Nada contra os esportes americanos, as ligas sob siglas, essas porras todas. Até gosto de ver algumas coisas. Mas um alerta: você não precisa ser retardado para acompanhar nada disso. Pessoas normais também o podem. Por favor, alguém me explique o que é esta porcaria na página D8 da Folha de ontem, sob o título “Pubs da cidade abraçam evento norte-americano”:

“Ao contrário de uma final em qualquer outra modalidade, incluindo a Copa do Mundo, tudo que cerca a partida é capaz de gerar tanto burburinho quanto os touchdowns (jogada máxima do esporte)”

Ahã. Sei. Os tátchdóun geram burburinho, compreendo. Eu, que vejo uma partida da – ahá – NFL por ano, duas no máximo, sei que o tátchdóun gera uma reação parecida com a do gol. Burburinho é o que o rapaz – ou moça – que escreveu isso sentiu nas pregas, enquanto escrevia, porque estava muito emocionado(a) em falar sobre a ÉNÉFÉL, compreendem?

E essa foi só uma das inúmeras frescurinhas associadas ao evento do… Superból, tá certo?

Escrevam sobre o que lhes vier à veneta – há público para quase tudo. Mas mantenham o mínimo de compostura. Pelamor.

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Tostão, o Sábio

06/02/2012

disse o que penso desse senhor. Eu sei, todo o mundo acha o camarada a coisa mais fofa do mundo. Isso porque, dentre outras coisas, além de um grande palhaço ele é bem espertinho. Antes de retomar o assunto “encampamento do Corinthians”, gostaria de me dedicar a mais este exercício de – como direi? – iconoclastia. É, vou falar mal do Tostão. Ai, como pode? Podendo.

Se não fosse por 70, não veria motivos para não o destratar dia sim, dia também. Sinto-me mal ao falar mal de qualquer homem que, enfiado na amarelinha, tenha se portado de acordo. Mas Tostão abusa. Pior ainda, abusa direitinho. Sua última coluna, a de ontem, na Folha, é o mais repulsivo empilhamento de lugares comuns bom-mocistas desde – deixem-me ver – sua penúltima coluna, na Folha também. Sem muito trabalho, a gente recolhe dali todas as platitudes que precisa. Vejam só:

  • O futebol, cheio de dúvidas, incertezas, contradições, emoções, alegrias e tristezas,  é uma metáfora da vida. Ah, que profundo. Olha, pessoal, os assassinatos, os estupros, os impostos – as leis em geral -, as religiões, a Arquitetura, a Engenharia Naval, a família do vizinho, a sobrinha do Álvaro, minha mercearia, o Monte Fuji, o Planetário do Parque do Carmo, meu pênis torto pra esquerda… metáforas da vida, OK?
  • Espertalhões costumam ter comportamentos contraditórios. Roubam dinheiro público, cometem todos os erros de um mau cidadão e, ao mesmo tempo, fazem caridades, belos discursos contra a injustiça social e ainda beijam e se enrolam na bandeira, quando o Brasil ganha um Mundial. São os espertalhões patriotas. Já citei antes esse tipo de gracinha, em Tostão, em outras ocasiões. Num amontoado de períodos desconexos, ele é capaz de atender às mais díspares expectativas – desde que todas elas sejam mais ou menos rasas. Você é contra a “Injustiça Social”, mas também quer tirar uma casquinha do PT? Use Tostão.  Quer se sentir com raiva do que se convencionou chamar de hipocrisia e ainda tem queixas contra manifestações ufanistas? Use Tostão. Uma coisa não tem nada a ver com a outra mas se queixar delas todas é bom para a consciência? Use Tostão. Outra coisa: de quem diabos esse sujeito está falando? Qual corrupto notório apareceu por aí beijando a bandeira (e enrolado nela, que coisa) depois da conquista brasileira (suponho que ainda estejamos falando de futebol, né?) de qualquer Mundial? Não entendeu, não quer entender, mas tudo isso parece massagear seus bons sentimentos? Use Tostão.
  • Os Estaduais estão repletos de contradições. Ahá – isso é assim porque, meu bom Deus, os Estaduais são metáforas da vida, né? OK, já descemos a lenha neles (checkpoint) e, agora, vamos baixar o sarrafo na gestão do futebol pátrio.
  • Enquanto os clubes gastam fortunas em contratações, repatriamentos, pagamentos a jogadores, a técnicos e até a gerentes, atrasam salários (ué, mas eles não gastam fortunas em pagamentos a jogadores, técnicos e até (!?!) a gerentes? Ah, esse Tostão… a que tremenda metáfora da vida ele está me saindo…) não pagam impostos e jogam em gramados ruins. Torcedores pagam caro para ver partidas fracas em estádios sem segurança e sem conforto. Uau. Checkpoint.
  • A contradição é uma característica do país. O Brasil é a sexta economia do mundo, mas, no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), ocupa a 84ª posição. Estou começando a entender. Tostão preferiria uma vida sem contradições, a fim de que tudo o que fosse repleto de contradições – como a própria vida ou meu pênis, por exemplo – não pudesse servir-lhe de metáfora, entendem? É tudo muito claro. E sábio. Em todo o caso, falamos bem e mal do governo – e da vida. Checkpoint.

Foram apenas os quatro primeiros parágrafos. Restam outros quatro.

Não vou desgraçar o dia de vocês com as demais demonstrações de checkpointismo fofo. Basta dizer que Tostão ainda encontra espaço para, mediante o encadeamento amalucado de asserções totalmente independentes entre si (Tostão escreve, cada vez mais, como se fosse Chalita bêbado a psicografar Hemingway – bêbado também)  cutucar o nível técnico da atual geração, a economia europeia-neo-liberal-demoníaca (faltou zoar o Papa, a Veja e os EUA, pra não falar da própria Folha que o publica), os salários dos futebolistas em geral (que são pagos mas não o são, segundo o contraditório pensamento tostãoniano, pura metáfora da vida), Douglas – meia que o Corinthians acaba de trazer de volta – e a crítica futebolística, que judia dos meias clássicos, tipo Douglas – como ele mesmo, o Sábio, – eu me lembro bem – judiava de Alex, dizendo que Juninho Paulista jogava mais do que ele – afinal, era o que os coleguinhas queriam ouvir, já que ninguém acredita que Tostão achasse mesmo isso.

É que o Tostão, mesmo, deve andar usando… Tostão. Que coisa.