acuadas sobre as arbitragens. Porque, pessoal: os penais que, aparentemente, sairiam de qualquer jeito – se é que vocês me entendem – doem menos do que comentaristas que os tomam por eventos da vida que corre. E tais comentaristas, sinto dizer, facilitam a vida de canalhas como Paulo César de Oliveira. Facilitam, mais ainda, a vida de grandes canalhas como o Coronel Marinho, ou de canalhas superlativos como Sérgio Corrêa.

Não, não caio naquela de chamar o Brasileiro de 2005 de “Zveitão”, nem acho o Mundial de 2000 menos valioso do que a Taça Toyota – e por milhões de motivos que não vêm ao caso. Não se trata disso. Mas é que há coisas que fazem parte do cenário sentimental da cidade. Da minha cidade. Dá nojo ver o que estão fazendo com algumas delas.

E ainda tem o Lance!, cujo caso é pior e, portanto, fica para outro post.